Pequenas decisões, gigantes emoções.

Título Original: Brooklyn (2015)
Realizador: John Crowley
Actores: Saoirse Ronan, Emory Cohen, Julie Walters, Domhnall Gleeson

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As minhas expectativas eram baixas com este filme. Esta história de uma imigrante irlandesa nos anos 50, confrontada com sentimentos de saudade e um conflito interno sobre que país considera ser a sua casa, tinha tudo para ser um melodrama xaroposo e aborrecido. E, no entanto, é tudo menos. Todos os anos surge um filme que só vejo por “obrigação profissional” e acaba por me deixar de rastos absolutamente do nada. Este ano, esse filme é “Brooklyn”.

Há muitas coisas boas nesta obra realizada por John Crowley. A construção dos espaços e dos contrastes entre Irlanda e EUA nos anos 50 é um triunfo de direção artística. O argumento, adaptado por Nick Hornby do romance homónimo de Colm Tóibin, consegue um equilíbrio perfeito entre emoção contida e diálogos cativantes. O próprio realizador merece um elogio pelo modo como consegue imprimir ritmo narrativo numa história simples sem nunca a deixar descambar para o melodrama barato. Mas, vamos ser sinceros, nada disto teria resultado se não fosse a performance incomparável da sua protagonista.

Saoirse Ronan é incrível neste filme. Mais do que incrível, ela irradia aquela magia cinemática só possível naqueles papéis que ficam para a História. Como Eilis Lacey, Ronan dança numa linha entre a profunda emoção que vai sentindo (tanto tristeza como alegria – por vezes ambas) e a timidez natural que faz com que o seu corpo nunca mostre o que é impossível de esconder no seu olhar. Certas atrizes têm a capacidade de nos desfilar um rol de emoções infindável com apenas uma leve mudança no brilho do seu olhar – como se tivessem uma ligação direta entre o coração e os olhos e a conseguissem ativar a gosto. É o tipo de feitiçaria que faz com que um homem do século XXI, que passa metade da sua vida com a cara enterrada num iPhone, quase grite para o ecrã quando a protagonista está prestes a tomar uma decisão errada na sua vida. Não há razão racional nenhuma para eu me importar com que o que uma personagem fictícia num filme faz da sua “vida”. Saoirse Ronan fez com que eu me importasse.

Não vão ter muitas melhores experiências cinéfilas este ano que assistir às mudanças subtis no comportamento de Eilis à medida que esta vai desenvolvendo o seu romance com o italiano Tony Fiorello – um também excelente Emory Cohen, com uma performance que irradia alegria de viver e consegue evitar todos os clichés deste tipo de personagem, ao mesmo tempo que os cumpre, ponto a ponto.

“Brooklyn” é o tipo de filme que me faz gostar de ir ao cinema. Certos tipos de filmes vamos ver seja como for e vamos continuar a ver independentemente das nossas expectativas serem cumpridas ou defraudadas. “Brooklyn” é aquela pequena pérola que podíamos deixar escapar se não estivéssemos atentos. “Brooklyn” recordou-me a importância de viver a vida de olhos sempre bem abertos.

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