Perdão, Ben Affleck

Yippie-Ki-Yay MotherFucker

Marcelo Lourenço é publicitário e ex-hater do Ben Affleck.

O seu filme favorito é “Highlander” e desde já pede desculpas por isso. Acha que o cinema comercial, aquele que os snobs do Nimas não vão ver nem por um carvalho, é um celeiro de obras-primas.

Esta coluna, inspirada na mítica frase do John McClane, é sobre isso.

E para angariar novos inimigos, claro.

PS: Não sabes quem é o John McClane? Então, vai-te embora daqui.

image
Fui ao cinema ver “Batman v Superman: Dawn of Justice” com um balde de ódio no colo.

Ódio do Zack Snyder – que escalou o Ben Affleck para ser o pior Batman de sempre – e muito ódio do Ben Affleck que aceitou ser o pior Batman de sempre.

O que poderia dar certo nesta combinação maldita? O Snyder, o sujeito que fez um trabalho de quinta no “Man of Steel” e o Ben Affleck, que fez um trabalho de quinta no “Demolidor” (o filme manhoso de 2003, não a genial série da Netflix).

Estava preparado para o pior.

Então fui ver “Batman v Superman” e gostei do raio do filme.

Mais do que isso: adorei o raio do filme.

Para a turba enlouquecida com tochas a gritar “queimem-no”, peço calma.

Eu explico.

O filme tem uma história cheia de buracos? Pois tem.

O Lex Luthor é caricato e meio ridículo? É verdade.

O Snyder tem um lado foleiro, quase um Michael Bay em várias cenas? Tem, sim senhor.

E mesmo assim o filme é uma revolução. Haverá um antes e um depois de “Batman v Superman”. Um dia, todos os filmes de super-heróis serão assim.

Ou deveriam ser.

Porque todos os realizadores de filmes baseados em BD (incluindo os da Marvel) tem algo em comum: eles adaptaram a banda desenhada ao cinema.

O sacana do Zack Snyder é o único que fez o contrário: adaptou o cinema à banda desenhada.

Enquanto o Christopher Nolan (da trilogia “Batman – Cavaleiro das Trevas”) criou um Batman “real”, onde as características do personagem são devidamente adaptadas ao mundo de verdade – o Batmóvel na verdade é um tanque de guerra, a capa é uma asa delta, até as barbatanas das luvas são uma espécie de arma ninja, o Snyder deu uma banana pra suposta coerência e tratou um filme de super-heróis como ele deveria ser tratado: como um filme de super-heróis.

Para começar: o Superman continua a se “disfarçar” colocando um par de óculos na cara. Com óculos, sou o Clark Kent. Sem óculos, sou o Superman. E as pessoas à volta continuam sem topar que os dois são a mesma pessoa.

“E porque não?” Pergunta o Snyder. E com razão.

Neste universo de desenho animado, o Batman do Ben Affleck é pura BD, aquilo que nerds de todas as idades sempre sonharam ver no cinema: um arquétipo, um “cartoon”, um milionário de dois metros de altura que enche de porrada os bandidos, sem dó ou piedade. Até o uniforme do Batman (tirado diretamente do clássico “Cavaleiro das Trevas” do Frank Miller) é igual à BD. Não há aqui aquela coisinha finória do uniforme todo preto de ninja / soldado universal – toma lá o clássico cinzento com o cinto de utilidades amarelo.

E assim – declaração bombástica a seguir – o Ben Affleck cria o melhor e mais satisfatório Batman do cinema.

Mas o filme também é o Superman do Henry Cavill, que continua uma ótima escolha. Aliás, “Batman v Superman” consegue outro milagre – faz o filme anterior do Superman finalmente fazer algum sentido: matar o General Zod e destruir Metrópolis de ponta a ponta agora serve a um propósito – dar a motivação necessária para o ódio desmedido do Batman pelo Superman.

Essa aliás é outro mérito do Batman do Ben Affleck – o cara odeia. Odeia o Superman, odeia o Lex Luthor, odeia os criminosos a ponto de marcá-los a ferro e fogo com o símbolo do morcego. É um suicida, alguém que veste o uniforme todas as noites sem a menor intenção de voltar vivo para casa. Só alguém assim é capaz de acender o batsinal e chamar o Superman pra porrada.

Assim, ao ligar o botão do “foda-se”, “Batman v Superman” se dá a liberdade de apresentar cenas tão espetaculares como o Homem de Aço a puxar um navio pela âncora ou a luta final do Batman com os capangas do Lex Luthor.

Como se isso não fosse o suficiente, toma lá a Mulher Maravilha da Gal Gadot. Perto dela, as outras heroínas do cinema viram coadjuvantes de roupa justa, side kicks criadas para justificar a quota de gêneros e os sonhos molhados dos nerds.

Resumindo: não via um filme de super-heróis tão genuinamente BD desde o Superman com o Christopher Reeve, o clássico de 1978.

Por isso tudo, obrigado, Zack Snyder.

E perdão, Ben Affleck.

Podem continuar a partilhar no meu Facebook a notícia de que ele está confirmado para os próximos filmes do Batman.

Só que agora isso é uma boa notícia.

Facebook Comments

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *