O meu livro dava um filme

 

Uma crónica de livros que inspiram filmes… uma crónica de livros esquecidos na prateleira, mas que ainda não foram descobertos e engrandecidos pelo grande ecrã.

Estas crónicas serão sempre subjetivas e sujeitas a estas relações únicas criadas com os livros que a cronista lê, com a sua fantasia e com a sua perspetiva dos filmes que assiste.

Confesso que é sempre complicado selecionar um livro para esta crónica, mas por todas as razões e mais algumas, era obrigatório opinar sobre “Perfume, a história de um assassino”, um dos livros que mais me marcou, pela experiência olfativa que temos ao percorrer as suas páginas, bem como pela sua adaptação brilhante ao cinema.

Quem me conhece até sabe que tenho “nariz de perdigueira” e, como tal, um livro que desperta de uma forma tão crua e tão violenta este nosso sentido só me despertou uma curiosidade ainda mais atroz de ver o filme, quando este chegou às salas de cinema.

Como leitora compulsiva, a minha memória é mais fidedigna nos livros do que nos filmes e, como tal, antes de escrever esta crónica tive necessidade de rever o filme.

É espantoso que tanto no livro como no filme conseguimos sentir olfativamente todos os odores que são expressos ao longo da ação… terei sido apenas a única a sentir um nojo tremendo ao folhear as primeiras páginas do livro? Ou a desejar cheirar os aromas desenvolvidos… Com toda a certeza, muitos saíram da sala de cinema impregnados com cheiros de uma Paris imunda e nojenta.

O filme de 2007 de Tom Tykwer é uma adaptação de um romance do escritor alemão Patrick Süskind, publicado pela primeira vez em 1985.

A história situa-se no século XVIII, em Paris e conta a história de Jean-Baptiste Grenouille, que possui um olfato extraordinariamente desenvolvido, mas não tinha cheiro próprio. Este homem começa a assassinar jovens mulheres em busca de extrair uma essência perfeita e satisfazer seu estranho dom olfativo.

O filme conta com alguns atores de renome, tais como Dustin Hoffman e o já saudoso Alan Rickman. O personagem central da história, Jean-Baptiste Grenouille, foi interpretado pelo jovem Ben Whishaw.

A grande capacidade desta história, tanto no livro como na sua adaptação ao cinema, é passar para o leitor/espectador a sensação atribuída ao mais complexo dos sentidos – o olfato.

Um filme obrigatório de se ver onde todos os nossos sentidos e não apenas o olfato são invadidos por um misto de emoções entre ódio e amor por um protagonista psicopata.

A diferença imediata entre o livro e o filme é o fio condutor do enredo, ou seja, a motivação dos atos do Jean-Baptiste Grenouille.

o-perfume-patrick-suskind_MLB-F-2925429452_072012Enquanto na literatura Grenouille deseja alcançar um cheiro perfeito para si próprio, no cinema todas as ações do protagonista baseiam-se na vontade de armazenar os odores eternamente, criando assim o melhor perfume do mundo, mas sem um destinatário em específico.

O que deve ser retido, no entanto, é toda a mensagem por trás do que é literalmente mostrado. O objetivo principal do Jean-Baptiste não é apenas criar uma essência que transcendesse tudo o que havia de belo no mundo, mas sim a procura de tudo o que nunca teve: aceitação e amor, através de seus atos.

Uma história tão intensa e bizarra gerou uma adaptação à 7ªArte com críticas muito controversas.  Uma coisa é certa – foi um filme que marcou e a que ninguém ficou indiferente, pois houve quem o adorasse, mas também quem se desiludisse, principalmente com o final.

Agora que revi o filme e que a memória está fresquinha, ouso em dizer que não mudava nada neste filme… as personagens, o ambiente, o ritmo… enfim, uma história bem contada no grande ecrã, que nos permite inalar aquele odor que nos remete às várias sensações de nojo, luxúria, sexo, desejo e tantas outras.

Este filme mostra-nos a essência nua e crua do ser humano, a alma sendo traduzida por um perfume e podendo ser alcançada pelo olfato. Pois, segundo o autor, “o odor é a essência, e o que não tem essência não existe”.

Perfume não é um filme convencional, é cinema no seu melhor!

Facebook Comments

Leave a comment