O Caso Spotlight

A podridão e a nobreza.

Título Original: Spotlight (2015)
Realizador: Tom McCarthy
Actores: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Liev Schreiber, Brian d’Arcy James

imageEm 2002, a equipa de jornalismo de investigação do Boston Globe, de seu nome “Spotlight”, desmascarou – através de uma série de artigos, eventualmente vencedores de um Pulitzer – não só um padrão de casos de abuso sexual de padres a crianças mas também a cumplicidade dos mais altos cargos da Igreja Católica na tentativa de ofuscar estes abusos. Treze anos depois, o realizador Tom McCarthy traz ao ecrã esta triste mas essencial história. Usando os jornalistas como ferramentas, tal como os próprios usaram as palavras impressas numa página de jornal, McCarthy cria aqui um filme que não é apenas brilhante na sua forma e conteúdo. É importante pelo seu impacto e significado.

Uma das notas mais brilhantes deste filme passa pelo seu argumento, escrito a duas mãos por Josh Singer e Tom McCarthy. Temos aqui um texto que consegue a proeza de contar uma história verdadeira com a maior fidelidade possível sem nunca sacrificar o entretenimento do telespetador. É uma prova de como não é preciso fazer compromissos artísticos e éticos para fazer um filme que qualquer pessoa pode disfrutar.

Especificamente, quero destacar a tentação tão grande que este filme poderia ter sentido para aumentar o volume no sensacionalismo. Com temas tão explosivos como pedofilia e corrupção sistémica na Igreja Católica, acredito que a grande maioria dos autores que pegassem nesta história não iriam resistir a encostar um megafone à sua indignação. Mas isso nunca acontece. Tal como os admiráveis jornalistas a que dá voz, “Spotlight” concentra-se na recolha e exposição dos factos e deixa a digestão das tragédias que estes revelam a nosso cargo. É essa a nossa missão como “leitores”. Não sei se alguma vez vi outro filme retratar de forma tão perfeita aquilo que deveria ser o ideal jornalístico.

A humanidade que brota neste filme nunca é pré-fabricada por diálogos contados ao milímetro para ganhar Óscares – ela nasce da naturalidade com que os seus atores encarnam os talentos e personalidades da equipa “Spotlight”. Todo o elenco está perfeito, mas destacam-se o estoicismo contido de Liev Schreiber como Marty Baron e a subtil força de Rachel McAdams como Sacha Pfeiffer, uma excelente profissional a debater-se com o impacto emocional que o seu artigo poderá ter na sua muito católica avó. Daria também um destaque ao desempenho de Mark Ruffalo, que deixa o seu corpo lentamente contorcer-se na sua transfiguração em Mike Rezendes, dono da única cena em que um dos jornalistas deixa toda a sua emoção sair cá para fora. Um momento de raiva justificada que pontua de forma ideal um filme propositadamente contido.

Através dos olhos destes jornalistas, somos confrontados com realidades sujas e duras de aceitar, cara a cara com um número deprimentemente grande de vítimas inocentes. E é aí, perante o confronto com esta realidade, que todos os artifícios desaparecem. Toda as maquinações da criação artística se tornam invisíveis e só resta o espetador e a história. Habituados que estamos a celebrar o trabalho de realizadores cuja visão é mais palpável “a olho nu”, por vezes negligenciamos a generosidade de artistas como Tom McCarthy. Sem qualquer hesitação ou vestígio de ego, o realizador serve aqui um propósito maior que o da sua própria ostentação. E o que é, se não isso, o jornalismo?

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