O meu livro dava um filme

 

Uma crónica de livros que inspiram filmes… uma crónica de livros esquecidos na prateleira, mas que ainda não foram descobertos e engrandecidos pelo grande ecrã.

Estas crónicas serão sempre subjetivas e sujeitas a estas relações únicas criadas com os livros que a cronista lê, com a sua fantasia e com a sua perspetiva dos filmes que assiste.

Considero o americano Jonathan Franzen, nascido em 1959, um dos maiores romancistas contemporâneos.

“Purity” é o seu novo livro lançado em Portugal, pela Dom Quixote, em 2015, que vem contribuir para consolidar Franzen como um verdadeiro escritor de culto que consegue apresentar-nos a personagens que poderiam fazer parte do nosso quotidiano, mas que escondem um universo de enigmas e puzzles emocionais.

Em Purity, é a família que sustenta toda a narrativa. Uma das protagonistas é Pip (que na verdade se chama Purity), com 23 anos, que foi criada com a mãe num ambiente protetor sem saber quais as suas raízes, nomeadamente quem é o seu pai. Esta jovem foi obrigada a contrair um empréstimo de cento e trinta mil dólares para tirar um curso, vivendo em Oakland numa casa ocupada por anarquistas.

imageSerá nesta casa que Purity irá conhecer Annagret, uma estranha pacifista alemã, mulher de Andreas Wolf, um homem com mandatos de captura por pirataria informática e responsável pelo Projecto Luz Solar, que tem como aparente missão denunciar todos os segredos do mundo. É o próprio Wolf que acaba por convencer Pip a candidatar-se a um estágio na Bolívia e que a obrigará a refletir sobre quais serão realmente as fronteiras entre o bem e o mal.

Para além de Purity, Wolf e Annagret, o escritor apresenta-nos a outras personagens incríveis, alternando entre o presente e o passado, fazendo recuar-nos aos tempos do muro de Berlim.

Durante estas viagens entre o passado e o presente de todas as personagens, Franzen apresenta-nos a um mundo constantemente vigiado pela Internet, pelos telefones, pelas polícias secretas, que, em cada momento da história, tratam de registar e, se possível, eliminar todos os desvios à abençoada normalidade.
Um livro repleto de alma que merece ser visto no grande ecrã, embora não seja de todo uma tarefa fácil transpor tudo o que esconde nas suas entrelinhas. Em Purity perdemos a noção do tempo e facilmente viajamos neste mundo conturbado de diferentes emoções, que nos obriga a realizar o nosso filme imaginário e a fazer o casting das nossas personagens.

Não sei se algum dia o verei em alguma tela de cinema – não sei quem seria o ousado realizador –, mas uma coisa vos posso garantir: não será de todo um filme convencional e quase que aposto que vai gerar opiniões muito divergentes.

O que vos posso dizer é que, se forem amantes de um bom livro de cabeceira, não podem perder este livro que poderia dar um filme. E depois, quem sabe, poderemos discutir o casting que elegemos para cada personagem, o que me dizem?

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