À segunda é mais barato

 

Sou crítico, bastante crítico. Mas não de cinema. Mas é sobre isso que irei escrever neste espaço. Vão ser linhas que não respeitam os passos de Vogler nem as opiniões do Jorge Mourinha. Vão ser linhas em que as minhas opiniões se misturam com as emoções. Aquelas que um filme desperta no meu eu mais profundo. Numa camada abaixo do consciente, vá. Aquelas que me vão invadir a psique depois de comprar o meu bilhetinho e me enterrar confortavelmente na cadeira do cinema.

Quando Mr. Keating (salvé Robin Williams por este e todos os outros presentes que nos deste) entrou naquela sala da escola de Welton pela primeira vez para dar umas aulas de Inglês, percebi que o meu olhar para a vida não ia definitivamente ser o mesmo. A questão é que só aconteceu uns bons anos mais tarde.

Em resumo é isto, numa escola tradicionalmente tradicional (sim, o pleonasmo é propositado) há alguém que vem agitar a bandeirinha da irreverência. Só podia dar molho (eufemismo para a palavra ‘merda’, e mesmo que o MEC já a tenha usado com enorme eloquência, preferi não o fazer). E deu.

(break)

Tenho uma teoria que inventei durante um café expresso na mesa de uma esplanada, para aí a caminho do Castelo ou da Graça, já não me lembro. A teoria é esta: o impacto de um filme na vida de uma pessoa depende mais, na maioria das vezes, do dia e da hora em que se vê do que propriamente da sua qualidade, da sua estética ou do ‘índice de comercialismo na escala das bilheteiras’. E este, ladies and gentlemen, é um desses. Com um pequeno detalhe: para mim, é daqueles que não me importo de comentar à boca cheia ‘é pá, ganda filme’.

Isto apesar daquela câmara-lenta do pai do Neil Perry (Robert Sean Leonard – talvez mais conhecido por ser o Dr. James Wilson em Doctor House), quando a cena no escritório cheira pólvora nada seca. Mesmo apesar disso.

Perante este preâmbulo pouco tendencioso, admito que sempre que o vejo – no todo ou em partes, me deixa a pensar. E em certas alturas tenho mesmo de puxar de um ou outro lenço de papel para aliviar as alergias ao comodismo e ao status quo. Já o vi talvez umas duas mil e quinhentas vezes (só atrás do Notting Hill, que já devo ter visto umas três mil e, quem sabe, ficará para a próxima. É impossível ficar indiferente ao She do Elvis Costello, desculpem).

‘Suga o tutano da vida, pá’. A primeira vez que vi o Clube dos Poetas Mortos nada de tutano e nada de vida. Acho que teve em mim um efeito Ben-u-ron. Durou umas quatro horas e a dor de cabeça voltou logo a seguir. A vidinha lá continuou no carreiro e nada de pés em cima da mesa ou poesia reveladora. Provavelmente porque a minha maturidade para as coisas das ideias (e da vida no geral) fosse do tamanho de uma criação de nouvelle cuisine.

Acredito que me terei rido amareladamente da piadola ‘é pá poesia não é instalar canos’ ou ‘os poemas não se medem aos palmos’ (ok, esta é uma adaptação livre), mas não me lembro mesmo nada de ter rasgado páginas a livros como se não houvesse amanhã. Claro que pôr os pés em cima da mesa, daria provavelmente motivo para levar um par de estalos lá em casa e convenhamos que aquela coisa do carpe fucking diem seria óptima para dar os parabéns aos amigos no facebook (se existisse nessa altura), mas nada mais. Siga.

Acho mesmo que só alguns (bastantes) anos depois percebi a importância deste ‘Tratado de pensamento livre’. Nos dias seguintes e nos de hoje. Sim, é um filme com efeito a longo prazo. Filme tão simples e com tantos lugares-de-bom-senso-comuns que até chateia não pegar naquilo e levar logo à prática na esquina seguinte.

O argumento é classicamente certinho (há personagens redondas, conflito, desafio, o bem, o mal e o bufo, o irreverente,…), não tem pontas soltas, é correcto e acaba por ser francamente previsível em algumas partes. Mas, visto no momento certo, as mensagens do filme podem provocar (bons) danos colaterais e outros, na vida de quem o vê. Quando alguém te desafia a encontrar a tua própria voz, no meio de um mofo intelectual generalizado e aceite ou quando alguém acha que subir cima da mesa não é para se ficar mais alto do que os outros, mas para se conseguir ver as coisas noutra perspectiva, é impossível ficar sereno e completamente impávido a olhar para isto e não dar uma olhada no que andamos cá a fazer. O mais interessante disto tudo, é que não se vê uma ponta de moralismo. ‘Vai e estralhaça-te todo. Depois levantas-te e fazes outra vez’. Os miúdos, em início de carreira, estão óptimos, com destaque para Ethan Hawke (Todd Anderson), a verdadeira personificação do medo de fazer, do medo de se expor, do medo de arriscar, mas que nos reserva uma pequena surpresa-revolução no final.

Nesta homenagem à liberdade de pensamento, apostam-se as fichas todas na poesia (principalmente de Whitman), o verdadeiro veículo para ver para além da folha de excel. E nem mesmo um revés a meio da trama põe em causa a mensagem do professor Keating.  Há um ‘antes’ e um ‘depois’ de Keating. O divertido é que só vemos o ‘durante’.  Teve custos, como qualquer mudança, mas pela parte de espectador que me toca só posso dizer ‘Thanks Captain! My Captain! A escola de Welton nunca mais foi a mesma. Quer dizer, espero que não. Desde 1989 que não sei nada dela. Sobre o Clube, só posso só dizer que era um bom clube.

Duas notas muito finais.

Primeira – professores, se não souberem o que fazer num dia qualquer em que os putos andam com uma espécie de hiperactividade, não lhes dêem ritalina, ponham-nos a ver isto. Os do 12º anos e mesmo os universitários que bem precisam.

Segunda – se a vida te está a derrapar para a monotonia e para o mais do mesmo, vê isto o quanto antes. Agradeces-me depois, com uma cerveja ou um texto fantástico.

Mais uma vez, obrigado Robin Williams.

O Clube dos Poetas Mortos ganhou o Óscar para Melhor Argumento, mas acho que merecia também o Óscar para a melhor subida para cima de uma mesa da História do Cinema.

 

Título original: Dead Poets Society (EUA – 1989)
Realizador: Peter Weir
Argumento: Tom Schulman
Protagonistas: Robin Williams,  Robert Sean Leonard,  Ethan Hawke

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1 Comment

  • Miguel Teixeira
    On 13/07/2016 15:19 0Likes

    Assino por baixo e sem dúvida que é filme a ser visto por todos e não só os que de momento se dedicam aos estudos. Quem sabe tenha sido esta a arma secreta de Fernando Santos para motivar as nossas tropas. Quem sabe.

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