À segunda é mais barato

 

Sou crítico, bastante crítico. Mas não de cinema. Mas é sobre isso que irei escrever neste espaço. Vão ser linhas que não respeitam os passos de Vogler nem as opiniões do Jorge Mourinha. Vão ser linhas em que as minhas opiniões se misturam com as emoções. Aquelas que um filme desperta no meu eu mais profundo. Numa camada abaixo do consciente, vá. Aquelas que me vão invadir a psique depois de comprar o meu bilhetinho e me enterrar confortavelmente na cadeira do cinema.

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Depois do ‘wax on, wax off’ nunca mais fui o mesmo. Mas naquelas idades as coisas da personalidade e das referências mudam com tudo e mais alguma coisa. Lembro-me que durante algum tempo o Daniel-san (Ralph Macchio) era uma espécie de herói quase anti que me enchia as medidas. Mas já lá vamos.

A sessão era daquelas às três da tarde, no Anusha ou no Sheza*, já não me lembro bem. Foi a primeira, e se a memória não me tira o tapete, a última a que fui com o meu pai ao cinema (agora em conjunto só discutimos dérbis e nunca corre bem).

Era a primeira vez que ia àquele cinema. Tínhamo-nos mudado para ali há pouco tempo e era uma espécie de iniciação. Claro que fui hipnotizado pelo nome do filme – O rapaz do karaté ou rapaz karateca. Aquilo num puto de doze ou treze anos hipnotiza.

Não fazia ideia que era um filme de argumento elementar em que o herói faz a sua viagem e ganha (sempre) no fim, na onda do ‘rapaz-mais-ou-menos-pobre-e-indefeso-que-se-torna-o-herói-da-história-e-fica-com-a-rapariga-loura-e-rica-ex-namorada-do-rapaz-louro-e-rico-arrogante-e-estúpido’. Isso também nem interessava, nem sabia que era assim que se faziam filmes. Fui lá porque sim.

O que é certo é que aquele rapaz , Daniel, mesmo tendo levado mais tareia naquele filme do que eu na adolescência toda (pudera, o realizador já vinha de arrumar o Rocky antes), era uma inspiração para mim. Tanto que cheguei a fazer uma fita para meter na cabeça cheia de motivos orientais e levar numa visita de estudo para aí à praia da Nazaré, antes do canhão ser o que é hoje. Ainda bem que não havia nem internet, nem máquinas digitais e, muito menos, telemóveis com câmaras se não hoje, o filme era outro.

Admito que me identifiquei logo com o tipo. Franzino, com um ar meio inocente, entre o craque que sabia dar uns toques na bola e o semi-frágil envergonhado que às vezes queria um buraco para se enfiar. E não foram poucas as vezes. Como quando subiu à parte alta da cidade para ir buscar a miúda rica (com um carro a cair de podre com a mãe lá dentro) e irem ao parque de diversões lá do sítio. Para descontrair começa aos pontapés, ligeiros diga-se, aos tijolos da entrada. É óbvio que ao segundo ligeiro pontapé já havia tijolos no chão, mesmo à frente dos snobs dos pais dela, gerando ali um quase-imperceptível conflito machisto-familiar entre o pai e mãe. É pá, aquilo era mesmo eu, com excepção de não ter ‘sacado’ a miúda gira com aquela idade. Acho mesmo que a sorte dele foi ter levado na cabeça, e também nas costas, e acho que uns valente socos no estômago.

Por coincidência quase celestial, o velho Miyagi (‘Pat’ Morita) ouviu o queixume todo, atrás das persianas, do rapaz à mãe. Mãe, quero voltar para a Nova Jérsia. Já não tenho mais dinheiro para os pensos rápidos nem corpo para tanta nódoa negra. Nem pensar que aqui há palmeiras, dizia-lhe a mãe. Podia ser eu.

E o japonês que afinal era de Okinawa a dizer para si mesmo que ia ajudar o ‘san’ Daniel a ser o herói do vale. E ajudou. Depois de ter corrido muita cera naqueles carros e muita tinta naquela cerca, o rapaz lá percebeu que estava a treinar karaté e não para o ‘Querido, mudei a casa’. Ainda leva um kimono e um carro de presente para ir passear a miúda. Era impossível não gostar daquilo.

Mesmo que a trama tenha incoerências quase infantis, como quando o rapaz leva a última grande tareia antes de um plot point porque decide saltar por cima da cerca ao pé de casa, quando podia ter simplesmente tentado abrir o cadeado, como fez logo a seguir o Mestre. Siga. Só dei por ela depois. Não interessa. Eu entrei naquele filme.

Desde o primeiro momento também fiquei apanhado pela rapariga loura, a Ali (Elisabeth Sue). E não fui só eu. O Daniel também. E coincidência das coincidências, depois de ter enfiado literalmente a porta na cara de um vizinho, este carrega-lhe a mala e convida-o para uma festa de praia, onde começa a paixoneta (vizinhos destes só mesmo em filmes). Eu estava fascinado por aquela beleza americana loura (na verdade fazia-me lembrar uma prima minha), que uns três ou quatro anos mais tarde, ainda anos 80’s fez o Cocktail (e que eu, mais uma vez achei o máximo, enfim, admito a minha costela kitsch de gosto duvidoso).

No fim, depois de quase ter mudado de cor de tanta tareia, o puto ganha o combate quase por milagre (sem ele não haveria clímax) como não podia deixar de ser, com aquela inesquecível técnica do grou, sai em ombros e leva a rapariga.

E tal como nessa iniciação ao cinema, sem pipocas na mão, é óbvio que fiz a minha incursão pelas artes marciais, felizmente, sem fita na cabeça. Ambas se mantiveram. Pelo menos isso.

Já o Karate Kid é como folhear páginas de memória teenager. ‘Bonsai, not Banzai!’ Ou as duas.

 

Para este filme vai o Óscar do carro mais bem encerado da história de cinema. E é bem merecido.

 

Título original: The Karate Kid (EUA – 1984)
Realizador: John G. Avildsen
Argumento: Robert Mark Kamen
Protagonistas: Ralph Macchio, ‘Pat’ Morita, Elisabeth Shue

 


* míticas salas de cinema no Centro Comercial da Portela que já não existem há anos. Abriu um café. Lá.

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