Como Louis CK está a revolucionar o modo como os artistas vendem o seu produto.

A ascensão de Louis CK de “comic’s comic”, um comediante respeitado pelos seus pares a consensualmente um dos melhores stand-ups da actualidade e sucessor espiritual de George Carlin, por interessante que possa ser, não será o que abordaremos hoje.image
Antes, desperta a atenção como alguém que podia acumular dinheiro e minimizar chatices passeando cada novo espetáculo anual pelo continente americano tem arriscado tanto, quer do ponto de vista artístico quer experimentando com os modelos de negócio da sua indústria.

Desde o virar do século a escrever e realizar curtas e longas metragens de reduzido grau de sucesso (comercial, pelo menos) e com uma primeira experiência na HBO cancelada logo na primeira temporada (Lucky Louie), é no canal FX e com o simples nome de “Louie” que CK ganha uma casa mais permanente e começa a arriscar progressivamente mais ao longo das cinco temporadas que leva no momento. Inicialmente uma comédia honesta e por vezes dura sobre a vida do próprio e da sua relação com as filhas, mulheres e o mundo, “Louie” foi ganhando pinceladas de surrealismo e, por vezes, assumida bizarria, com sonhos e pesadelos misturados com momentos extremamente humanos e relacionáveis. Além de inúmeras nomeações aos Globos de Ouro e Emmys, a série saiu por três vezes vencedora deste último prémio, duas para o próprio CK para Guionismo e outra para Melissa Leo, como guest star.image
Tem ficado claro que os interesses de Louis CK vão muito além de simplesmente fazer rir. Se assim já o era nas autênticas curtas-metragens que se tornaram a série, mais evidente ainda se tornou no seu mais recente projecto, o enigmático “Horace & Pete”.

Há meia dúzia de sábados, os subscritores da sua mailing list foram brindados com um email de apenas seis linhas “Hi there. / Horace and Pete episode one is available for download. $5. / Go here to watch it. / We hope you like it. / Regards, / Louis” com um link. Se o modelo de negócio já era familiar aos seus seguidores (já lá vamos), tudo o resto era enigmático.

Os aventureiros que arriscaram os cinco dólares foram surpreendidos com uma hora de quase-teatro filmado, uma espécie de peça escrita e realizada pelo próprio com nomes como Alan Alda (soberbo no papel de um tio racista e amargo), Steve Buscemi e Edie Falco, além do autor. Toda passada dentro de um bar em dificuldades, a série revela-se mais uma fatia de como Louis vê o mundo – duro, complexo, com momentos verdadeiramente engraçados e outros tantos melancólicos. Desde aí, cada fim-de-semana tem trazido mais uma oportunidade de passar algum tempo naquele universo, com personagens cada mais familiares. E é bem escrito que se farta.image

Mas não é só no conteúdo que Louis tem inventado, no melhor sentido da palavra. Auto-financiado, com um modelo de distribuição relativamente inovador para o tamanho dos nomes envolvidos e de duração altamente variável, esta série de televisão fora da televisão é só o último exemplo das experiências que tem feito para chegar ao seu público.

Acedendo ao site e sobretudo através da sua mailing list, Louie tem disponibilizado os seus especiais de comédia (bem como de alguns amigos como Todd Barry e Tig Notaro) a troco de cinco dólares, deixando claro que espera que o preço seja apelativo o suficiente para ninguém ter de piratear os seus conteúdos (ou, nas palavras do próprio – don’t be an asshole). Após os cinco dólares do episódio 1 de “Horace & Pete”, os restantes têm-se situado entre os dois e três dólares cada.

Finalmente, o comediante tem usado o seu site para vender directamente bilhetes para os seus espetáculos ao vivo, tentando assim cortar intermediários e mantendo os preços mais acessíveis aos seus fãs (e presumivelmente ficando com uma margem maior).

A sua breve participação na cerimónia nos Óscares, onde entregou brilhantemente o prémio de Curta de Documentário (“I like this award because it really matters to the person who wins it. This Oscar is going home in a Honda Civic”) deixou em muitos o desejo, quiçá irrealista, de ver Louis CK a apresentar uma futura edição da maior celebração da sétima arte.

Até lá, Louis CK vai continuar a arriscar na sua arte e a tentar tornar-nos a todos um pouco mais humanos.

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1 Comment

  • Mauro Pedrosa
    On 17/03/2016 14:56 0Likes

    A admiração imensa que tinha pelo Louis CK chegou a um novo patamar com o Horace & Pete. Absolutamente fenomenal!

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