Os Chavelhos do Batman

 

Não servem para nada mas se não existissem faziam falta, não faziam? É um bocado como certos filmes que querem ser bons mas que são só parvos. Peças tão curiosas que merecem ser alvo de uma crítica por vezes corrosiva, outras sarcástica e ainda outras tão medíocre como as próprias fitas que as inspiraram.

Esta rubrica é uma lotaria. Mas ao menos ninguém paga bilhete.

 

THE DARK KNIGHT RISES (2012)

de Cristopher Nolan

Passe o tempo que passar, não deixo de perder o controlo momentâneo da bexiga sempre que penso nesta pilha de trampa! A bem da minha vida social e do meu casamento, resta-me esperar que escrever sobre o assunto seja minimamente terapêutico.

Pode dizer-se que até 2012, praticamente tudo em que o Nolan tocava era ouro para mim. Memento, The Prestige, Inception e, claro, os dois primeiros filmes do renascer do homem-morcego após um cataclismo de tal forma apocalíptico que quase f***a o franchise para sempre (ou, por outras palavras, Schumacher), levavam a crer que tudo era um mar de rosas. A saga do Batman no cinema tinha começado muitos anos antes, com um Tim Burton arrojado que ainda não tinha sucumbido àquilo que costumo chamar “síndrome La Féria”. Ou seja, só faz recauchutagens repetindo uma fórmula que tem tanto de pirosa como de pouco original. Quando Burton ainda era um génio, e não tinha a obrigação de arranjar emprego à esposa, sairam duas fitas muito jeitosas num misto de edgy e de avant-garde. O meu filme favorito do Batman até aos dias de hoje ainda é o Returns e continuo a achar que ali tudo funciona, com os actores perfeitos nos papéis perfeitos e uma narrativa consistente num universo negro e desconcertante.

Portanto, o que antecedeu esta nova série do Cavaleiro Negro foi mais ou menos isto: um início brilhante e prometedor seguido por uma espécie de suicídio foleiro patrocinado pelos idiotas da Warner Brothers e seguido, uma vez mais, por um certo renascer das cinzas pela mão de um dos mais interessantes realizadores dos últimos tempos. Isto até vir este ignóbil Dark Knight Rises

E antes que eu volte a dizer o quão imbecil acho o filme e as suas escolhas, convém reforçar que sim… Eu percebo que falamos de um tipo que é biruta, que se veste de borracha à noite e toma a identidade de um mamífero alado cegueta para combater o crime. Eu percebo isso tudo, não é para levar demasiado a sério. Mas mesmo assim… MESMO ASSIM… É possível ter uma narrativa cheia de incoerências e que, em grande parte, não faz sentido nenhum.

Não vou esmiuçar.

Apenas dizer que tive acesso a partes do guião que não foram incluídas no filme e que a melhor maneira de falar de algumas das suas cenas mais absurdas é traduzi-las e colocá-las aqui para perceberem do que estou a falar.

Ora leiam com atenção…

CENA 1
Batman está a levar uma intensa carga de porrada de Bane. O nosso herói cai para trás e o super-vilão avança sobre ele, com intenções de o esmagar. Batman procura uma qualquer arma no seu cinto de utilidades e usa a que tem mais à mão… estalinhos! Bane acha a situação ridícula e parte-lhe as costas.

Mais tarde, Bruce Wayne dá uma ligada a Lucius Fox no Batsamsung…

Wayne:
‘Tou sim?

Fox:
‘Tou.

Wayne:
Lucius. ‘Tás bom, pá?

Fox:
‘Tá tudo. Aqui a tomar conta da bomba e tal…

Wayne:
Óptimo, óptimo.

Fox:
Então e de resto? Tudo bem contigo?

Wayne:
Eh pá, mais ou menos… ´Tou com as costas partidas…

Fox:
Ihhh que maçada, pá…

Wayne:
Pois é. Isso e estou numa prisão na Índia que é tipo um buraco ou lá o que é isto.

Fox:
Olha, ao menos aí diz que há bons endireitas.

Wayne:
Sim, já ouvi dizer. Queria falar contigo acerca do meu cinto, pá.

Fox:
O da Lacoste?

Wayne:
Não, porra! O de utilidades…

Fox:
Ah! Ok… O que é que tem?

Wayne:
Eh pá… Estalinhos?!

Fox:
Sim… E pus-te lá outras coisas também…

Wayne:
Mas para que é que eram os estalinhos?!

Fox:
Sei lá! E porque não? Toda a gente acha graça a estalinhos…

Wayne:
Eu também achava se não tivesse um culturista asmático pronto a esmagar-me a espinha, pá. Dás cabo de mim…

Fox:
Escuta. Também lá pus bombinhas de mau cheiro e bicha de rabiar… Não usaste foi porque não quiseste.

Wayne:
Homem… UM CULTURISTA ASMÁTICO A QUERER ESMAGAR-ME A PORRA DA ESPINHA! Para que é que eu quero a bicha de rabiar?!

Fox:
´Tá bem mas lá por ser asmático não quer dizer que não tenha sentido de humor, acho eu…

Wayne:
Eu acho é que estás a ficar senil, pá! Desculpa lá que te diga isto assim mas há coisas que têm de ser ditas!

Fox:
Pronto, também não é preciso… Bom, se conseguires voltar p’ra casa atenção aos correios porque mandei vir um pack daqueles morceguinhos de metal que adormecem. Estavam em promoção na Amazon.

Wayne:
Ah bom. Com isso já me governo melhor…

Fox:
Vês? As melhoras, pá…

Wayne:
Obrigado, igualmente. Toma o Centrum depois das refeições que essa cabeça… Já conheceu melhores dias.

Fox:
‘Tá bem, não batas mais no ceguinho…

Bruce Wayne desliga o Batsamsung e pede um emplastro para as costas. O jagunço deitado ao lado dele diz que não tem emplastros mas que de bom grado lhe aplica uma murraça e o prende a uma corda, como um presunto. Bruce Wayne fica a pensar enquanto vê o que está a dar na TV…

CENA 2

Depois de mais um dia stressante com muito virar cabeças de pessoas ao contrário e rebentar com estádios de futebol americano, Bane recolhe aos seus aposentos na zona nobre do esgoto de Gotham.

Prepara um Martini e pega no telefone:

Operadora:
NOS, muito boa tarde, fala a Sílvia. Em que posso ser útil?

Bane:
Olá Sílvia, boa tarde. Daqui fala Bane e q…

Operadora:
Peço desculpa mas vou pedir-lhe que desligue a televisão porque estou a ouvi-lo mal…

Bane:
Perdão?

Operadora:
Há uma interferência qualquer na linha e não consigo perceber nada…

Bane:
Ah mas isso sou eu, não faça caso.

Operadora:
É você?

Bane:
Sim, arrancaram-me a cara quando estive preso na Índia.

Operadora:
(silêncio)

Bane:
‘Tou?!

Operadora:
Diga lá, então.

Bane:
Olhe, era precisamente por causa da Índia que queria falar, tem graça. É que entretanto a prisão foi-me deixada em herança por uma tia, sabe?

Operadora:
Na Índia onde, mais precisamente?

Bane:
É a meio da A23 como quem vai para Calcutá mas corta uns quilómetros antes junto à medina do Júlio…

Operadora:
Desculpe, disse-me a medina do quem?

Bane:
Do Júlio. Aquilo depois é uma espécie de poço com malta fedorenta a gritar lá em baixo. Não há como enganar.

Operadora:
Ah já sei onde é. Sim… E o senhor vem apresentar alguma reclamação?

Bane:
Nada disso. Muito pelo contrário. Queria dar-vos os parabéns!

Operadora:
Os parabéns? Então?

Bane:
É que eu sempre gostava de saber como é que vocês conseguiram fazer a ligação naquele fim do mundo e ainda por cima debaixo da terra! A imagem da TV está perfeita e a net também é muito jeitosinha.

Operadora:
Eheheheh é que nós agora só trabalhamos com fibra, sabe? Embora tenha sido um bico d’obra meter os técnicos lá em baixo com rapel e tudo… Mas valeu a pena.

Bane:
Sim, evidentemente. Não queria deixar de vos dar uma palavra de apreço porque realmente ter TV em condições é importante p’ra malta ver o Preço Certo e também porque agora tenho lá visitas…

Operadora:
Ah sim?

Bane:
Sim. Bruce Wayne. De certeza que conhece.

Operadora:
Claro, claro. Mas olhe, se o tem lá preso veja lá se tapa o buraco . É que ele mesmo não tendo material de escalada pode sempre escapulir-se…

Bane:
O Bruce?! Nem pensar nisso. Então o tipo ‘tá com as articulações todas janadas e não anda sem uma bengala e tudo! Alguma vez… Eheheheh

Operadora:
Realmente… Que disparate…. Ahahahahah

Bane:
Pois. Ahahahahah

Operadora:
Ahahahahah

Bane:
Bom, então boa tarde e obrigado.

Operadora:
Obrigado, disponha sempre.

Bane desliga o telefone e senta-se numa cadeira, curvando-se para a frente, de costas para quem possa aparecer. Podia sentar-se num cadeirão almofadado que encontrou no lixo, seria mais cómodo, mas assim não tinha tanto impacto dramático. Fica imóvel a bebericar o Martini. Come a azeitona no fim.

CENA 3

Gotham City encontra-se num caos nunca antes visto. Em vez de tentar fugir ou usar a situação em seu benefício fazendo o que faz melhor, roubar milionários, Selina Kyle entretém-se a comer a maçã de um orfão esfomeado.

Indiferente às agruras dos órfãos… Bruce Wayne, que estava escondido num beco, aproxima-se da tipa:

Wayne:
Oi bixaninha…

Selina:
Bruce? És mesmo tu?

Wayne:
Não, é o maquinista… Claro que sou eu, pá.

Selina:
Ah! Não leves a mal a pergunta mas é que ainda ontem estavas preso num fosso do fim do mundo, com uma vértebra deslocada, as articulações esmifradas e sem um tostão no bolso… Portanto, percebes a confusão.

Wayne:
É, não é?! Eu avisei o Nolan, mas o gajo veio-me com uma treta que tínhamos de sair todos do estúdio até às 6, que o contínuo já tinha avisado duas vezes que tinha de encerar o chão todo e aquilo fica sempre um nojo, enfim…

Selina:
‘Tou a ver…

Wayne:
Pois. Então que cobóiada vem a ser esta, explica-me lá.

Selina:
Bom, assim muito sucintamente os tipos tomaram conta disto e temos 24 horas para impedir que vá tudo pelos ares…

Wayne:
24 horas?!

Selina:
É.

Wayne:
Ok, então aponta aí. Preciso de um fato novo (que o outro ficou todo escalavrado), os morceguinhos de ferro com Xanax, a Batmota p’ra ti, o Batcóptero p’ra mim…

Selina:
Espera que não consigo escrever tão depressa! Batmota… Batcóptero… Onde é que este está estacionado?

Wayne:
Deixei-o no telhado da casa da minha madrinha. Ela não o usa e às vezes dá-me jeito p’ra guardar tralha.

Selina:
Num telhado?!

Wayne:
Deixava-o estacionado na rua, queres ver?! Sou rico mas não sou parvo! Isso só em parquímetros era um balúrdio!

Selina:
Já não és bem rico mas enfim…

Wayne:
EXACTO! GRAÇAS A QUEM?!

Selina:

Wayne:
Vá, aponta aí, filha. O Batcóptero, a minha cinta anti-facadas no bucho, material de escalada, um pincel e querosene.

Selina:
O quê?

Wayne:
O quê o quê?

Selina:
Para que é a escalada e o querosene?

Wayne:
É p’ra fazer uma brincadeira ali na ponte. Eheheheh vai fazer cá um vistão…

Selina:
Uma brincadeira?

Wayne:
Sim, vou pintar um morcego inflamável p’ra depois acender e meter medo aos bandidos…

Selina:
Bruce, só temos 24 horas p’ra parar a bomba e tu queres andar a pintar morcegos na ponte? Não achas que devíamos tratar do mais importante primeiro? Depois pintavas os morcegos todos que quisesses…

Wayne:
VOCÊ NÃO PERCEBE NADA DE DRAMA! EU SOU UM ARTISTA!

Selina:
Fala baixo, pá.

Wayne:
Nós na Liga das Sombras tivemos duas cadeiras de teatro só no segundo ano. Isto p’ra não falar dos módulos de pintura. Eu é que sei se é preciso fazer morcegos ou não!

Selina:
Ok, ok, pinta-se a porra do morcego…

Wayne:
Pois claro! Agora devolve a maçã à criança que está p’raqui a babar-me a gabardina…

Bruce Wayne e Selina Kyle apanham o autocarro mais próximo e vão tratar dos recados. Antes, passam ainda pelo Office Center p’ra encomendar o stencil do morcego e p’ra comer um folhado e uma meia de leite. O stencil fica a fazer enquanto vão comprar o resto do material. A Selina é que paga porque o Bruce está falido. Perante o olhar incrédulo dos malfeitores, os dois concretizam a silhueta gigante na ponte. Com isto passaram-se 20 horas.

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