Deep Focus

Olá a todos!
O meu nome é Paulo e… gosto de filmes. Também gosto de outras coisas, mas para aqui acho que é o que interessa saber! Gosto de filmes ao ponto de me tornar um pouco nerd no que toca a saber alguns pormenores mais íntimos desses objectos sacanas que me pregam umas partidas de vez em quando. Gosto dessas surpresas. De rir quando não estou à espera, de me cair uma lagriminha pela bochecha abaixo quando já tenho a certeza que sou um gajo duro que não se deixa afectar por lamechices, de me torcer no sofá com incómodo físico e até de sentir coisas que eu não percebo na altura e se calhar nunca vou perceber.
Gosto de saber como é que os filmes me fazem passar por estes estados todos! E nesta rubrica vou mostrar um bocadinho do que passa pro trás do que é visto no grande ecrã. Técnicas, tecnologias, estéticas e processos criativos.

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A minha primeira entrada para o Deep Focus é o making of do filme “Y tu Mamá También” (2001) realizado por Alfonso Cuarón.

É uma opção muito pessoal. Embora já estivesse muito interessado em realização de cinema e no que consiste todo o processo para uma criação cinematográfica (porque também gosto de filmar, editar, realizar…) acho que este foi dos primeiros filmes que me fez mesmo querer saber quem era o director de fotografia, que me preocupei com a técnica usada e como isso me fez sentir. Esse DP (director of photography) é Emmanuel “Chivo” Lubezki. Para mim um grande artista e com uma visão de uma sensibilidade extrema. É um senhor que já conta com três Oscars em três anos seguidos com um filme realizado por Alfonso Cuarón (Gravity) e os outros dois por Alejandro González Iñárritu (Birdman e The Revenant).

Mas comecemos por este…

Em “Y Tu Mamá También” o estilo é muito cru, sente-se que tudo é verdade, parece que estamos a viver tudo ao lado dos personagens, que somos observadores presentes na acção e vemos tudo a nu. As qualidades ou defeitos, sentimos os cheiros e as texturas. Não há embelezamentos e para mim esse é o grande segredo da beleza natural do filme.

Isto é possível graças a uma escolha estética que já é “defeituosa” à partida.

Alfonso e Chivo escolheram filmar praticamente toda a narrativa com a câmara ao ombro dando-lhe uma linguagem mais de documentário ou reportagem do que uma ficção.

Outra característica são os takes relativamente longos (coisa que estes dois foram explorando juntos com mais afinco noutros filmes) e o facto de a câmara não prever o que o actor vai fazer. Ao mesmo tempo que os personagens tomam uma decisão, o operador também tem que tomar uma decisão. Se acompanha o movimento, se fica, se dá destaque a outro personagem… embora eu pense que o operador saberia sempre bem qual era o rumo da cena é a opção do realizador e do DP que, ao deixar-nos sempre nessa dúvida e insegurança, torna a história viva.

As lentes usadas também tiveram um influência importante. São objectivas mais abertas (arriscaria objectivas sobretudo entre 18mm e 35mm e indo umas vezes a 50mm) que nos deixam ver tudo o que se passa à volta no mundo destes personagens, deixando tudo muito mais exposto e mais frágil.

Por último e dos mais importantes… a luz. A iluminação usada para este filme é 90% luz natural e é uma qualidade de manipulação de luz que Lubezki tem vindo a aperfeiçoar ao longo dos anos e que quando é bem usada dá-nos um sentido de crueza, realidade e uma beleza natural (se calhar estou ficar um bocado repetitivo).

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Tudo isto é muito bonito mas não teria importância nenhuma sem a grande qualidade dos actores Gael García Bernal, Diego Luna e Maribel Verdú que enchem o ecrã com desempenhos interpretativos brilhantes, cheios de energia.

Basicamente o que eu quero dizer é “it takes two to tango”! E em filmes… bem mais que dois.

Divirtam-se com este making of que mostra de uma forma geral como é que a equipa conseguiu chegar ao produto final.

Só uma pequena curiosidade para acabar… Alfonso Cuarón e “Chivo” foram colegas na mesma escola de cinema a que a dada altura… foram expulsos. Ao que parece tinham demasiadas opiniões sobre o que devia ser cinema…

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