Os Chavelhos do Batman

 

Não servem para nada mas se não existissem faziam falta, não faziam? É um bocado como certos filmes que querem ser bons mas que são só parvos. Peças tão curiosas que merecem ser alvo de uma crítica por vezes corrosiva, outras sarcástica e ainda outras tão medíocre como as próprias fitas que as inspiraram.

Esta rubrica é uma lotaria. Mas ao menos ninguém paga bilhete.

 

A PAIXÃO DE CRISTO (2004)

de Mel Gibson

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O Mel Gibson, caso ainda haja alguém que não o conhece, é um chalupa/fanático religioso do pior. Pode parecer uma descrição um bocado bruta mas, nos dias que correm, é isto que salta à ideia quando se pensa neste menino. A lista podia continuar e pender para a misogenia, o homofobismo, o racismo, o antissemitismo e outros “ismos” pouco abonatórios mas fiquemos por aqui porque não queremos mesmo aborrecer ninguém… Ah já me esquecia que ele também é bêbado. Assim para acamar.

Ora bem, desta forma ninguém estranhou quando anos depois de ter dirigido um filme jeitoso e que até ganhou óscares como o Braveheart, veio à luz este chiqueiro de sanguinho e tortura que deixou muito boa gente com o jantar “à porta” em salas de cinema por todo o mundo.

É que entre converseta em aramaico e cenas intermináveis em slow motion com os romanos a fazerem caretas malignas enquanto espetam valentes biqueiradas no pobre do Nazareno, pouco ou nada se aproveita neste filme chunga mascarado de blockbuster. Ah e perdoem-me o spoiler mas o tipo morre no fim.

“A Paixão de Cristo” começa no Jardim das Oliveiras, com um Jim Caviezel visivelmente nervoso porque aparentemente percebeu que acabou de afundar a carreira. A dada altura, e como está escrito na Bíblia, diz aquilo que provavelmente nunca devia ter dito:

“Pai, estou pronto…” – declara ele com muita humildade.

Não, não está. É que não está mesmo.

É isso que o público constata ao longo de 127 minutos de pura bordoada.

O filme é um pouco by the book no que diz respeito ao encadeamento das cenas, com todos os pontos altos sublinhados. Neste domínio, Gibson dá-se a poucas ou nenhumas liberdades artísticas: Jesus tem um julgamento um bocado p’rá treta, Judas enforca-se porque é perseguido por putos leprosos, Pilatos lava as mãos sem usar sabonete, Jesus leva no focinho, alguns flashbacks à mistura, Jesus volta a levar no focinho e é o próprio Gibson que aparece a malhar nos pregos e a prendê-lo à cruz.

Mas se na estrutura da história não há nada que surpreenda (como se calhar não convinha que houvesse), é no conteúdo que encontramos pormenores um pouco bizarros. Desde sermos forçados a assistir à carne das costas de Cristo a saltar e a respigar tipo bolonhesa enquanto é vergastado à vista da mãe e da Monica Bellucci a testemunharmos o momento em que um corvo pica um dos olhos do ladrão crucificado ao lado do messias… Há ali pouco de relevante e muito de fetichista.

Isto para não falar do “diabo” (digamos assim) que volta e meia desfila pelo cenário com um bebé nos braços cuja cara faz lembrar um glutão do Presto. Satanás é interpretado pela actriz Rosalinda Celentano e sempre que aparece está com um ar apreensivo. Mas eu também estaria se tivesse um bebé assim tão feio.

Enfim, feitas as contas, não há muito a tirar daqui.

Podem dizer que o objectivo era sentirmo-nos mal por Ele ter morrido pelos nossos pecados, mas é difícil sentir culpa enquanto se enche a cara de pipocas. Lembro-me de ter havido gente que saiu do cinema a fungar mas aposto que lhes passou mal chegaram ao parque de estacionamento. É que esta “Paixão de Cristo” é como uma costeleta de porco mal passada que causa enjoo imediato mas que se cura com uma ou duas saquetas de sais de frutos…

Ao contrário do Mel Gibson, para o qual infelizmente não há cura mas que depois se redimiu um bocadinho graças a um outro filme com índios que rima com “eucalipto”. Amén.

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