Poderá ser este o último ano que temos com estas personagens?


Quando me pediram para escrever sobre filmes ou séries senti-me intimidada. O pouco que sei, aprendi nas muitas horas que passei em frente a ecrãs de cinema e televisão e não tenho o dom da análise nem da escrita. Tranquilizaram-me, disseram-me que escrevesse sobre o que quisesse, como quisesse e que não tentasse imitar o discurso do crítico profissional.

Restava-me escrever sobre o que conheço, e como esta é a minha primeira contribuição decidi escrever sobre o que gosto. Ora, quando me perguntam qual é a minha série preferida penso rápido e quase invariavelmente respondo: “The Good Wife”.

Curiosamente, quando a estreia foi anunciada, em 2009, confesso que não me despertou grande curiosidade. “Mais uma série de advogados.” Até que vi os nomes Ridley e Tony Scott apareceram no ecrã.

Game changer.

Para quem não sabe, a série acompanha a história de Alicia Florrick (Julianna Marguilles, “E.R.”, “Sopranos”), mulher do um político proeminente (Chris Noth, “Sexo e a Cidade”, “Law & Order”) que é preso no seguimento de um escândalo sexual e de corrupção e que, para sustentar a família, se vê obrigada a retomar a sua carreira de advogada numa conceituada firma. Ao longo da série, a personagem tenta conciliar a sua vida pessoal com a profissional enquanto se vê inevitavelmente envolvida nos meandros da advocacia e política de Chicago.

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Mas desengane-se quem, depois de ler esta sinopse, pensa que “The Good Wife” segue a convenção dramática ou novelesca de outras séries. Um dos seus grandes trunfos é precisamente o de ser capaz de se demarcar dos formatos tradicionais, sobrepondo a argumentos complexos e bem trabalhados um ritmo pouco habitual e desconcertante, que recusa sucumbir à previsibilidade.

Isto traduz-se numa espécie de inquietude latente que dita que a acção decorra sobretudo nos escritórios e tribunais onde os processos legais são diversos e resolvidos de formas engenhosas e imprevisíveis e que as personagens dos advogados e políticos sejam alvo de um escrutínio muito mais exaustivo do que, por exemplo, as da família. A própria personagem de Julianna Marguilles faz desde cedo uma transição gradual de dona de casa apática e vítima das circunstâncias para uma profissional pragmática e assertiva e é mais trabalhada como advogada do que como mãe.

Isto não quer dizer que a série não tenha uma forte componente emocional. Bem pelo contrário, é também uma série pessoal e intimista que muitas vezes remete as cenas para cenários mais fechados, onde a tensão dramática é emboscada entre fronteiras físicas e encontra um terreno de eleição.

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Mas a acção não seria nada sem intervenientes e as personagens aqui são tudo. Interpretadas por um elenco irrepreensível (em que é Alan Cumming é rei) e muitas vezes auxiliadas por pesos pesados de Hollywood (Michael J. Fox, Oliver Platt ou Nathan Lane, entre outros), estas justificam porventura que a série tenha estabelecido desde cedo uma plataforma fiel de seguidores. De tal forma que não é invulgar um episódio começar já a meio de um julgamento, muitas vezes com personagens recorrentes que não são sequer (re)apresentadas e com o recurso a termos legais técnicos e complexos que um espectador fiel da série já domina. Tudo isto pode parecer egoísta mas sabe que acompanha a série religiosamente que esta “poupança” acrescenta muito.

“The Good Wife” vai já na 7ª temporada e, numa entrevista recente, Julianna Marguilles revelou porventura mais do que devia ao insinuar que poderia ser também a última, reforçando os rumores que davam já conta do mesmo. Mas as grandes séries não são julgadas apenas pelo tempo que estão no ar, mas também por saberem quando acabar. “The Good Wife” continua a ser excelente ficção mas já não tem a genica de outros tempos e algumas personagens estão a começar a esgotar-se. Claro que se uma 8ª temporada for confirmada irei celebrar da melhor forma que sei, ou seja, com 23 episódios e uma quantidade proibitiva de Häagen-Dazs, mas se o destino da série estiver já selado isso não irá diminuir em nada a contribuição que já deu para a ficção televisiva dos últimos anos.

“The Good Wife” agarrou-me desde o primeiro momento e é sem um pingo de vergonha que admito ter ido trabalhar muitas vezes com 3 ou 4 horas de sono em cima por culpa dos senhores Scott.

Raquel Martins

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