Como os Irmãos Coen e Roger Deakins conseguem dar ritmo à palavra falada – e à sua ausência.

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O bom uso do não diálogo é fulcral para qualquer papel, transporta-nos para o cinema mudo e um dos seus mestres, Charlie Chaplin, onde todo o discurso era feito através do seu comportamento corporal, as suas reacções e expressões.

Aplicado ao cinema contemporâneo, o não diálogo pode ser uma arma poderosa, em que se substitui as palavras por emoções, inconscientemente aumentando o foco do espectador para tudo o resto que é representado quando é excluído o diálogo.

Falar deste tema sem falar dos Irmãos Coen, a sua relação com Roger Deakins e a forma como usam a técnica “shot, reverse shot”, não faria sentido. Esta equipa dá uma nova vida à forma como o espectador vê a cena e a sua relação com o próprio filme. Ao filmar os diálogos dentro da conversa, usando “single shots” e uma lente grande angular, eles conseguem uma relação directa sobre a acção. E os close-ups exagerados são essenciais para essa relação com o público.

A simplicidade, propositada, que essa filmagem provoca, obriga a que o espectador se foque na personagem, no pequeno espaço à sua volta e tudo o que ela quer representar. E, em poucos segundos, aquela figura ganha uma história. Está criada a personalidade daquele indivíduo pelo espaço que a envolve, pela roupa que veste, pelos seus tiques, expressões, rugas e postura no seu diálogo. É um foco enorme sobre o papel criado, uma responsabilidade acrescida para o actor – daí o casting ter que ser excepcional.

É perfeito para o estilo dos Coen e para o que eles pretendem passar. Exemplos como “The Big Lebowski” ou “No Country for Old Men” demonstram essas acções. A verdade é que a relação entre o espectador e a cena torna-se muito mais pessoal, tornando a acção mais directa e constrangedoramente engraçada.

Nada disto funcionaria sem a forma brilhante de criar ritmo que os Coen têm. O corte e passagem dinâmica que eles constroem de personagem para personagem dão um equilíbrio único e bem ritmado a cada cena. E é aqui que se faz a ligação com os momentos sem diálogo, em que é essencial dar o ritmo de corte à acção – e eles compreendem quando é o momento certo de passar de expressão para expressão e/ou de diálogo para diálogo.

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