Quão estranho é demasiado estranho?

Título original: Hail, Caesar!  (2016)
Realizadores: Ethan Coen,  Joel Coen
Actores: Josh Brolin,  George Clooney,  Alden Ehrenreich

Salve, César!Quando os Irmãos Coen se decidem lançar a comédias, nada está fora da mesa. O inesperado torna-se a norma e o melhor que temos a fazer é colocar o cinto de segurança e disfrutar da viagem. Essa é a única forma de podermos apreciar a bizarria de “Salve, César!”. Mesmo assim, este filme deixou-me sempre com a dúvida de se estaria verdadeiramente a gostar do que estava a ver ou antes a respeitar o nível de coragem artística que move os seus autores.

Tentar explicar o enredo deste filme é um labirinto sem saída, por isso nem sequer me vou aventurar por aí. O importante a reter é que esta é uma viagem pela velha Hollywood dos grandes estúdios e opulentas produções e a coleção eclética de personalidades bizarras que faziam mover esta curiosa máquina.

A encabeçar este rol de personagens “Coenescas” incluem-se um George Clooney que se entrega de corpo e alma ao surrealismo de um ator classicamente charmoso (e não especialmente inteligente) que se vê envolvido num estratagema de um grupo de comunistas que querem forçar os cabecilhas do estúdio a pagar um resgate, que contam usar para financiar as suas operações. É esse tipo de filme. Tal como tinha acontecido em “Irmão, Onde Estás?”, Clooney sente-se muito confortável com o sentido de humor peculiar dos Coen, ainda que a bizarra adaptação da “Odisseia” de Homero que os irmãos fizeram com “Irmão” tivesse sido uma bastante melhor obra, quanto mais não fosse pela sua incrível banda sonora.

Clooney está bem no filme, tal como Josh Brolin, na sua estoica interpretação de um muito devoto responsável do estúdio que se comporta como um detetive de Raymond Chandler, mas a verdadeira revelação deste filme é Alden Ehrenreich. Como Hobie Doyle, um tímido cowboy que é enlaçado para o estrelato na grande tela em filmes de qualidade duvidosa, Ehrenreich enche o ecrã com um charme discreto que nos aquece o coração sempre que entra em cena. O instinto de realizadores menores seria para gozar com a simplicidade de Hobie Doyle, mas os Coen criam aqui um personagem mais complexo que isso, com um brilho especial a reluzir por trás dos olhos fascinados com as luzes da ribalta. Se Brolin e Clooney são o cérebro do filme, Ehrenreich é o seu coração.

Nos seus detalhes, há muito para gostar em “Salve, César!”. O design de produção é incrível e a fotografia é do melhor que há para oferecer no cinema moderno – ou não tivesse sido feita pelo eterno e subapreciado Roger Deakins. Mas acaba por não ser mais que uma coleção desconexa de pontas soltas que acabam por quase nunca se atar. Para cada momento divertido temos outro que nos deixa simplesmente confusos. Bem sei que Joel e Ethan Coen não tendem a facilitar a coisa para os seus espetadores, mas talvez tenham levado a coisa um pouco longe demais com a sua estranheza.

À saída deste filme, senti-me dividido. Será que importa que me tenha divertido sendo que não compreendi metade do que estava a ver? Será que havia sequer alguma coisa para “compreender”? Seria a desconexão das suas histórias parte do propósito do filme? Já passou quase uma semana desde que vi “Salve, César!” e continuo sem respostas. Por vezes, com comédias dos Coen, mais vale nem fazer as perguntas.

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