O Salteador do Filme Perdido

 

Nesta crónica vou vasculhar o baú das minhas memórias para encontrar aqueles filmes que nos passam ao lado por variadas razões e que mais tarde percebemos que estávamos a perder um belíssimo filme. Digamos que estarei a fazer serviço público. Pelo menos eu acho que sim.

American Graffiti: Nova Geração

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O nome George Lucas está e sempre estará lado a lado com o fenómeno Star Wars. Mas o que à partida pode ser uma benção poderá também ter sido uma âncora da sua carreira. Pelo menos como realizador.

Apesar da produção de Star Wars ter sido bastante atribulada, quando o filme foi lançado em 1977, para grande surpresa de todos, foi um sucesso estrondoso de bilheteira. Algo que nem mesmo Lucas esperava. Daí em diante, entrega a batuta de realizador da saga a Irvin Kershner e dedica-se a escrever e produzir muitos sucessos de bilheteira incluindo as trilogias Star Wars e Indiana Jones, entre outros, durante os anos 80 e 90.

A Lucasfilm, criada logo após o seu primeiro filme, acabou por ser uma máquina de fazer dinheiro. Após o sucesso de Star Wars, a Fox ofereceu um aumento de 150 mil dólares, mas Lucas recusou e pediu em troca os direitos de futuras histórias e merchandising associados a Star Wars. Acho que toda a gente sabe hoje que isso valeu um pouco mais que 150 mil dólares. A Lucasfilm iria crescer e criar pelo caminho companhias como a Skywalker Sound, Industrial Lights and Magic, Pixar e LucasArts. Lucas transformou a sua pequena companhia numa das maiores forças de Hollywood.

Todo o trabalho envolvido na gestão desta máquina desviaram Lucas de fazer o que o tinha trazido para a industria. Realizar. Acaba por só o fazer de novo em 1999, de regresso ao leme da saga Star Wars, 22 anos depois. E, apesar de terem sido mais uma vez sucessos de bilheteira, esta nova investida foi o ponto de ruptura para George Lucas. Não era isto que o movia. Tem então a decisão de vender à Disney a sua Lucasfilm e corta pela raiz a sua ligação com a máquina de blockbusters. Disse há pouco numa entrevista que queria voltar atrás. Deixar de fazer filmes para o grande público e voltar a fazer filmes para si mesmo.

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Voltemos então ao início. Em 1969, George Lucas e Francis Ford Coppola criam o estúdio American Zoetrope com o intuito de criar um espaço onde os realizadores pudessem criar longe da mão controladora dos estúdios de Hollywood. Foi então que Lucas realizou o seu primeiro filme de longa metragem, THX 1138. Baseado numa das suas curtas escolares com o mesmo nome, este filme sobre uma sociedade futurista e opressora foi aclamado pela crítica mas ignorado pelo grande público. Ainda hoje pouca gente sabe da sua existência, o que é uma pena.

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Logo a seguir, em 1973, Lucas faz o filme que o pôs no mapa permitindo que fosse possível dirigir o tal de Star Wars e que me faz escrever este texto. American Grafitti: Nova Geração.

Passado em Modesto, California, em 1962 (onde Lucas cresceu), American Graffiti leva-nos à América inocente, pré assassinato do JFK. Segue um grupo de amigos, dois dos quais estão de partida para a Universidade. O que lhes sobra como despedida é aquela última noite.

A história é simples, mas está tudo lá. O rock n’ roll, os carros, o drive in, os gangs dos casacos personalizados, as paixonetas do secundário. Tudo está tão bem feito que nos transporta para aquela era. Também nós participamos naquela última noite. Também nós vagueamos pela rua para mostrar o carro e a nossa companhia. Também nós passamos a noite com a banda sonora do programa da rádio do Wolfman. Também nós vamos comer um hambúrguer e uma cola no drive in servido por uma bonita rapariga de patins. Também nós não queremos que a noite acabe.

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Acima de tudo, Lucas consegue, de uma maneira bem simples, filmar a realidade. Tem à sua volta um cast de desconhecidos que encaixam na perfeição nos seus papéis. Mas quando digo desconhecidos, seria na altura. Já que neste grupo de jovens estão incluídos o excelente Richard Dreyfuss, o Ronny Howard (agora mais conhecido como o realizador Ron) e até Harrison Ford num papel secundário, que, visto isso, lhe terá dado créditos para fazer de Han Solo e Indiana Jones pela mão de Lucas. E claro. A banda sonora. É impossível ver este filme sem trautear o rol de clássicos que nos acompanha do inicio ao fim.

Este excelente filme terá ficado perdido no tempo, “abafado” pelo monstro Star Wars, mas vale a pena ser visto. Hoje George Lucas diz que vai voltar a fazer filmes para si próprio, sem pensar em grandes públicos. Mesmo que não sejam distribuídos. Coisas que gente que ganhou mais dinheiro do que pode gastar pode fazer. Quem sabe não saia daí mais uma pérola como esta.

 

Título original: American Graffiti (EUA – 1973)
Realizador: George Lucas
Argumento:  George Lucas,  Gloria Katz, Willard Huyck
Protagonistas: Richard Dreyfuss,  Ron Howard,  Paul Le Mat

 

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