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Se estás a ler estas linhas então estás a ler as primeiras linhas do espaço de crónica que irei assinar, aqui no Filmes em Série. Sou economista e rapper, mas actualmente chamam-me “criativo” numa agência de comunicação (whatever that is…)

Não é nada disso que me traz até este espaço, mas antes uma crescente obsessão pela pop culture e fenómenos que mexem com muitos humanos ao mesmo tempo. A televisão e o cinema, pela sua própria natureza de massas, são áreas do entretenimento sobre as quais me irei debruçar. Não numa vertente de crítico de conteúdos, mas na óptica de um fã que gosta de perceber a indústria como um todo, dos screenwriters aos award shows, do social media aos estúdios.

A golden age da televisão está para ficar. Se os (mais ou menos) 120 minutos da longa-metragem do cinema tornam cada vez mais complicado contar histórias originais, o formato série revelou-se muito mais friendly para o storytelling, permitindo aos produtores e argumentistas “escavarem mais fundo” na concepção e densidade das histórias e personagens. Porque têm tempo para o fazer.

Quantos episódios demorou o público a perceber a complexidade de Walter White de Breaking Bad, ou a extensão da malícia de Patty Hewes em Damages? A televisão permite isso mesmo, “marinar” os personagens até que se tornem tanto ou mais juicy que a história em que inserem.

Até mesmo o paradigma da investigação jornalística se alterou, com a criação de documentários em série . A variável “tempo” é a chave da mudança, dando espaço ao viewer para imergir na história que lhe está a ser contada.

E isso está na base da minha mais recente obsessão – The Leftovers. A série original da HBO vai para a sua terceira e final temporada, onde espero finalmente perceber “what the hell is going on”. A premissa da série conquista-nos logo no primeiro minuto, onde 2% da população mundial desaparece (ao mesmo tempo) sem deixar rasto. Na cena seguinte já se passaram 3 anos, e nós acompanhamos a vida de alguns dos sobreviventes num mundo onde, pura e simplesmente, deixámos de ter respostas. A constante dúvida sobre o que se passou, o que se passa ou que se vai passar deixa-nos com aquele Lost feeling de ter que ver o próximo episódio imediatamente, já, agora. As dúvidas existenciais estão sempre tão perto de ser respondidas que o espectador não consegue sair sem antes ter as respostas. Como dizia um amigo, “há momentos tão fortes que fazem do Twin Peaks uma trama para meninos”.

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E depois há a realização, a direcção de fotografia e a música. Em momentos chave na narrativa a série convida o espectador a comungar na dúvida, no desespero e na angústia de não perceber o que se está a passar. Tal qual as personagens com quem vamos partilhando a história. Sequências inteiras sem uma única palavra, onde a introspecção dos personagens se mistura com a nossa, ao som do piano tortuoso de Max Richter, o compositor responsável pela banda sonora original.

Finalmente, Carrie Coon, Justin Theroux e Liv Tyler são os actores que cozem na perfeição este bordado de existencialismo, ao mostrarem-nos sobretudo a luta entre a força e a fragilidade da mente e das emoções humanas, quando encaram o desconhecido e o inexplicável.

Com tantas iguarias à minha disposição na grande mesa de jantar dos conteúdos de entretenimento, eu estou seriamente à espera que me sirvam “restos” outra vez.

 

André Mateus

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