O Nono Episódio

A brutal simetria de “Game of Thrones”.


Os nonos episódios de “Game of Thrones” já se tornaram uma tradição individual dentro do ritual globalizado do vício compulsivo que esta série se tornou em todo o planeta.

Desde o (suposto) herói principal da história a perder a cabeça – de uma forma muito pouco metafórica – a um anão a comandar as defesas de uma cidade inteira, sem esquecer casamentos com péssimo entretenimento e lutas ferozes no frio gelado do norte de Westeros. O episódio nove de cada temporada é, invariavelmente, o mais antecipado. E raramente desilude.

O episódio deste passado domingo da aclamada adaptação dos livros de George R R Martin não só cumpriu esta pesada expectativa como, muito possivelmente, a ultrapassou. Este foi, muito possivelmente, o melhor episódio de sempre desta excelente série.

Antes de começar a explicar com mais detalhe tudo o que se passou neste episódio, uma pequena reflexão sobre o porquê desta bizarra simetria de termos os maiores momentos de cada volume desta série a acontecerem sempre nos mesmos episódios. A razão é simples e está relacionada com algo tão técnico como economia narrativa.

“Game of Thrones” é, acima de tudo, um feito de world building. Novas terras, novas personagens e novos paradigmas são lançados com uma frequência avassaladora, aumentando cada vez mais o âmbito da história e lançando os fãs mais diligentes numa vertigem de pesquisas online para tentar compreender o que raio se está a passar. Como tal, os últimos episódios de cada temporada têm a obrigação de fazer um apanhado da situação e lançar as principais linhas narrativas para o próximo ano – deixando espaço, ainda assim, para algumas surpresas aqui e ali.

Já o nono episódio goza de uma liberdade diferente. Concentra-se, normalmente, quase exclusivamente a apenas um evento e consegue, como tal, dar-lhe uma profundidade diferente. São episódios com mais corpo, mais sangue a correr-lhe nas veias. E, falando de sangue…

 

 

… caramba, que a grande batalha entre os exércitos de Jon Snow e Ramsay Bolton foi das coisas mais incríveis que alguma vez vi no grande ecrã. Desde planos épicos, como o de Jon Snow aparentemente sozinho no campo de batalha frente a uma ordem de cavalaria galopante, a representações cruas e viscerais dos horrores da guerra, esta luta teve de tudo. Incluindo a utilização de uma montanha de corpos mutilados como alavanca para encurralar um exército inteiro.

Curiosamente, com todo o heroísmo e perícia esgrimista que reconhecemos a Jon Snow, por muito pouco não lhe teria servido de nada. Depois de todos os planos cuidadosamente tecidos, bastou a Ramsay (previsivelmente) matar-lhe o irmão à sua frente, para se lançar sem plano para uma luta que não tinha qualquer hipótese de ganhar.

Valeu-lhe a crescente astúcia política da sua irmã Sansa, que soube engolir o orgulho e pedir apoio ao enorme e bem descansado exército de The Vale, comandados pelo agradavelmente inescrutável Littlefinger. A seu tempo veremos as consequências futuras desta tumultuosa aliança. Para já, deliciemo-nos com o sorriso satisfeito da princesa Stark depois de ver o seu ex-marido ser estraçalhado pelos seus próprios cães famintos.

Perdido na bruma deste incrível episódio, esteve o momento em que Khaleesi finalmente calou de vez os antigos nobres esclavagistas de Meereen da forma que melhor que sabe – com a ajuda de três dragões com o pior hálito de sempre.

Já não falta assim tanto para deixarmos de ser mimados com uma das melhores séries de sempre. Que saibamos dar valor a este privilégio enquanto ele durar.

 

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