Liga de Mulheres

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No meio de um ano recheado de super-heróis, desde o recente Batman v Superman ao tão esperado Doctor Strange, está na altura de fazer um balanço: será que todas as super-heroínas se resumem a mulheres invisíveis, meras peças secundárias num jogo de homens, ou será que Hollywood já se rendeu aos poderes incríveis de heroínas que tanto a Marvel como a DC nunca se intimidaram em atribuir a personagens femininas no mundo dos quadradinhos?

Há mais de 10 anos, houve uma tentativa de colocar poderosas super-heroínas na ribalta: Halle Berry mostrou-nos os seus dotes felinos como Catwoman (2004) e Jennifer Garner protagonizou um spin-off do Daredevil, ao tornar-se Elektra (2005).

Apesar da sua mestria na arte marcial, a sétima arte não foi tão dócil, e os resultados de box-office acabaram por ser desastrosos. Tal como no recente Batman v Superman, em que “a culpa não é do Ben Affleck” (ver crítica aqui), Berry e Garner também não são as principais responsáveis pelo sofrimento dos espetadores de Catwoman e Elektra. Na verdade, também elas foram vítimas de guiões pobres, que não exploravam bem a essência das personagens, da sua força e da sua personalidade.

Contudo, os maus resultados no box-office foram interpretados de outra forma em Hollywood: “o mundo não está preparado para super-heroínas”, terão pensado eles. E assim, depois de um hiato de 20 anos após o também desastroso filme de Supergirl, em 1984, eis que os executivos, produtores e realizadores fizeram um pacto silencioso de não voltar a apostar em super-heroínas tão cedo.

Timidamente, grandes super-heroínas foram aparecendo no grande ecrã. Mas a verdade é que a imensidão dos poderes de Jean Grey, comparáveis aos de Charles Xavier, nunca ficaram realmente ao descoberto. Nem a intrigante e profunda história da Black Widow foi muito aprofundada, apesar de ela estar sempre presente nos filmes dos Avengers. E, mesmo recentemente, a Wonder Woman foi retratada como um mero objecto decorativo, que em nada contribuiu para o progresso narrativo de Batman vs. Superman.

O filme a solo dessa princesa amazona, realizado pela hábil Patty Jenkins (The Monster) e, fora do universo Marvel e DC, a equipa feminina dos Ghostbusters, poderão vir a contribuir para um turning point em Hollywood.

Mas, por enquanto, é no pequeno ecrã que a acção no feminino acontece!

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Supergirl pode não ser uma série fabulosa. A narrativa é light, foge em muitos aspetos da história original da Supergirl dos livros, mas uma coisa é certa, colocou os poderes femininos na mira de muitos espectadores.

E mais do que exibir a sua super-força e os seus dotes voadores, Supergirl prima pela clara mensagem de empowerment feminino, ao estar povoado por personagens que, mesmo sem poderes extraterrestres, conseguem mover montanhas, como Alex Denvers (Chyler Leigh), a irmã adoptiva de Kara/Supergirl (Melissa Benoist) e, principalmente, a sua chefe, Cat Grant (Calista Flockhart).

Aliás, foi precisamente Cat que, do topo do seu império de media, disse a Kara o discurso que melhor pode traduzir a essência desta série:

What do you think is so bad about girl? I’m a girl, and your boss, and powerful, and rich, and hot, and smart. So if you perceive Supergirl as anything less than excellent, isn’t the real problem, you?
Cat Grant

Por momentos parece que estamos no meio daquele anúncio do Like a Girl, não é?

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Mas há ainda mais uma kick-ass heroína que tem destruído barreiras (e inimigos) no pequeno ecrã: Jessica Jones.

Jessica e Kara não podiam ser mais diferentes. Enquanto Kara tem uma beleza e modos delicados, vive rodeada de amigos e encontra sempre uma razão para sorrir, Jessica é uma anti-heroína: vive solitária, revoltada com o mundo e não hesita em usar a sua super-força em quem ousa meter-se onde não se deve (apesar de, no fundo, ter um coração de manteiga).

Jessica Jones é uma personagem multifacetada, envolta num enredo bem construído e com uma fotografia sombria, como ela própria, e fabulosa, bem ao nível de qualidade a que a Netflix nos tem habituado. É uma série que apela a todos os públicos, ao contrário de Supergirl, uma série claramente vocacionada para o público feminino.

E, de repente, sem darmos por ela, sem precisarmos de ouvir um grande discurso como o de Cat Grant, sabemos que Jessica Jones se tornou uma ode à força. Não só à força feminina, mas à força do universo dos super-heróis no geral, diluindo as divisões de géneros e contribuindo, finalmente, para a igualdade.

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