Flight Delayed – 20000 Days on Earth

Nick Cave, mais que um músico, é um contador de histórias.

“E quanto mais escrevo, mais pormenorizado e elaborado o mundo se torna e as personagens que vivem e morrem ou se desvanecem, são apenas versões distorcidas de mim próprio.”

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Conhecia Nick Cave de ouvir algumas músicas dele lá por casa, ainda com os meus pais. Havia uma com a Kylie Minogue que era bonita mas sinistra, e foi essa a principal característica que dei ao Nick Cave. Vim a descobrir que é realmente uma personagem sinistra, de voz grossa e séria, como se saísse de um filme de Tim Burton. Realmente a voz é séria, mas ganhou entretanto uma dimensão maior e mais real, mais próxima.

Há pouco tempo ele esteve nas notícias principais porque o filho dele morreu num acidente – caiu de uma falésia após ter tomado LSD. Este filme, que ele co-escreveu, teria sido certamente diferente se tivesse sido feito depois deste incidente, até porque desde então não ouvimos falar de Cave e a sua última publicação no Facebook foi nessa altura.

Para variar, e daí o título simples que dou a este artigo, estou atrasada – o filme/documentário (?!) é de 2014, antes do acidente do filho e nunca tinha ouvido falar dele. Chegou às minhas mãos por mãos prováveis, por vezes bizarras, mas sempre atentas e com um timing perfeito.

Ao verem o filme, vão perceber a densidade que um evento destes poderá ter significado para Nick Cave e como as suas reflexões sobre a forma de viver terão eventualmente quebrado. No filme, aborda-se Susie Cave – a mulher, o pai, os filhos, a mãe. Claro que isto significa que o filme seria hoje em dia bem diferente. O que teria mudado nesta história se tivesse sido feito após a morte do rapaz? O que teria sido Cave se o rapaz não tivesse morrido? Não podemos saber, mas o que aqui está, dá-nos respostas que estão muito para lá destas simples suposições.

Mas vamos ao que realmente Cave nos deixou, pelas mãos dos realizadores Iain Forsyth e Jane Pollard.

Apesar de mais conhecido entre os fãs, o filme ganhou vários prémios, nomeadamente, dois prémios do Sundance em 2014. Como não pertenço ao grupo de fãs e seguidores, nem sou conhecedora da obra completa de Cave, deixo o meu disclaimer sobre não responsabilidade em caso de conhecimento curto ou visão diferente da generalidade do seu público.

O filme resume um dia na vida de Cave, um homem que reúne em si muitos talentos, todas eles ligados ao mundo artístico, todos ele concentrados no acto da escrita.

Tem uma voz narrativa que não deixa perdermos-nos em nada, Nick Cave, o próprio. Acrescenta à narrativa profundidade, ritmo e verdade.

E eis que entra a par da voz e do ritmo (que é dado, aliás, através de outros elementos que não vou desmascarar, puxem pela vossa musicalidade), um tema que me é especialmente querido, que tenho vindo a remexer e que começa a ganhar importância – a memória.

Noutra música, cantada em português, que nada tem a ver com esta análise, ouvimos “a memória é a coisa mais jovem…”. Fiquei a pensar nisto outro dia e ao ver este filme salta-me a palavra para o colo outra vez. O que fazemos para a nossa memória se manter jovem? Contamos histórias, gravamos momentos que pensamos e perseguimos e tentamos repetir. Cave escreve, compõe e canta essas memórias.

Cave mostra-nos neste filme uma veia artística que não se consegue desligar de quem ele é, que não se afasta e trabalha sempre para não perder nada em cada dia que passamos por cá.

Além da memória, terão oportunidade de pensar sobre a vossa herança, sobre as amizades, sobre o que é o amor e a mudança e sobre o que cada evento do nosso dia significa e carrega na nossa forma de viver.

Há uma análise metódica dada por um psicólogo com quem Cave conversa e há uma série de conversas com personagens da vida de Cave (que sinceramente, nem interessam quem são) que nos dão outra tanta matéria com que podemos pôr na pausa e pensar.

E pus-me a pensar… porque é que nunca soube apreciar Nick Cave? Porque nunca me apaixonei ou simplesmente percebi Nick Cave?

Porque Nick Cave não é um cantor, como eu assumia que ele era. Apenas e só um cantor. Não é – ele não canta. Ele é um contador de histórias. É de uma profundidade que não nos deixa ficar com canções, dá-nos histórias com um ritmo certo e uma melodia bruta, como ele.

São esses momentos que captamos que perfazem muito mais que 20000 dias na Terra.

Sara Martins

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