Fotogramas de memória

Ora vivam…
Chamo-me Samuel. Samuel Quedas, para os mais dados a pormenores. A quem quer que seja que insinue que este “Quedas” tem qualquer coisa que ver seja com o Paulo, seja com o Pedro e mesmo com o André… respondo que está carregado de razão.
Faço canções há 43 anos e provavelmente apenas por falta de melhor distribuição, canto-as directamente ao público.
Pretendo juntar aqui, de vez em quando, uns tantos fotogramas de memórias que insistem em não se apagar. Memórias ligadas a músicas, filmes, momentos de televisão, concertos ao vivo… ou tudo ligado.
Não façam muito caso do que eu aqui escrever. A minha memória já não é o que era!
Saudações.

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“Soldado Azul”… ou o mundo ao contrário

Estávamos bem no princípio de 1972… logo, quase ninguém aqui tinha ainda nascido. Claro que nasceu muita gente antes de 1972… mas o mais provável é que não esteja a ler isto.

Eu não sabia muito bem o que fazer com os meus 19 anos, nem com aquela amarga liberdade que se ia insinuando em nós ainda sob um regime fascista… mas isso são outros contos.

O José Afonso, cuja casa eu “invadia” diariamente, já sabia que eu cantarolava e escrevia umas canções e tinha feito com que as portas da sua própria editora se abrissem para o meu primeiro disco, que viria a nascer poucos meses depois.

Liberto, havia pouco tempo, da redoma opressora de uma igreja evangélica, tudo era novo para mim, tudo era uma primeira experiência, tudo era um desafio. Cada frase libertária do “Zeca” dita numa esplanada um pouco mais alto e com ouvidos à escuta, parecia uma coisa temerária. Tudo tinha o sabor de aventura, no meio do cinzento dia a dia das proibições, da censura, das prisões políticas, das cantigas de fugida (literalmente) numa colectividade popular ou numa Universidade.

A pouco e pouco foi tomando forma um mundo novo, ainda que imaginado. Com ideias novas, canções novas, novos costumes. Eram os primeiros discos do Zé Mário Branco e do Sérgio a chegarem a casa do Zeca, vindos de Paris, mais as canções “tremendas” que cantavam o Fanhais, o Manuel Freire, o Chico Buarque, o Paco Ibañes, o Dylan, a Baez, o Pete Seeger…

Convencido de que sempre que andasse na companhia do Zeca tudo iria ser novo, culto, “engagé”… foi com grande entusiasmo que ouvi o anúncio “hoje à tarde vamos ao cinema”.

Fomos. Eu, o Zeca e o seu filho Zé, da minha idade.
Para meu grande espanto… era um filme de “cóbóis”, mais precisamente, de índios e soldados.

Nem tive tempo de pensar que o Zeca estaria um bocado “tolo”, como ele próprio disse do cineasta Luis Buñuel, numa épica história que talvez ainda venha a contar… porque entretanto o “raça” do filme começou.image

Para além da beleza que era a Candice Bergen naquela idade, tudo foi tão violento e revoltante, tão ao contrário daquilo que a minha inocência pensava saber sobre quem eram os bons e os maus num filme de “cóbóis”, que até hoje não esqueço aquele “Soldado Azul”, o “Soldier Blue” que é um concentrado de História. A explicação do horror que levou uma população de mais de 25 milhões de “peles vermelhas” a ser reduzida em pouco tempo a pouco mais que 2 milhões, à força da operação de genocídio cometida no interesse de colonos e grandes empresas que ocuparam os seus territórios, executada em boa parte pelas próprias autoridades oficiais e o seu exército regular.

Ainda hoje agradeço ao Zeca aquela dura lição de História. Ainda hoje, ao lembrar aquela tarde passada num cinema decrépito da Avenida mais conhecida de Setúbal, parece-me sentir aquele ligeiro ardor provocado pelas lágrimas, enquanto desenham o seu caminho salgado, cara abaixo.

Há filmes assim!

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