Liga de Mulheres

Olá. Sou a Filipa e, quando não estou a tentar criar uma biografia espetacular para mim própria, podem-me encontrar no sofá, aninhada com o Belgas (o gato) ao lado, a comer chocolate e a fazer uma maratona de filmes e séries.

Neste mundo (do) imaginário de Hollywood, tenho descoberto que há filmes que nos marcam pelas incríveis imagens de largos horizontes ou de incessantes batalhas. Outros deixam-nos com uma frase na cabeça ou com a cabeça em… bem, na lua… Mas sabem que filmes realmente me apaixonam? Digo-vos já: são aqueles que têm realmente algo para dizer. Aqueles que me inspiram a sair do sofá e ser alguém melhor. E, ultimamente, essa inspiração tem vindo de mulheres que, pelas suas personagens com grande girl-power e pela sua influência fora do ecrã, têm contribuído para o tal “female empowerment”.

Por isso, a minha primeira crónica vai ser uma ode a Elas. Vai ser a verdadeira Liga das Mulheres.image

“Hey, if you want black nominees every year, you need to just have black categories. That’s what you need. You need to have black categories. You already do it with men and women. Think about it: There’s no real reason for there to be a man and a woman category in acting. C’mon. There’s no reason. It’s not track and field. You don’t have to separate ‘em. You know, Robert De Niro’s never said, “I better slow this acting down, so Meryl Streep can catch up.”

Monólogo de Abertura dos Óscares 2016, Chris Rock

O que começou por ser um comentário à onda dos #Oscarssowhite, deixou-me, na verdade, a deambular por entre as teias de outro tema que tem enfurecido muita gente em Hollywood: a discrepância que parece haver entre o poder, protagonismo e salários entre homens e mulheres à frente e atrás das camaras.
Chris Rock tocou na ferida ao de leve, quase passou despercebido no meio de todo o brilho da cerimónia e críticas de racismo, mas este tema tem aquecido sob o sol de L.A. e, por isso, vamos saber, afinal… haverá um final feliz para a igualdade de géneros em Hollywood?

Para perceber melhor a crescente onda de feminismo neste microcosmos, vamos recuar até à década de 60, em que, muito timidamente, os direitos das mulheres se começaram a afirmar no maior palco do mundo.
Em 1964 estreia aquela que, para muitos, é tida como um dos ícones dessa nova “rebelião”: a série “Bewitched”. Curiosamente, é também nesse ano que se dá mais um passo na afirmação da igualdade de direitos nos EUA, ao se passar o ato de direitos civis que garantem a protecção contra a discriminação laboral a mulheres e minorias.

“Bewitched”, série protagonizada por Elizabeth Montgomery, poderia ser confundida com uma sitcom normal para a época: começa com a típica história de boy-meets-girl, boy-marries-girl. Mudam-se para os típicos subúrbios e ela torna-se uma típica dona-de-casa. Mas de típica esta história não tinha nada.

Samantha, a personagem de Montgomery, era, na verdade, uma poderosa bruxa que, com um toque de nariz, fazia as coisas mais extraordinárias. E não eram apenas os seus poderes sobrenaturais que a tornavam mais influente que Darrin, o seu marido (protagonizado por Dick York e, depois, por Dick Sargent). A sua astúcia e a forma inteligente como lidava com as situações do dia-a-dia e, muitas vezes, salvava o próprio Darrin de situações constrangedoras, eram o que faziam dela a heroína da história.
Esta linha narrativa tornava-se, assim, um piscar de olhos às donas-de-casa reais, que reviam em Samantha a forma prática e sagaz com que elas próprias lidavam com os desafios com que se iam deparando diariamente.image

Muitos argumentam que, apesar da série rodar à volta dos feitos de uma forte personagem feminina, ela não chegava a ser feminista, devido à presença de Darrin: o marido conservador, que queria controlar os poderes extraordinários da sua mulher e que levou a que ela se limitasse a uma vida nos subúrbios, quando poderia estar a viver uma vida de luxo num piscar de olhos.

“You’re going to have to learn how to be a suburban housewife – to keep house, to cook, and soon we’ll be a normal, happy couple just like everyone else.”, dizia ele.

Contudo, esta necessidade de oprimir Samantha revela algo bem mais significante do que pode parecer à primeira vista. Darrin não era um marido machista. Ele era apenas um homem que adorava a sua mulher, mas que se sentia inseguro e não sabia lidar com o facto de, apesar das aparências, ter alguém em casa incrivelmente mais poderoso do que ele.

Darrin reflecte, assim, os sentimentos de muitos maridos da época, que, pela primeira vez, se vêem confrontados com mulheres mais independentes, que estão a afirmar o seu papel na sociedade, a encontrar o seu lugar no mundo do trabalho e, no fundo, a comprovar o que já há muito se vinha a suspeitar: a vida delas está única e exclusivamente nas mãos delas.

Entre a encantadora emancipação de Samantha e a periclitante vontade de controlar de Darrin, os criadores de “Bewitched” não resistiram em espalhar mais um pózinho de magia feminista, na forma de Endora (Agnes Moorehead), mãe de Samantha.

Endora incorpora o crescente espírito hippie da época, não pelo peace and love com que (não) trata Darrin, mas pela sensação de liberdade que emana. Sem qualquer travão ou filtro, ela nunca perde um momento para relembrar Samantha das oportunidades que ela teria se vivesse com alguém que compreendesse os seus poderes e os deixasse utilizar livremente.

Samantha, Darrin, Endora. Todos eles, à sua maneira, e sob laugh tracks que não denunciavam o tema sério que “Bewitched” realmente explorava, contribuíram para que a ficção começasse finalmente a espelhar as mudanças sociais que se faziam sentir e a contribuir para quebrar a tensão e desigualdade entre os géneros.

#hollywoodforher

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