Um realizador capaz do melhor, mas conhecido pelo pior.

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É normal que um realizador que tenha já uma carreira de mais de 30 anos e 24 filmes, tenha altos e baixos. O que não será tão normal é que seja a mesma pessoa a fazer filmes de grande qualidade e, ao mesmo tempo, filmes tão maus que nunca deviam ter visto a luz do dia.

Na verdade, Joel Schumacher teria uma carreira bastante banal com filmes “a meio da tabela” uns melhores, outros piores. Mas a década de 90 é incrivelmente irregular.

Um começo que indicava que havia algum potencial, foi “alimentado” pelo grupo de jovens estrelas que despontaram no anos 80. O então chamado “brat pack” incluía atores como Julia Roberts, Rob Lowe, Emilio Estevez, Judd Nelson, Demi Moore, Andrew McCarthy, Ally Sheedy, Jason Patric, Jami Gertz e Kiefer Sutherland. Foi com algumas destas novas estrelas que fez “O Primeiro Ano das Nossas Vidas” (St Elmo’s Fire) sobre um grupo de jovens que são confrontados com as dificuldades de jovens adultos após a vida universitária. Um filme cheio de personagens clichés, muito característico da época, mas que consegue ser um filme acima da média. Todos os personagens são relevantes e espelham a vida real de um jovem americano nos anos 80.

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Ainda beneficiando desta nova geração emergente, Schumacher estreia os muito diferentes “Os Rapazes da Noite” (The Lost Boys) e “Linha Mortal” (Flatliners). O primeiro à volta de dois irmãos que se mudam para a California e descobrem que, entre motas, muito cabedal e estilo, claro, existe um grupo de vampiros a abater. Um filme de terror que é mais uma comédia que qualquer outra coisa. Já “Linha Mortal” tem como base uma experiência feita por um grupo de estudantes médicos que pára os batimentos cardíacos na esperança de descobrir o que acontece quando passamos para o “outro lado”. Outro filme na categoria de suspense que acaba por ser surpreendentemente bom. Ambos os filmes foram entretenimento puro e duro.

É nos anos 90 que a coisa se torna muito estranha.

Em 1993, Schumacher sai do filme de adolescente para o mundo adulto. E de que maneira. “Um Dia de Raiva” (Falling Down) segue o dia de um homem (Michael Douglas) em que na vida tudo lhe corre mal e tem um momento de ruptura quando está parado no meio de uma auto-estrada. Esse momento leva-o a ir contra tudo o que acha errado, de caçadeira em punho, numa espiral de violência crescente. Um filme que nos traz um dos melhores papéis de sempre de Douglas, muito bem acompanhado pelo polícia que o persegue (Robert Duvall). Um belíssimo filme que coloca Schumacher no mapa de Hollywood e lhe garante acesso a outro tipo de “budgets”.

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Era aqui a prova de fogo. E a resposta não foi conclusiva. Nos seus próximos quatro filmes, Joel consegue fazer dois grandes filmes e outros dois que iriam assombrar o resto da sua carreira.

“O Cliente” é um digno sucessor de “Um Dia de Raiva”. Num filme muito mais sério, Schumacher consegue adaptar o livro de John Grisham com mestria e tem em Susan Sarandon e Tommy Lee Jones uma dupla que brilha a grande altura (Susan foi mesmo nomeada para Óscar de Melhor Atriz Principal). Mas mais surpreendente é mesmo Brad Renfro que quase rouba o filme no papel de uma criança de 11 anos que presencia com o seu irmão um crime e contrata uma advogada (Sarandon) para o proteger dos assassinos e do assédio do promotor público (Jones). Uma performance incrível do então pequeno ator.

Pelo menos Grisham terá gostado, já que é ele mesmo que pede a Schumacher para filmar outro dos seus livros. “Tempo de Matar” (A Time to Kill) é um filme poderoso com um cast impressionante. À cabeça, Matthew McConaughey (que mostra pela primeira vez que tinha algo mais a mostrar) é muito bem acompanhado por Sandra Bullock, Kevin Spacey, Oliver Platt, Samuel L. Jackson, Kiefer Sutherland, Donald Sutherland e Ashley Judd. O filme acompanha o caso de um homem negro (Jackson) que é preso depois de matar a tiro os dois homens que violaram a sua filha de 10 anos. Isto num estado sulista em que o racismo está presente nas mais altas patentes. Um filme carregado de bons personagens e que tem algumas das melhores cenas de tribunal de sempre.

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Aqui é que tudo se complica. Depois de Tim Burton ter reanimado “Batman” para o cinema e depois de uma sequela ainda mais negra que o primeiro filme, a Warner Brothers parece ter-se assustado e entrega a saga a Schumacher. Se “Batman Para Sempre” (Batman Forever) foi claramente inferior aos filmes de Tim Burton tendo como novo herói o improvável Val Kilmer e sendo “safo” pelo Enigma (Jim Carrey), o seguinte “Batman e Robin” é horrível, com performances tão más de George Clooney (Batman), Chris O’Donnell (Robin) e Arnold Schwarzenegger (Mr. Freeze), que tanto eles como o realizador já pediram desculpas por terem matado a saga do Cavaleiro Negro que viria mais tarde a ser salva pelo senhor Nolan. A verdade é que estes dois falhanços épicos viriam a marcar a carreira de Schumacher. Isto não quer dizer que não houvesse mais nada de bom do realizador.

Talvez para se esconder do grande público, Schumacher vira-se para produções mais independentes. Nesta sequência faz um óptimo filme passado na guerra do Vietnam. Focado no campo de treino imediatamente anterior à ida para a frente de ataque, “Tigerland” apresenta ao mundo um jovem Colin Farrell como um soldado irreverente que tenta sobreviver ao intensivo treino deste campo. O que este filme nos traz é um lado menos visto desta guerra. A pressão da antecipação da ida para uma guerra que muitos contestavam. Uma daquelas gemas perdidas que deve ser vista.

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Depois disto Schumacher ainda fez filmes como “Cabine Telefónica” (Phone Booth), novamente com Farrell, “Preço da Coragem” (Veronica Guerin) com a grande Cate Blanchett e “Número 23”, com Jim Carrey que tiveram críticas para todos os gostos. O denominador comum terá sido a boa performance dos protagonistas. Para compor o ramalhete e voltar a baralhar a sua carreira, Schumacher atira-se ao musical “Fantasma da Ópera” onde usa um dos piores casts de sempre num filme sofrível.

Como se faz um balanço a isto? Como é obvio, não tem uma carreira ao nível dos grandes realizadores americanos. Acima de tudo, destaca-se a sua capacidade na direcção de atores, visto que conseguiu em vários filmes algumas das melhores performances dos seus atores.

Certamente não será justo que a sua imagem fique manchada pelos seus falhanços. Mas ficou.

 

André Simões

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