Limonada

Agora que Lemonade vai estrear na TV Cine 3 dos canais por cabo, talvez seja um bom momento para expor este pequeno filme a todos (para se irem preparando).


I don’t wanna lose my pride, but I’m a fuck me up a bitch
Know that I kept it sexy, and know I kept it fun
There’s something that I’m missing, maybe my head for one

Trago mais uma vez um filme sobre música e músicos, mas a música persegue-me. Sempre, em todos os momentos do meu dia, estou a ouvir música. Nasci com mau ouvido mas boa afinação, por isso desisti da minha carreira musical para me tornar uma eterna ouvinte.

E sim, vamos de Nick Cave a Beyoncé como quem faz zapping porque chego a esse nível, mas confesso que foi difícil tomar a decisão de escrever este artigo sobre este filme. Se com o Nick Cave temos histórias de vida profundas e cheias de questões e buracos, descansem que a Queen Bey é bem simples.

Era semi-fã da Beyoncé, o último álbum dela tinha algumas músicas muito interessantes e gostei bastante da evolução face ao choradinho e a gritaria de outros anteriores. De alguma forma tentava aproximar-se ao tipo de produção do marido Jay Z ou do amigo Kanye, o que para mim foi um bom sinal.

Neste último álbum, Beyoncé decidiu contar uma história por inteiro que é exposta ao longo do álbum. O público assumiu que a história era a dela (já não é a primeira vez que a Beyoncé canta sobre amor ou traição ou família, mas para a crítica é como se fosse) mesmo podendo ser a de tantas e outras tantas pessoas por aí (especialmente mulheres porque é óbvio que o álbum é muito feminino). Não querendo saber se foi traída ou não, quem é a “Becky with the good hair” ou quem deixa de ser, o resultado é o mais importante – não nos vamos esquecer que a Beyoncé é uma entertainer e não uma cantora. Não vos vou maçar com uma biografia que podem encontrar na wikipedia, o álbum está para lá da vida real da senhora com a qual não temos nada a ver.

Se ouvirem o álbum (give it a try), oiçam-no completo e pelo alinhamento certo. Oiçam as letras, o tom e os ritmos. Retenham a história.

Depois de tudo isto, vejam o filme. Fiquei contente. Não quero ser spoiler nem entristecer alguns de vocês, mas não, não há Beyoncé praticamente nua. Já vimos isso anyway.

O filme foi feito por e para uma Beyoncé criativa, com uma equipa de produtores e uma direção criativa de se lhe tirar o chapéu. Para quem gostar de visuais – muitos e muito diferentes – vai estar nas sete quintas, o que não faltam são cenários, caracterizações e sub-estórias dentro da estória. A Beyoncé é a personagem principal, a narradora, a cantora e dançarina. Como habitual. Aqui, além das letras, tom e ritmo, contamos também com os cenários e as caracterizações (até a entrada de algumas celebridades para nos cativar a atenção) para contar a história.

Sim, é uma história de amor onde encontramos angústia, solidão, raiva, poder, perdão e conforto – e outras tantas emoções que compõem o amor e que deixo para vocês a tarefa de identificar. Como qualquer narrativa de amor e de traição, há uma fase de descoberta, de vazio, de raiva, luta e, por fim, o tão sofrido perdão. Não é um perdão nada fácil, é um perdão com um longo caminho e isso é o que faz esta estória tão rica e tão mais poderosa que os quinhentos mil álbuns já feitos sobre traição, maioria deles bastante ao lado.

O single (Formation) é um bocado fora do resto do álbum e posso perceber os críticos que a acusam de ter largado um bocadinho a bandeira do feminismo já algo gasta para pegar no “black feminism”. Mais uma vez, independentemente do objectivo final ou financeiro da coisa, a música está bem conseguida e apanhou-me também (não é a minha favorita).

Sim, é a Beyoncé, mas é o melhor álbum dela até ao momento – é soul, é r&b, é country, é rock, é hip hop e é Beyoncé. Let’s cheer to that.

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