Uma espécie de carta de amor aos anos 80.


Este que vos escreve nasceu em 1976. Logo, a maior parte da minha infância acontece durante os anos 80. Se, por um lado, era uma época bem mais inocente, também havia alguma liberdade com quais podiam ser os meus brinquedos ou que coisas via na TV. Hoje tudo é mais “safe“, existem muito mais regras do que pode ou não ser um brinquedo. Certamente os desenhos animados não são sobre personagens que invariavelmente ou já perderam ou perdem a mãe.

Se, por um lado, a minha geração teve acesso às aventuras dos Goonies, do Indiana Jones, do Skywalker e afins, havia o outro lado da moeda. Ainda hoje existem filmes que nunca revi, porque na altura, apanhei alguns dos maiores “cagaços” da minha vida. “A Mosca” ou “Christine: O Carro Assassino” são dois bons exemplos. Desde então que o filme de terror não é a minha primeira opção. Suspense e terror tem que ser muito, mas muito bem feito e por isso sou muito mais selectivo. E a década de 80 foi eventualmente a era de ouro desse género de filme.

É aqui que entra a mais recente série da Netflix, “Stranger Things”, dos irmãos Matt e Ross Duffer. Quando decidiram fazer uma série sobre um monstro, inspiraram-se nos melhores.

imageNesta série a inspiração em filmes como “E.T.”, “Goonies”, “Stand By Me”, “Starman” ou “The Thing” são evidentes, mas feitas de uma maneira que transpira homenagem. Apesar de algumas críticas feitas a novos realizadores como Alejandro G. Iñárritu ou J.J. Abrams, a utilização de ideias, ou mesmo planos, baseados noutro material sempre existiu. Também o fizeram senhores como Scorsese ou Spielberg. O próprio Tarantino já veio a público dizer que mais de 50% do que fez são cópias de coisas de que é fã. O truque aqui é escolher bem os mestres. E depois fazê-lo bem. E os Duffer Brothers fizeram isso mesmo. A influência de mestres como John Carpenter, Stephen King e Steven Spielberg está presente em todos os frames. Até o poster da série, feito por Kyle Lambert, é baseado no mestre, Drew Struzan, que é o autor dos posters de todos os Star Wars, Indiana Jones’s, Regressos ao Futuro, Goonies e muitos mais.

Isto não quer dizer que a série seja datada. Está lá o feel da década, mas existe também uma maturidade visual e na utilização da banda sonora, que dá a entender que estes senhores sabem o que estão a fazer e podem trazer a qualidade do terror de Carpenter ao novo século. Pelo menos, espero que durem mais que o M. Night Shyamalan.

A história centra-se à volta de um grupo de quatro rapazes orgulhosamente geeks. Uma noite, depois de uma sessão de “Dungeons & Dragons” particularmente longa, os quatro seguem caminho para casa, mas Will (Noah Schnapp) faz um desvio pela floresta e tem um encontro com algo assustador que o persegue até casa. No dia seguinte, a mãe (Winona Ryder) e os seus três amigos chegam à conclusão que Will desapareceu.

Na pequena vila de Hawkins, onde nada acontece, este desaparecimento passa a ser o tema do dia. E apesar de uma primeira desconfiança do chefe da Polícia, Jim Hopper (David Harbour), é organizada uma busca pela floresta. Mas os outros três rapazes organizam a sua própria busca do seu amigo, nessa mesma noite. Mas quem acabam por encontrar é uma rapariga assustada que foge de uma organização aparentemente governamental. Os rapazes acolhem a rapariga que rapidamente descobrem que terá alguns poderes, mas acima de tudo, acredita saber onde está o Will.

Como já mencionei, a série está tecnicamente irrepreensível. A realização, fotografia, banda sonora, cenários e figurinos, tudo está perfeito. Mas, ainda assim, a estrela da companhia é o elenco. Winona Ryder está de volta, quiçá inspirada na década que a lançou nesta indústria e em que começou a destruir o coração dos seus fãs, estando eu incluido nesse grupo. Major crush alert!! Mas felizmente não está sozinha. Os três amigos de Will, Mike (Finn Wolfhard), Dustin (Gaten Matarazzo) e Lucas (Caleb McLaughlin) são um daqueles casos de perfeição de casting. A química e dinâmica destes três com a também surpreendente “Eleven” (Millie Bobby Brown) é algo absolutamente fantástico. Destaque ainda para Charlie Heaton (Jonathan, irmão do desaparecido Will), para Natalie Dyer (Nancy, irmã do Mike) e para o mau da fita (no que diz respeito a humanos), Dr. Brenner (Mathew Modine).

São apenas oito episódios que garanto que só vão parar se não tiverem tempo para os ver todos de uma vez. Sim, vou acabar com isto: Esta série pode lutar com House of Cards e Daredevil pelo trono de melhor série produzida pela Netflix.

TRAILER

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