À segunda é mais barato

 

Sou crítico, bastante crítico. Mas não de cinema. Mas é sobre isso que irei escrever neste espaço. Vão ser linhas que não respeitam os passos de Vogler nem as opiniões do Jorge Mourinha. Vão ser linhas em que as minhas opiniões se misturam com as emoções. Aquelas que um filme desperta no meu eu mais profundo. Numa camada abaixo do consciente, vá. Aquelas que me vão invadir a psique depois de comprar o meu bilhetinho e me enterrar confortavelmente na cadeira do cinema.

E é logo à segunda vez que não vou cumprir as regras. Era para opinar coisas, mais ou menos parvas ou mais ou menos sérias, dependendo do ponto de vista, sobre cinema. Mas como é uma série que anda aqui a bater, nem se olha para trás. Não sei se é do vírus de fashion revival, mas o que é certo é que Vinyl mexe comigo. Em 33, 45 ou 72 rotações.

O Mirror, na sua edição de 14 de fevereiro, descreveu esta série assim:

“Vinyl is the new 10-part drama series which promises to have you glued to the TV as it charts the music scene in New York in the 1970s.”

Confere. Colado com Super Cola 3.

“It stars Mick Jagger‘s son James and the Rolling Stone singer is also an executive producer with legendary film-maker Martin Scorcese.

The show follows the adventures of Richie Finestra (played by Bobby Cannavale), a record executive who’s trying to keep his label afloat through the birth of punk, disco and hip-hop. Not an easy job. especially when there’s all that sex ‘n’ drugs to get through in every one-hour episode.”

Confere em dobro. Aquilo está sempre prestes a explodir.

Podemos até começar por aí. Cada episódio tem mais linhas brancas (ou de branca) que uma pista de atletismo. Aquilo vai-se mais rápido que uma corrida de cem metros. Cada episódio de Vinyl é como pôr o disco a tocar e tentar ler os nomes das músicas ao mesmo tempo. É um abismo para o qual se dão passos largos de prazer e, quando se cai lá em baixo, é repetir tudo outra vez. Tudo é bom em Vinyl. Do princípio ao fim. Não se poderia esperar outra coisa quando se juntam génios como o Mick Jagger ou o Scorsese. Digo eu. Ao que parece a ideia foi do Rolling Stone e já tinha teias de aranha numa gaveta qualquer do realizador. Finalmente viu a luz dos projectores e passeia-se em grande estilo pela nossa televisão (TV Cine&Séries).

Voltando à estória, conta-se, e vive-se, a estória de uma produtora chamada American Century, que não vive os seus melhores dias porque houve uma decisão de não a vender aos alemães. Bem, se a vendessem não haveria estória. Então, os rapazes – Richie Finestra e os sócios – têm de conseguir que a coisa não afunde, entre dívidas, despesas, alguns artistas sem retorno e a tentativa quase desesperada por encontrar o próximo grande talento, ou mesmo a última coca-cola no deserto. No meio de acordos com mafiosos, uma jogada louca em Las Vegas por causa de visões alucinadas com números, muito álcool, muitas linhas, muito sexo, muitas linhas (outra vez), muitas contabilidades criativas, muita festa, muito móvel partido e até uma cobra num campo de golfe, Vinyl apresenta-se sempre sem um único risco de ser uma seca.

Em tempo de excessos e experimentação de tudo e mais alguma coisa, de fatos a brilharem como semáforos e palcos em qualquer cave, de roqueiros deprimidos e sucessos mundiais, a banda sonora é um cocktail irresistível de talento que é impossível não ouvir no máximo. Rebentem as colunas. Até a vizinha de baixo vai curtir a cena. Há lá de tudo. Quase sempre bom. E o desfilar dos ícones da altura (e ainda de hoje, pronto, eternos) é uma delícia. Bowie, Led Zeppelin, John Lennon, Elvis. Até Warhol tem os seus minutos de fama na trama (aparece em três episódios) como amigo de Devon Finestra – a bela Olivia Wilde, mulher de Richie, e que tem um talento meio escondido, mas óptimo, para as fotografias. Arte é arte, e as fotos da rapariga são mesmo boas, mas isto é sobre música, por isso ficamos por aqui. Só para que conste, a relação deles é assim como o canhão da Nazaré.

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Nesta Nova Iorque dos 70’s as bandas aparecem de todos os lados. Era tudo a experimentar tudo. Sons, outfits, beats, qualquer coisa. O líder de uma dessas bandas, Kip Stevens, é o próprio filho de Jagger, James Jagger (Kip Stevens). São os Nasty Bits, a primeira descoberta de Jamie Vine (a fantástica Juno Temple), secretária da área de Artistas & Repertório da discográfica. Sem um talento musical por aí além (parece que fora da tela James também tem uma banda meio-punk), mas com uma abordagem nova para a época, Kip apresenta-se cru e revoltado com o mundo e com uma predilecção por agulhas. E não era para coser. Tornam-se então uma aposta da produtora e têm um manager acidental mais talentoso do que eles, mas que teve um problema de garganta com a máfia e a coisa correu mal. Ao que parece, por aqueles dias Bruce Springsteen vendia pouco na discográfica onde gravava e surge como uma possibilidade. Ainda não é claro se o Boss acaba no portfólio da American Century ou nem por isso. Isto sim, são dias de abundância musical.

Há também a exploração da relação promíscua entre artistas e managers ou pseudo-managers ou aspirantes a managers. Colorida, talvez seja melhor adjectivo para descrever esta relação. Humm… orgia, agora sim. É definitivamente a melhor definição. Não será, portanto, anormal ver enrolanços, choro e lágrimas, xutos e pontapés, orgasmos e trips entre uns e outros e uns com os outros. Mas como aqui não se faz a coisa por menos, é a sénior Andrea Zito (Annie Parisse) que dá conselhos à área de A&R. ‘É daí que vem a orientação e o sentido crítico e não se pode fazer isso com um pénis na boca’. E ela bem sabe do que fala. Neste caso, do sentido crítico, obviamente.

Não sei se tenho personagem preferido. Todo o casting foi composto como uma melodia sem imperfeições. Seja qual for a faixa deste Vinyl, ouve-se sempre com um prazer sem limites. Às 2ªs e no resto dos dias.

Por todas estas linhas (agora só escritas) e por muito mais que fica por escrever, Vinyl faz-me ficar mais colado ao ecrã do que um jogo do Sporting.

Na verdade não é um filme, mas merece um Óscar. O Óscar para a melhor destruição de décor com uma guitarra.

Cheira-me que muitas linhas ainda se irão escrever sobre este Vinyl.

 

Abra o apetite e os ouvidos aqui.

 

E com imagens aqui.

https://www.instagram.com/vinyl/

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