Que mais podemos nós pedir?

O hipnotizante feitiço de Game of Thrones.


Na semana passada falei um pouco sobre a gloriosa tradição dos “nonos episódios” de Game of Thrones – de como estavam livres de grandes exigências narrativas e, como tal, podiam concentrar-se em simplesmente contar uma história muito bem. A semana passada foi, possivelmente, o melhor exemplo do poder desses episódios.

Por esta razão, os últimos capítulos de cada temporada de Game of Thrones têm de lidar exatamente com o problema inverso. Com tantas pontas soltas que tendem a abrir ao longo de nove episódios, estes atos finais consistem da colocação das peças no tabuleiro para o próximo “jogo”. Salvo alguns momentos épicos ou chocantes aqui e ali, são acima de tudo uma ferramenta para os escritores espicaçarem o interesse para o próximo ano.

E, até certo ponto, foi isso que tivemos este domingo com o muito esperado episódio final desta sexta temporada – um arrumar da mesa. Mas foi muito, muito mais – e com um toque extra de “badass”. Já vamos entrar nos detalhes do que aconteceu um pouco mais em baixo – nos recantos obscuros da Internet onde vivem os spoilers. Mas, para já, ocorre-me que este final cristalizou uma grande diferença entre esta e anteriores temporadas de Game of Thrones.

Pela primeira vez, os criadores da séries, David Benioff & D.B. Weiss, tiveram de trabalhar quase totalmente sem apoio dos livros de George R.R. Martin (reza a lenda que têm apenas umas noções vagas de para onde a história é suposto caminhar). Isto gerou uma clara viragem na série. Na caracterização das personagens, entenda-se, pouco mudou. Esse trabalho já tem raízes bastante sólidas e continua a formar a espinha dorsal da série. Mas onde a revolução aconteceu foi mesmo nas linhas narrativas.

Durante anos, a escrita de George R.R. Martin tem sido elogiada pela sua imprevisibilidade. Mais do que em qualquer outra obra, é virtualmente impossível prever o que vai acontecer a seguir e nenhuma personagem está imune à sua impiedosa guilhotina. Alguns acusam-no de niilismo e de escrever sem se ralar com o que vem a seguir, mas eu nunca concordei com essa leitura redutora. Como muitos outros, deixei-me hipnotizar por essa névoa de mistério.

Mas, agora que caminhamos para a reta final desta viagem, chegou a altura de focar a história. Nos livros, a construção de mundos novos pode continuar ad eternum e é essa mesma expansividade que os torna tão fascinantes. Mas há limites para essa estratégia na linguagem televisiva. A dado momento, queremos começar a desenhar conclusões. Queremos vislumbrar o confronto final. Foi isso o que esta temporada tão brilhantemente conseguiu. Depois de tantos anos a deixar-nos chafurdar neste admirável mundo novo, chegou a altura de prepararmos as nossas despedidas.

Antes de entrar em conversas de spoilers, uma última nota. Se é verdade que todos os anos temos uma divisão entre os apreciam a enormidade de informações a reter em cada episódio e os que acham que isso torna a série confusa, há uma queixa que une muitas pessoas – a ideia de que todas as temporadas anteriores foram melhores que a atual. A mesma queixa é repetida todos os anos: “ando aqui a apanhar secas todos os anos e depois lá me agarram eles outra vez com estes últimos episódios”. A essas pessoas digo apenas que deviam pensar um pouco sobre o porquê de esses últimos episódios vos emocionarem tanto. O “Red Wedding” não significaria nada se não tivéssemos dedicado alguns episódios a conhecer melhor Robb e Catelyn Stark. O triste fim do Viper só nos afeta porque sabíamos a fundo quem ele era. É assim que se faz o crescendo para os choques que nos prendem a Game of Thrones. É assim que se conta uma história.

 

 

E o que o mais se pode dizer deste episódio que… HOLY FUCKING SHIT! Caramba, que este finale teve de tudo um pouco. Cersei Lannister a eliminar todos os seus problemas (e adversários) com um singelo resfolegar de uma vela e a assumir finalmente o papel de Rainha Má que há tempo esperávamos – incluindo uma sequência inicial brilhante de que só uma série como Game of Thrones é capaz. Daenerys Targaryen a sair de vez das areias movediças de Meereen para cumprir o seu destino de conquistadora no outro lado do Narrow Sea – com Tyrion fielmente a seu lado e Varys a reunir importantes aliados para a batalha que se aproxima. E, claro, Jon Snow (agora com o seu passado um pouco menos misterioso) a largar as amarras do “filho bastardo largado a um canto” para se assumir, de vez, como o indisputável Rei do Norte. As três grandes peças do tabuleiro final estão em posição para o embate final. O Inverno chegou.

Mas há coisas importantes a não esquecer. Por um lado, o “joker” ambulante que vai ser Arya Stark, com as suas capacidades ilimitadas de disfarce e uma renovada sede de sangue. Por outro, os White Walkers e o seu líder, Night King, sempre prontos a estragar todos os melhores planos dos humanos – talvez a estadia de Samwell Tarly na Citadel de Oldtown possa vir a prestar uma preciosa ajuda. E isto sem esquecer Bran, o legítimo herdeiro do trono de Winterfell e, muito possivelmente, o ser mais poderoso em Westeros. Acima de tudo, nunca nos devemos esquecer dessa sombra negra que envolve todas as nossas fúteis previsões do futuro – o inesperado. Ou já se esqueceram que isto é o Game of Thrones?

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