Crónica Antagónica

image
Ainda não tinha digerido a produção Ibérica Gelo, que abriu a edição 36 do FantasPorto e já o filme tinha saído de circulação, pelo menos em Lisboa. Co-escrito e realizado pela dupla Luís e Gonçalo Galvão Teles, a partir de um guião original de Luís Diogo, o filme assenta algures entre ficção científica e drama e aborda temáticas algo metafísicas. Ao que parece rodado quase inteiramente em Lisboa e Sintra, conta com Ivana Barquero, a miúda do belíssimo e premiado O Labirinto do Fauno, de Guillermo Del Toro, na pele dos dois personagens centrais, Catarina e Joana.

Financiada por uma empresa de criogenia, Catarina descende do ADN de um cadáver pré-histórico preservado durante vinte mil anos no gelo. Cresce isolada do mundo num palácio algures na natureza, protegida e estudada por um cientista e mentor, aqui interpretado por Albano Jerónimo, com quem, já no fim do filme, antes de escapar, desenvolve uma relação incestuosa. Joana é oriunda da Catalunha e vem para Lisboa estudar cinema, mais precisamente escrita para o ecrã. Procura uma história para o seu projecto de curso, que é de facto, a de Catarina. Apaixona-se por um enigmático colega interpretado por José Afonso Pimentel, que surge e desaparece da sua vida como um mágico, apenas para lhe colocar, a ela e a nós, questões e mais questões.

Ambas as mulheres – ou será só uma – vivem permeadas pela incerteza, uma em relação ao seu passado e a outra ao futuro, e assim vão-se aproximando e afastando, sem nunca se confrontarem no espaço. O filme, esse, lança-nos também na dúvida sobre a identidade destas mulheres, mas começamos a perguntar-nos porque estão entrelaçadas estas duas narrativas, porque não conseguimos identificar esta proposta ligação – seja ela narrativa ou de outra natureza – a não ser a da plasticidade de ser de facto a mesma mulher a representar estes dois personagens? Serei eu o espectador parte da equação, como sugere um dos realizadores em entrevista ao Expresso? Estarão ligadas pelo mesmo ADN, mesmo que separadas por milhares de anos; serão uma espécie de gémeas dessincronizadas? Estarão os autores a falar de identidades múltiplas, existências paralelas, esquizofrenia? Serão apenas esboços fragmentados ou serei eu, o espectador, parte do problema? Questões e mais questões.

Uma coisa é certa em relação a Gelo, este filme difere bastante da típica produção lusitana por vários motivos. Não encaixa no rótulo de cinema puramente comercial e muito menos no de cinema anti-dominante, que está na génese do nosso cinema. É portanto um verdadeiro OCNI, objecto cinematográfico não identificado, pois propõe que nos entretenhamos e que pensemos questões sérias como a da vida além da morte, e neste caso específico, o congelamento de corpos para alargar a experiência de vida. Por todas estas razões, Gelo, é na minha opinião, um filme merecedor da nossa atenção e tempo, porque são ainda insuficientes os filmes portugueses que tem a ambição de competir com filmes estrangeiros no mesmo patamar, alimentando a ideia de diversidade, no que a outras escolas de fazer cinema, diz respeito. Diga-se, há de facto ambição neste filme.

Todavia, se as intenções do filme são de louvar, já a sua execução deixou-me num estado de enregelamento. O problema deste filme é que se propõe a competir com o cinema clássico made outside e acaba por ser, lamento dizer, desastroso. Ainda se fosse só um caso típico de “It’s the script, stooopid”, mas não. A ambição de produzir e entrelaçar narrativas paralelas, excelente cinematografia e uma única boa performance de Ivana Barquero, não chegam. O guião, que parecia ser um ponto quente, demonstra mais uma vez a pobreza narrativa da nossa ficção, pelo menos nos cânones mais clássicos, as personagens circundantes são irrisoriamente finas e os diálogos e as performances, lamentáveis. Albano Jerónimo foi creditado como o melhor actor da sua geração? José Afonso Pimentel é igualmente inconvincente, se bem que com tantas linhas tão más – os diálogos arrepiam – que actor se poderia sair bem? Nem o Ivo Canelas, com provas dadas de excelente actor, consegue sair-se bem de todo este frio.

Não pretendo minimizar o mérito dos que fizeram o filme, reitero, o cinema Português precisa de mais filmes deste tipo, de mais diversidade, pois há coisas boas no filme, mas é-me impossível não dizer o que penso, foi a isso que me propus.

Se calhar é endémico, não se faz neste país um filme narrativo que consiga ser entretenimento sem ser vazio, ou um filme sério que não seja bastante estilizado e inatingível e/ou apetecível para o público geral. Obviamente falo em termos muito genéricos e um dia destes escreverei mais sobre esta particularidade da ficção portuguesa, como a entendo. Entretanto fica-me aquela sensação de fim de jogo da cabra-cega, em que depois de estarmos muito quentes, vamos esfriando e acabamos por desistir devido ao frio.

Facebook Comments

Leave a comment