Crónica Antagónica

Quando o André me perguntou se queria contribuir para um projecto sobre cinema, respondi algo irreflectidamente, pois escreve-se tanto e tão bem sobre filmes que será sempre difícil acrescentar consequentemente. Senti uma mistura de entusiasmo e um pânico ligeiro, mas mesmo assim pânico. Teria de ser desafiante para mim, algo idiossincrático, porque não democrático, na escolha dos filmes de forma a reflectir o meu gosto pessoal e sobretudo informal, sem chamar atenção para a própria escrita. Havia pelo menos, chegado à forma como queria escrever, agora, sobre o quê? Filmes que marcaram? Tantos! Crítica? Nem pensar! Realizadores preferidos? Aborrecido. Ensaio, muito menos. Cinema clássico? Contemporâneo? Mainstream? Arthouse? Obscuro? Uma Crónica? Possivelmente.

Não tenho ido muito ao cinema, vejo pouca televisão e não faço downloads, não por razões éticas, mas mais mundanas, como ter um computador em fase terminal e consequentemente mudo. Além disso não tenho paciência para esperar que os filmes carreguem para depois os ver em ecrã pequeno, com som igual. Muito pouco geekish para quem gosta de filmes, eu sei. Para mim, cinema é melhor na tela, quanto maior melhor, bem no escuro e com som a reverberar nas entranhas, como dita qualquer psicanalista que se respeite!

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Pode dizer-se que experienciei síndroma da página branca mesmo antes de estar a olhar para uma, mas eis-me salvo pela eminência dos Óscares! Já tinha visto “Quarto”, do irlandês Lenny Abrahamson, que viria a ganhar a estatueta para a Melhor Actriz, “O Renascido”, que valeu a Alejandro Iñarritu o prémio de Melhor Realizador e a Leonardo DiCaprio o de Melhor Actor e ainda o “Mad Max: A Estrada da Fúria”. Imperava ver os restantes filmes o quanto antes, mas a maioria já só passa mesmo em sessões incompatíveis com a vida de um comum mortal, que trabalha por turnos. Até “Os Oito Odiados” do Quentin Tarantino me é difícil encontrar num horário que dê jeito. Os Óscares também não ia dar. Fez-se luz! O “Zootrópolis” que ia ver com a filha! Era isso! Quem iria escrever sobre uma animação para miúdos? Adormeci durante o filme.

Numa nota mais séria, não sei bem que esperar de escritos futuros, certamente escreverei um pouco sobre tudo o que mencionei, tanto como espectador como na pele de aspirante a realizador ou realizador falhado, não sei bem. Mas para já, esta crónica primeira ficar-se-á em termos de apreciação, por alguns apontamentos sobre os filmes nomeados que vi e a minha opinião sobre a atribuição das estatuetas douradas.

“Quarto” fecha-se em si próprio, porque nunca consegue ser o filme magnífico que augura ser, quando logo na abertura, na minha opinião no seu melhor, mostra a situação vivida pelos olhos de uma criança. Falta ao filme fluência de ponto de vista, pois quer tudo mostrar, a vida interior e as cicatrizes dos e entre os personagens e o choque que advém da sua libertação e ainda os comportamentos sociais face ao fenómeno. Não me interpretem mal, trata-se de um filme com imenso mérito, mas somos sempre mais duros quando lidamos com um grande potencial que depois não se concretiza. Há neste filme uma cena, o da libertação de Jack, em que o mesmo se perde, porque aquele homem que manteve dois seres humanos presos tanto tempo, desiste tão facilmente. A partir daí o filme descamba, perde o norte como se diz. Agora não há como não salientar que a criança simplesmente oblitera tudo e todos no filme, inclusive a própria Brie Larson, vencedora de um Óscar.

Já o filme “Carol”, do sempre efusivamente cinemático Todd Haynes, consegue a melhor performance de Actriz Principal, pelo menos de entre os filmes que vi. Não há muito a dizer sobre este filme, que, no seu género, creio ter tudo o que um filme deve ter. Mise-en-scene esplêndida, belíssima direcção de arte e cinematografia e performances arrebatadoras. Cate Blanchett é, sem dúvida alguma, divinal e, lamento alimentar a polémica, superior a Brie Larson, que não deixa de conseguir uma boa performance. Mas veja-se, o papel de Blanchett é também feito de mais camadas, o personagem mais rico, com um maior foro de acção, há mais para mostrar e depois Cate é, no meu entender, uma das grandes.

Num ano de filmes que abordam grandes temas sociais e acontecimentos reais, o prémio do Melhor Filme foi para “Spotlight”. Confesso que não sou muito dado a filmes sobre investigações, mas que guião bem estruturado e ritmado e as performances, todas elas excelentes, incluindo uma Rachel McAdams de quem esperamos ainda muito mais. Aliás, o filme surpreendeu-me, revelando-se uma excelente desculpa para “aparar” as unhas. Abstenho-me de tecer opiniões sobre o mérito de ter ganho o Óscar para Melhor Filme, até porque ainda não vi o último Tarantino, mas que “Spotlight” é um filme muito bem conseguido, não há dúvida.

No que ao “O Renascido” diz respeito, e clarificando desde já que não me restam quaisquer dúvidas sobre as capacidades de ambos, o realizador e o actor principal, tenho dois comentários. O filme mais me parece um híbrido daqueles docudramas para TV onde alguém é salvo depois de passar pelos infernos e os documentários de super cinematografia à la BBC, sobre a vida na terra. Vibrei pela cinematografia fenomenal, pelas reconstituições das eventuais batalhas entre colonos e indígenas, mas o todo pareceu-me demasiado longo e indulgente, tendo em conta a simplicidade do conteúdo. Sobre a performance de Leonardo DiCaprio penso que é óptima, mas já o vimos em mais interessante trabalho de actor e depois não acho que a sua fisionomia funcione vis-à-vis o personagem, com a sua carinha laroca e aspecto franzino, mas isso já tinha achado no “Gangs of New York”. Desculpem os fãs, mas aquela carinha de menino bonito não casa com este tipo de personagem. Já com urgência em findar, pois não queremos testamentos, parabéns pelo Óscar de Montagem e pelo espectáculo de “Mad Max” – adorámos toda a acção e imaginação, o trabalho de som e fotografia. Afinal foi o filme que arrecadou mais Óscares. A cinematografia estou totalmente de acordo de ter ido para “O Renascido”.

Mais uma notinha antes de fechar. Esta coisa dos Óscares anda um pouco fraca. Parece-me que são em muitos casos, atribuídos de forma que pouco tem a ver com o mérito, mas antes por razões outras, talvez políticas, talvez porque não fica bem entregá-los aos mesmos ano após ano, não sei…Tendo isto lugar no país da meritocracia, dá que pensar. O grande Morricone lá ganhou um finalmente!

Por último, um apontamento sobre alguns filmes mais ou menos recentes que, de certa forma, também gostei, o “Minha Mãe” do Nanni Moretti e o “Sítio Certo, História Errada”, de Hong Sang-Soo; ambos produzidos com recursos muito inferiores a todos os filmes aqui mencionados. Quase me esquecia de dizer que gostei mesmo deste último “Star Wars”. Depois de várias sequelas inferiores, foi bom presenciar o retorno da Força e em força.

 

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