Viagem ao Centro de Bo Burnham

A arte na comédia


Decidi escrever este texto porque quis tentar dar um pouco mais de atenção aquele que é provavelmente o melhor espetáculo de comédia dos últimos anos – Make Happy, em destaque no Netflix. Do alto dos seus ridiculamente maduros 25 anos, Bo Burnham usa canções (aparentemente) absurdas para fazer um impressionante comentário sobre relações amorosas, arte e o seu próprio papel fugaz no mundo do entretenimento.

Para começar, tenho de dizer que sempre adorei comédia musical. Desde o absurdismo de Weird Al Yankovic à ausência de limites de Stephen Lynch (ou até mesmo os bem nossos Ena Pá 2000 e Irmãos Catita, que juntam brilhantemente estas duas veias cómicas), uma boa sátira musical faz-me rir como poucas coisas conseguem. E, como estudioso veterano desta vertente da comédia, cheguei, ao longo dos anos, a uma simples conclusão: a comédia nunca resulta se as canções não forem boas.

E porra se as canções são boas… Musicalmente brilhantes, com letras que navegam pensamentos complexos sem nunca sacrificar o ritmo lírico da canção. E os valores de produção que acompanham estas maravilhosas interpretações são como algo que nunca antes vi em comédia. Os jogos de luzes em palco estão ao nível da mais opulenta banda de rock no mundo – e infinitamente mais precisos na sua intenção artística.

Não vou querer entrar muito em descrições individuais de canções porque quero que descubram essas pérolas por vocês mesmos, mas deixo-vos, para perceberem com o que podem contar, a genialidade da primeira grande canção do espetáculo:

Para terminar, é importante perceber que este espetáculo não é apenas divertido. Não que isso fosse insuficiente – bem sabemos como qualquer dose de comédia bem construída é um raio de luz nos tempos que correm. Mas não – Bo Burnham tem objetivos mais ambiciosos. Por entre apontamentos absurdistas e sátiras implacáveis à desonestidade intelectual de artistas como Katy Perry ou Keith Urban, o jovem comediante não se esquiva a comentar sobre as raízes emocionais do trabalho que faz.

Burnham questiona o seu papel como artista – deve um comediante “limitar-se” a oferecer uma hora de gargalhadas ou deve aspirar a algo mais? Com a proximidade cada vez mais nebulosa entre artista e público, como relevar a importância do intérprete sem resvalar para a arrogância? Como fazê-lo de forma honesta? E que consequência pode essa honestidade ter no próprio artista?

“Come and watch the skinny kid with a steadily declining mental health and laugh as he attempts to give you what he cannot give himself”Bo Burnham, Make Happy

Disse, no início deste texto, que este é o melhor espetáculo de comédia dos últimos anos, mas questiono-me se será a melhor descrição para este especial. É comédia, sim. Também. Mas o que Bo Burnham nos oferece aqui é algo diferente – é arte.

Facebook Comments

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *