Onde andam os novos heróis de Hollywood?

Desabafo de um puto dos anos 80.

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Não há nada como sair de uma sala de cinema com a certeza que descobriste um novo herói. Com vontade de comprar outro bilhete para o rever noutra sessão. A contar os dias para comprar uma cópia lá pra casa. E, quando temos sorte, esse herói volta para mais uma aventura. Há uma alegria genuína quando é anunciado que vai chegar mais um filme.

O fim dos anos 70 e a década de 80 foi fértil na criação de heróis de acção e ficção científica. Talvez também por o público não estar à espera que isso acontecesse, o sabor terá sido ainda mais especial. Imaginem que, do nada, e só no passar de duas horas, regressas a casa obcecado com as aventuras de uns tais de Skywalker, Leia, Solo e uns droids amigos. Que regressas do cinema com uma nova obsessão pela arqueologia porque te convenceram que um gajo normal pode ser um herói, como o Dr. Jones.

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Eu era demasiado novo para ter visto o Star Wars e Os Salteadores da Arca Perdida no cinema. Só fui a tempo das duas sequelas, que durante alguns anos foram na minha cabeça os primeiros filmes destes heróis até ver em VHS os dois primeiros. Ainda assim, o efeito foi o mesmo. De repente, tinha mais dois ídolos que rivalizavam com o Super-Homem e o Batman, que na altura eram “bonecos” na televisão (também só mais tarde conheci Kal-El de carne e osso em VHS). De repente, qualquer brinquedo que tivesse uma qualquer ligação com o Luke ou o Indy eram a melhor prenda do mundo.

As sequelas lá vieram e ainda deu para mais um filme de cada saga. O sucesso com o público gerou este fenómeno das sequelas. A fórmula parecia funcionar e Hollywood passou a ter a mente mais aberta a novas ideias. Mais para meio dos 80 e com a chegada dos 90, a minha geração foi mimada com uma mão cheia de novos heróis, que também eles iriam gerar mais filmes. Quem não quis ser o Marty McFly, ou o Daniel LaRusso, ser a dupla policial de Martin Riggs e Roger Murtaugh ou ser Axel Foley ou ter a coragem do John McClane ou do John Rambo? Tudo isto nos apanhou de surpresa. E a nossa juventude foi melhor por os conhecer.

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No entanto, também eles podem ter influenciado o estado actual do cinema de acção e ficção. Mas perguntam vocês: mas o afinal que está mal? Eu explico.

Com o sucesso de bilheteira que foi gerado por estes filmes, hoje quando é feito um filme de acção, a primeira (ou principal) preocupação é se dá para fazer três ou quatro filmes. É um dos requisitos para o filme ver a luz do dia. Isso limita a criatividade ou as novas ideias. Se em 1977 tivessem exigido que Star Wars fosse obrigado a gerir mais 8 sequelas, obviamente não teria sido feito. Essa pressão de sucesso tem levado a indústria a virar-se para “sure things“.

Por isso mesmo, vemos hoje em dia uma avalanche de filmes de super-heróis da BD. Ainda por cima com o regresso de Batman, primeiro na mão de Tim Burton e mais tarde na de Nolan, houve a confirmação que o público queria ver estes heróis no grande ecrã e cada vez com mais exigência de qualidade. Eu estou no meio desse público. Também eu tenho vibrado com a qualidade da maior parte destes filmes. Até com a adaptação, mais recente, de heróis que não são tão óbvios como os Watchmen ou o Deadpool.

Isto levou também a algum exagero que, na minha opinião, está a esconder a tal criatividade de Hollywood que aqui venho reclamar. Neste momento há claramente sequelas e spin-offs a mais. Estão a ir pelo sucesso fácil. Hoje a receita é: “Ora vê lá aí se há mais alguma banda desenhada que a malta possa fazer. Senão damos mais uma volta ao Homem-Aranha!”. Ou então pegam em bestsellers com vários capítulos, com milhões de seguidores que “garantem” público e, claro, sequelas. Ele é Harry Potter‘s, Senhores dos Anéis… O quê!? Funciona? Segue com Twilight, Hunger Games, etc… E a alternativa também não tem sido feliz. Parem com os remakes. O Robocop, os Ghostbusters, o Karate Kid, o Total Recall, e muitos mais, não precisam de ser refeitos. Basta pegar numa cópia ou vê-los num qualquer streaming para perceber que esses filmes resistem ao tempo.

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Mas voltemos ao início do meu desabafo. A tal experiência cinematográfica. Hoje em dia a experiência acaba por ser mais uma avaliação. Das duas uma: ou sais da sala a dizer que este Batman está perfeito ou que o Batman não é nada daquilo. Ou que a saga não corresponde aos livros que devoraste. Até eu, que tento ver todos os filmes apenas com a intenção de me divertir, acabo por entrar nessas contas e comparações. Teria sido extremamente estúpido sair do cinema depois de ver O Salteador da Arca Perdida a dizer: epá, isto não é o Indiana Jones!! Ou gostas ou não gostas, sem pre-requisitos.

É isso que me falta nos últimos dez, quinze anos. Heróis novos. Descobrir um novo personagem de quem não estou à espera. Sem expectativas. O único herói que me foi apresentado e me ofereceu essa tal alegria de ter um “brinquedo” novo foi o Jason Bourne. E até deu para sequelas. Mas é pouco, muito pouco.

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Se calhar se não houvesse a obrigatoriedade de ter sucesso e sequelas, apareciam mais filmes como apareceram no passado, como Blade Runner ou Total Recall ou True Lies ou Leon, o Profissional ou Matrix (que até teve sequelas, mas mais valia não ter tido) e muitos mais. Nem todos têm que dar em sequelas. Vai daí, se apostarem mais em ideias novas, até aparece o tal novo herói e as sequelas aparecerão naturalmente.

Eu estou ansioso pela sua chegada.

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