“Deus viu que a luz era boa e separou-a da escuridão”


Título original: El Club (2015)
Realizador: Pablo Larraín
Actores: Alfredo Castro, Roberto Farías, Antónia Zegers

Em 2003, o jornal The Boston Globe foi premiado com um Pulitzer por provar a existência, em grande escala, de pedofilia sistémica na Igreja Católica Americana. Spotlight, película vencedora do Oscar de Melhor Filme de 2015, ilustrou bem a “guerra” dos jornalistas contra a toda-poderosa teia de poder da Igreja, colocando ênfase na conivência e criminalidade do próprio poder eclesiástico, visando os que governam a instituição, quem “puxa os cordéis”.

Em O Clube, do chileno Pablo Larraín, estamos do outro lado da tempestade, no olho do furação. Pertíssimo destes religiosos pedófilos e não só, de tal modo embrenhados nas relações humanas entre psicopatas e sociopatas que sentimos a escuridão e a marginalidade entrar em nós e perdurar depois do fim do filme. Pablo Larraín arquitecta um drama psicológico tenso e negro perfeito, uma espécie de film noir contemporâneo que nos arrebata os sentidos, que além de pôr em xeque a igreja, remete para questões espirituais e filosóficas universais, sobre o Bem e o Mal.

Esta imensa batalha entre luz e escuridão, sintetizada na belíssima cinematografia repleta de luz velada, desfocados e vapores, toma lugar numa dessas casas de refúgio, numa aldeia marítima, nenhures no Chile. Um padre acusado de pedofilia – excelente o casting de José Soza para o papel do Padre Matías Lazcano – chega à casa onde vivem cinco religiosos. Este é seguido por uma das suas vítimas, o bombástico Roberto Farías, no papel de Sandokan, um homem destruído pelo abuso, que o persegue desde os anos 80 e que o não deixará em paz. A igreja envia então o Padre García (Marcelo Alonso) psicólogo e conselheiro de crise, para controlar a situação e fechar a casa. Ao emergir-se no dia-a-dia daquela casa, onde se treina um galgo para ganhar dinheiro e se entra na psique daqueles homens através de consultas individuais, o Padre García percebe que não há redenção possível para aquelas criaturas, para si próprio e muito menos para a Igreja. Verdadeiro à instituição que serve, encontra uma solução que favorece apenas a própria, em detrimento de qualquer humanidade para com as suas vítimas.

Há que dizer que O Clube, vencedor do prémio do Grande Júri no Festival de Cinema de Berlim, não é um filme “parado e chato” para uma minoria, apesar de estar apenas a passar numa sala em Lisboa, o Monumental. A sua estrutura fundamenta-se bastante no cinema clássico, fazendo um brilhante uso do elemento catalisador num tempo perfeito – como é ideal o termo inciting incident – e a mise-en-scène é fenomenal em todos os níveis, com cenários despidos mas belos que são um personagem, uma cinematografia ímpar que consegue capturar a intermitência de luz interior ou a escuridão do espírito humano, um uso marcante da música por Carlos Cabezas e performances simplesmente assombrosas.

Poderoso e complexo, tão belo quanto lúgubre, este filme tem a grande virtude de nunca ser aquilo que esperamos.

Merecia, sem dúvida, ser exibido em maior escala.

 

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