À segunda vista

 

(A primeira parte deste texto foi escrita antes de voltar a ver o filme – é um pequeno resumo das memórias que ainda guardo desta obra. Depois de revisto o filme, escrevo então a segunda parte do texto, com a minha análise “atualizada” do que vi)

Mistério. Medo. Fascínio. São estas memórias que guardo de “A Lenda da Floresta”, de 1985, um filme (quase) de culto com Tom Cruise, realizado por Ridley Scott, sobre… sei lá bem – algo que envolve princesas, unicórnios e um demónio horripilante que ainda hoje me invade os sonhos. Vi este filme quando era muito novo, muito antes da minha educação cinéfila me ter feito chegar a “Blade Runner”, o meu filme favorito – curiosamente também de Ridley Scott. Ficaram-me essencialmente algumas memórias visuais, ora místicas ora tenebrosas, e uma ideia geral de um filme que eu não sabia se estava a gostar mas do qual não conseguia afastar os olhos.

Vou então agora voltar a mergulhar neste estranho mundo de fantasia. Até já.

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Uma hora e 33 minutos depois…

É muito estranho dizer que este filme continua a suscitar em mim quase todas as mesmas sensações que em criança? Continuo sem perceber muito bem exatamente o que acabei de ver, mas não posso negar que me mantive fascinado do princípio ao fim.

Uma coisa posso garantir – esta é a mais perfeita materialização cinematográfica de um conto de fadas que alguma vez vi. Um verdadeiro conto de fadas oscila entre o fantástico e o horror sem dificuldades, cria imagens inesquecíveis e deixa a história avançar sem preocupações por contexto histórico ou “lógica”. A história avança, simplesmente. Como se de magia se tratasse.

É esse o pequeno grande feito conseguido por esta intemporal história de um herói, Jack (Tom Cruise), que tem de salvar uma princesa, Lili (Mia Sara), do malévolo Darkness (Tim Curry). O resto da narrativa envolve unicórnios e uma mão-cheia de outras criaturas fantásticas, mas é a simplicidade do enredo principal que nos prende.

Outro aspecto incrivelmente positivo é a opulência visual de toda a produção. A fotografia, principalmente a nível da composição de cor, é das mais incríveis que já vi. Os cenários (tanto os paraísos bucólicos do início como as tenebrosas catacumbas do final) cortam a respiração e o design das personagens fantásticas é irrepreensível – a maquilhagem foi até nomeada a um Óscar. Teria dispensado os brilhantes nas caras dos protagonistas a emprestar-lhes um ar extra angelical e o facto de inexplicavelmente começarem a falar em poesia de uma cena para a outra, mas quem sou eu para exigir subtileza a um conto de fadas?

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Este filme estranho é tudo menos perfeito. Acima de tudo, fica num certo “limbo” em relação ao seu tom. Por um lado, a sua narrativa etérea (com decisões não-explicadas e personagens sem contexto) prende-se mais à abertura de espírito de uma criança a ouvir um conto de adormecer. Por outro, a dureza dos seus momentos mais negros pode, eventualmente, afastar uma dose considerável do seu público-alvo.

Mas a grande questão que me coloquei ao início era se continuaria fascinado com esta obra ou se a névoa do seu feitiço se iria dissipar com a idade adulta. Não aconteceu. A sua imperceptível magia continua a sussurrar-me para lhe voltar a fazer uma visita no futuro. Não sei se vou (ou quero) resistir.

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