Os Chavelhos do Batman

 

Não servem para nada mas se não existissem faziam falta, não faziam? É um bocado como certos filmes que querem ser bons mas que são só parvos. Peças tão curiosas que merecem ser alvo de uma crítica por vezes corrosiva, outras sarcástica e ainda outras tão medíocre como as próprias fitas que as inspiraram.

Esta rubrica é uma lotaria. Mas ao menos ninguém paga bilhete.

 

A PURGA  (2013)

de James DeMonaco

Quando os cães ou os gatos estão c’os azeites, ou simplesmente com crises de figadeira, têm por hábito comer ervas daninhas para depois regurgitarem tudo cá para fora numa espuma acastanhada e peçonhenta com laivos de vomitado. O curioso é que esta, ainda assim, não é a mais nojenta das purgas…

Há um filme, chamemos-lhe isso para facilitar, que estreou em 2013 pela mão do semi-desconhecido James DeMonaco. Uma fita tão absurda e pretensiosa que acabou por captar a atenção daquela malta que gosta de fazer crer que pensa à frente quando na realidade está mil anos atrás… Só assim se justifica que esta cataplana de pus tenha já uma sequela cá fora e outra quase pronta a caminho. Ao analisarmos a página de IMDB de DeMonaco não tiramos grandes conclusões. “A Purga” foi o seu segundo trabalho como realizador (o primeiro terá sido “Little New York”, que nunca vi), sendo que o resto da sua curta e, apraz-me dizer, medíocre carreira, terá sido dedicada ao guionismo com pérolas como “Jack” (sim, aquela diarreia cerebral do Coppola com um Robin Williams a fazer de tolinho e um Bill Cosby entre violações) e “Skinwalkers” (eh pá, não sei). No entanto, o agigantamento de “A Purga”, a explosão de testosterona, o varrer dos plot holes e do ridículo para debaixo do tapete fez-me logo crer que cheirava ali a esturro e a transformer escondido com o rabo de fora. Bastou uma pesquisa rápida para constatar que Michael Bay, o mesmo que a cada filme tenta compensar o facto de ter uma pila do tamanho de um amendoim, é um dos produtores. Portanto, tudo explicado, bola p’rá frente…

Para compreender, aceitar e gostar desta fita é necessário obedecer a uma lista de requisitos que elaborei (não necessariamente por esta ordem). O espectador deve:

– abandonar tudo o que é a lógica e o senso comum.

– fazer uma regressão mental aos tempos do primeiro ciclo, quando já tínhamos idade para ver filmes na TV e papávamos alegremente qualquer patacoada que nos servissem.

– gostar imenso de sanguinho e de balázio.

– já ter desejado assassinar à bruta o velho que está à nossa frente no buffet e que enche o prato de batatas, uma a uma, muito lentamente, como se não existisse mais ninguém no mundo.

– acreditar que o Ethan Hawke está a gerir a carreira como um campeão.

– achar que o único problema do cast é não ter lá a Megan Fox.

Ora bem, imaginem uns Estados Unidos da América (quase) perfeitos onde o crime praticamente não existe e todos vivem em paz e sossego. Porquê? Porque há uma noite no ano (12 abençoadas horinhas), em que é perfeitamente legal e aceitável matar, estuprar, rebentar e esfutricar tudo e todos à vontade, sem qualquer tipo de repercussões ou julgamentos éticos e morais.

Suspiro…

Eu nem vou começar a apontar OS MILHÕES de motivos porque é que isto é uma das premissas mais imbecis que já foram colocadas numa tela de cinema… Vou apenas deixar que pensem um bocado no assunto, esperando que sejam pessoas sensatas e com o mínimo de noção do que é caricato, e seguir como se nada fosse.

O filme principia com o já citado Ethan Hawke a conduzir o seu bólide todo armado ao pingarelho, após um dia de trabalho na super empresa de segurança de onde é um dos “mandachuvas”. Durante o percurso até casa, enquanto constatamos que apenas o nome da Lena Headey (a Cersei Lannister do Game of Thrones) desponta dos créditos, ouvimos o auto-rádio e apercebemo-nos que a noite da purga está quase quase a chegar. Escutamos inclusivamente um indivíduo que liga para o programa e diz que vai fazer e acontecer ao chefe e tal… Ficamos a desejar que o tipo tenha sorte porque se de alguma forma o patrão tiver ouvido e sobreviver, serão reuniões e pausas para o café muito awkward naquele escritório durante um ano.

Bom, Hawke chega a casa todo entusiasmado e a dizer maravilhas deste sistema impoluto de mortandade e carnificina (o filme insiste bastante no quão perfeito ele é, tendo sido uma das boas medidas dos “novos pais fundadores”… Quem são eles? Ninguém sabe mas também não interessa porque já não há quem pare este trinta e um). Encontra a Cersei a fazer o jantar, o filho mais novo, que é avariado da casa das máquinas, a brincar com um boneco esquisitóide que ele lá construiu e a filha galdéria a esconder o namorado no quarto para fazer sabe deus o quê. Juntam-se todos à mesa e só à última é que o papalvo do Hawke se lembra que a selvajaria vai começar e ninguém activou o sistema de segurança ultra avançado que instalaram na vivenda. Oooops…

Começa então a purga e passados quinze minutos já está um sem abrigo a bater à porta e a pedir guarida porque há um grupo de putos betos que deseja esfrangalhá-lo bem. O filho mais novo que, repito, é para lá de debilóide, desactiva o sistema de segurança ultra avançado que o pai ajudou a criar com o simples carregar de um botão e abre a porta ao homem. Oooops…

Entretanto, e porque às vezes parece que tudo tem de correr mal, o namorado da putéfia da filha que estava escondido no quarto tem uma arma e decide pregar uma fogachada no desgraçado do Ethan Hawke que não há cinco minutos descobriu que tem um mendigo à solta no hall de entrada. Dá-se uma troca de tiros com o rapaz menor de idade e felizmente tudo acaba bem porque este é atingido mesmo no baixo ventre. O puto morre nos braços da galdéria que chora baba e ranho mas logo a seguir caga na cena e concentra-se antes no sem abrigo que anda desgovernado pelos corredores, como aquelas traças que entram pela janela e não conseguem deixar de dar cabeçadas nos candeeiros.

Mas como se não bastasse esta palhaçada toda, eis que chegam os putos betos, exigindo recuperar a presa que lhes escapou das falangetas. Miudagem que tanto DeMonaco como Bay certamente se esforçaram para tornar assustadores mas que são tão patéticos, tão exagerados, tão carentes de atenção, que não há como não achá-los adoráveis. Todos eles usam máscaras menos o líder que é o mais espalhafatoso desta grupeta de foliões.

Suspiro…

Henry, ignorando o facto do tempo estar contado e haver milhares de outras pessoas a viver na rua e à mão de semear (para quem não sabe, a América está com problemas), passa boa parte do filme a coagir a família Hawke a entregar-lhe a vítima fugidia. Já quando estes recusam, passa outra boa parte a tentar entrar-lhes na mansão estilo lobo mau com os porquinhos. Um espectáculo de gritaria, risos patetas, poses e gestos de teatro amador que arrancam um aplauso apaixonado até ao público mais insensível.

O último terço do filme acaba por ser bastante straightforward: Bay assenta uma patada na nuca do outro, pondo-o a dormir, toma o controlo da câmara e é abrir caminho até ao fim à base de paulada, naifada e tiroteio com os verdadeiros vilões da história (se é que isso existe) a revelarem-se bastante improváveis num twist que faria o Shyamalan molhar a cueca.

É assim…

Não se aprende nada, não se conclui nada, não se ganha nada de jeito com isto. Apenas acabamos o filme com a sensação de que estes “pais fundadores” devem estar a dever umas quantas pensões de alimentos… Que são daqueles que preferem ir semana e meia para Albufeira seduzir camónes do que passar tempo de qualidade com os filhos. A premissa é estapafúrdia, a história é mentecapta e o filme é, para todos os efeitos, tantã até dizer chega.

MAS porque é que teve sucesso e já vai em duas sequelas?

Enfim, do país dos rednecks, do tabaco de mascar, dos concursos de beleza para crianças de colo com perucas e pestanas postiças e onde se afigura a possibilidade do Trump vir a ser presidente… Acho que já podemos esperar tudo.

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