Onde estão eles agora?

Começo com uma confissão – o formato do que aqui vão ler é roubado ao tão-brilhante-quanto-defunto site Grantland, um repositório do que melhor se escrevia sobre desporto e cultura pop que a ESPN decidiu, aberrantemente, fechar.

O objectivo da série é simples – pegar num filme, programa de TV, banda ou o que seja e ver quem mais se destacou na carreira póstuma (o “antes” não é relevante). Estão aqui os exemplos deles.

Se há série que personaliza a expressão “timing é tudo na vida”, é Freaks & Geeks. Produzida em 1999-2000 e passada na viragem dos setentas para os oitentas, merecia ter vivido na actualidade, onde a filosofia corrente de quem manda teria certamente permitido mais do que os escassos dezoito episódios que a sua única temporada deu à luz.

Olhando com alguma distância (temporal, não necessariamente de objectividade, já que se trata de uma das minhas séries preferidas de sempre) lembra-me um pouco como ver a equipa de Portugal que conquistou o mundial de sub20 em 1991 – com tanto talento junto, é natural que as coisas sejam bem feitas (dessa equipa faziam parte só nomes como Figo, Rui Costa, João Vieira Pinto e Peixe).

Neste caso, a quantidade de gente em início de carreira que hoje admiramos, tanto à frente como atrás das câmaras, é quase assustador. Focando-se sobretudo sobre a família Weir e os seus dois mais novos – Sam, de catorze anos, e Lindsay, de dezasseis, os episódios dedicavam tempo aos seus respectivos grupos de amigos (os Geeks e os Freaks), problemas escolares e familiares.

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Olhemos o elenco e equipa técnica da coisa.

Elenco:

  • John Francis Daley
  • Linda Cardellini
  • James Franco
  • Samm Levine
  • Seth Rogen
  • Jason Segel
  • Martin Starr
  • Busy Phillips

Equipa Técnica

  • Paul Feig
  • Judd Apatow
  • Jake Kasdan
  • Mike White

Medalha de Ouro

Judd Apatow – O vencedor (por muito pouco) – Produtor executivo da série, realizou três episódios pouco antes da sua estreia no cinema com 40 Year Old Virgin, que o catapultou para o patamar de “O” produtor de comédia em Hollywood, apadrinhando projectos de vários jovens e tendo dedo em coisas como Superbad, Forgetting Sarah Marshall, Pineapple Express (estão a ver os links com o elenco?) e mais recentemente na aclamada série da HBO Girls e a estreia de Amy Schumer no cinema com Trainwreck. Co-escreveu também a série Love, no Netflix.

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Medalha de Prata

James Franco (Daniel DeSario) – O nome mais sonante dos jovens que despontaram na série, tem tido uma carreira demasiado eclética e bizarra para sumarizar por aqui. Com mais de 123 créditos no seu imdb e uma nomeação ao Óscar (127 Horas), James Franco parece interessado em fazer o que bem lhe apetece, alternando projectos “sérios” com realizadores respeitados com comédias estapafúrdias (no bom sentido da palavra, às vezes) com os seus amigos.

 

Medalha de Bronze

Jason Segel (Nick Andopolis) – O adorável Marshall de How i Met Your Mother, escreveu e apareceu ainda em The Muppets e num personal favourite, Forgetting Sarah Marshall. No geral, um fixe. Ganha pontos por se ter focado na qualidade e não quantidade de projectos.

 

Prémio de Consolação ex-aequo de quem nem ao pódio chegou apesar de excelentes carreiras

Seth Rogen (Ken Miller) – Usou o seu primeiro papel na indústria para se tornar um nome de referência na comédia, interpretando, escrevendo e produzindo projectos como Superbad, Pineapple Express, Neighbors e The Interview. A sua adaptação da BD Preacher, a ser lançada muito em breve em televisão, tem levantando muitas expectativas.

Paul Feig – o criador da série e que, depois de anos a trabalhar com gente muito talentosa (realizou episódios de Arrested Development, 30 Rock, Mad Men, Weeds, Parks and Recreation e The Office), saltou para o cinema com o êxito Bridesmaids. É ele que assina também o estranhamente-já-odiado Ghostbusters, a estrear em breve.

 

Fizeram coisas interessantes mas não o suficiente para disputar as medalhas (por ordem)

John Francis Daley (Sam Weir) – A carreira de ator não disparou como outros elementos do elenco, destacando-se a sua presença na série Bones, onde se tornou regular e participou em 140 episódios. Foi também com Bones que recebeu o seu primeiro crédito como guionista, assinando um episódio da série e partindo para as longas metragens – o surpreendentemente engraçado Horrible Bosses (e a sua menos iluminada sequela), o remake do clássico Vacation e, brevemente, o novo Spider-Man: Homecoming.

Mike White – A fechar esta lista da equipa de produção e guionismo da série está Mike White, que assinou Orange County bem como o muito interessante The Good Girl, com Jennifer Aniston, e, outro personal favourite meu, o demasiado cool School of Rock.

Martin Starr (Bill Haverchuck) – Uma das personagens mais interessantes da série, o seu intérprete andou ligeiramente desaparecido, com participações menores em projectos de muita desta gente como Knocked Up, Superbad e This is The End, até se afirmar recentemente em Silicon Valley – outra boa série – num papel que não podia ser mais diferente de Bill.

Linda Cardellini (Lindsay Weir) –- Também a outra protagonista tem tido uma carreira relativamente discreta pós F&G, com o papel de Velma nas adaptações de Scooby Doo a serem um dos destaques, a par de uma participação regular na série ER e, recentemente, no interessante drama do Netflix “Bloodline”, cuja segunda season está prestes a ser lançada.

Jake Kasdan – Filho do aclamado Lawrence Kasdan (que escreveu “só” coisas como Empire Strikes Back, Return of the Jedi e o primeiro Indiana Jones, bem como o regresso recente de Star Wars ao cinema), Jake assinou a realização de cinco episódios de F&G antes de uma comédia independente a descobrir chamada Orange County. Tem alternado televisão e cinema (Californication e New Girl, por exemplo, com Bad Teacher e Sex Tape no grande ecrã), Kasdan será o realizador do novo Jumanji, que pretende juntar Dwayne “The Rock” Johnson com Kevin Hart.

Busy Phillips (Kim Kelly) – Deve ser o que em desporto se chama uma boa “role player”, dada a sua participação frequente em tantas séries desde o fim de Freaks and Geeks – 46 episódios de Dawson’s Creek, 22 em Love, Inc., catorze em ER, cinco em Terminator: The Sarah Connor Chronicles e mais de 100 em Cougar Town, certamente onde ganhou mais visibilidade.

Samm Levine (Neal Schweiber) – Certamente o menos bem sucedido do gang, o agora-menos-jovem Samm tem feito participações pequenas em diversos projectos (How I Met Your Mother, Modern Family, 90210, Veronica Mars, Entourage e até Lost e Inglorious Basterds) sem lhe confiarem papéis mais substanciais. É possível que tenha nascido só para interpretar o sarcástico Neal, o que já não está nada mau para uma vida.

 

Bónus – Cameos!

Além dos jovens referidos, destaque para o professor de educação física interpretado por Tom Wilson, para sempre o infame Biff de Back to the Future, bem como cameos interessantes dos então ilustres desconhecidos Lizzy Caplan, Jason Schwartzman, Rashida Jones, Ben Stiller ou Shia LeBeouf.

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Isto tudo para dizer – descubram a série – é mesmo muito boa e remete para aquela altura das vidas em que as coisas eram mais simples (apesar de não o acharmos, de todo). Depois agradecem.

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