Os Chavelhos do Batman

 

Não servem para nada mas se não existissem faziam falta, não faziam? É um bocado como certos filmes que querem ser bons mas que são só parvos. Peças tão curiosas que merecem ser alvo de uma crítica por vezes corrosiva, outras sarcástica e ainda outras tão medíocre como as próprias fitas que as inspiraram.

Esta rubrica é uma lotaria. Mas ao menos ninguém paga bilhete.

 

SINAIS  (2002)

de M. Night Shyamalan

A pergunta se existe ou não vida noutros planetas é algo que tem assombrado a humanidade ao longo de séculos. Paira sob as nossas cabeças como um pêndulo de incerteza e acaba por ser uma dúvida com a qual nos habituámos a conviver. Há quem diga que os aliens não só são reais como já por cá andaram, na maior parte das vezes de formas muito pouco subtis… Mas como quem diz isso normalmente cheira a pinga que se farta, tem poucos dentes nas gengivas e, podemos até dizer, “demasiado gelo no picolé”, não é coisa para levar a sério.

Felizmente, de tempos a tempos, aparece um filme que nos faz crer o contrário e continuar a duvidar. Não por causa do tema ou das teorias apresentadas, mas porque de facto há coisas tão incongruentes, tão bizarramente escritas, tão tantãs que não podem ter vindo deste mundo.

A ave rara que responde pelo nome de M. Night Shyamalan teve uma ascensão, digamos, meteórica na indústria. Com um primeiro grande êxito como “O Sexto Sentido” (1999), que inspirou toda uma geração de fitas com o seu final icónico, seguido por “O Protegido” (2000), que ninguém me convence que não é de longe o melhor dele, Shyamalan entrou numa espiral de patetice assombrosa e de fracassos de bilheteira que dura até aos dias de hoje. “Lady in the Water”, “The Happening”, “The Last Airbender”, “After Earth” e “Devil” (que apesar de não ter realizado meteu lá as patinhas até ao tutano) são algumas das peças mainstream com as escolhas mais ridículas que já viram a luz do dia… E isso, a avaliar pelo que Hollywood vomita todos os anos, é dizer bastante.

O mal também foi do público, há que dizê-lo.

Quando Shyamalan apareceu, qual génio dos twists, a deixar toda a gente de boca aberta estilo cardumes de abróteas nas salas de cinema, teceram-lhe os maiores elogios. Chegaram a chamar-lhe Spielberg e ele chegou a acreditar. O problema é que de Spielberg a Ed Wood foi um tirinho, como prova este “Sinais” que, apesar de ter sido um sucesso, foi para mim o início do fim (uma palavra apenas para “A Vila” que, ao contrário de muita gente, até gostei).

Ora bem, “Sinais” conta a história de um padre que decidiu “dar um tempo” por ter deixado de acreditar no Senhor. Tudo muito bem até percebermos que o tal reverendo é o bebedolas do Mel Gibson e que o mais certo é acreditar ser, ele próprio e em delírio, o Senhor. Gibson vive numa quinta com os dois filhos e com o irmão mais novo, uma família disfuncional mas que tem uma plantação de milho até perder de vista apesar de nunca vermos nenhum deles a vergar a mola.

O Joaquin Phoenix faz de irmão. Um jogador de baseball retirado que aparentemente não tinha muito jeito para a modalidade assim como não tem jeito para nada. Nunca o vemos senão com cara de parvo e/ou a tomar conta dos sobrinhos que são, por si só, um prato cheio de trissomia sob o efeito de valium. O puto, não fosse ele um Culkin, tem sempre um ar tão inexpressivo e robótico que parece que acabou de ser comido pelo Michael Jackson e não vê a hora de tomar um duche. Já a miúda tem uma pancada do tamanho do pinhal de Leiria e anda sempre a espalhar copos meios cheios de água pela casa porque diz que a mesma está contaminada. Portanto, família de sonho.

Tudo corre bem até aparecerem os malfadados extra-terrestres. Hominídios verdes com olhos esbugalhados à sapo, porque criatividade é com o Shyamalan, invadem o planeta e afiguram-se hostis. Numa altura em que esperamos que os adultos assumam o controlo e tranquilizem as crianças, apercebemo-nos que o Culkin rapidamente convence pai e tio de que correm todos grande perigo, porque é isso que está escrito num livro que ele lá tem com desenhos a lápis de cor e tudo. Na cena seguinte estão todos sentados no sofá a ver as notícias com chapéus feitos daquela folha de aluminío para embrulhar as sandes na cabeça. É muito deste tipo de estupidez que estamos a falar.

A dada altura, quando se apercebem que os aliens preparam o ataque final, Gibson e Phoenix decidem fazer algo inédito até então: trabalhar. Com a ajuda de tábuas e pregos, bloqueiam todas as entradas possíveis da casa porque aparentemente, e valha-me Deus se estou a mentir… “they seem to have trouble with pantry doors”.

* Suspiro *

Valerá a pena dizer ao Shyamalan que criaturas evoluídas o suficiente para viajar até ao planeta Terra e tomar conta disto tudo com mísseis, bombas e exércitos à mistura, em princípio… EM PRINCÍPIO não é nas portas de madeira que encontram a sua kryptonite?!

VALERÁ?!!!

NÃO?!!!

É que estes são mesmo os extraterrestres mais lerdos da História. Até o lobo mau numa fábula para crianças descobriu como deitar uma merda de uma casa de madeira abaixo mais depressa do que leva o Gibson berrar “Morte aos judeus!”. Mas não é só… Sabem o que é que mata estas bichezas? Qual a arma secreta que permite à raça humana reclamar novamente o que é seu por direito?

Água.

Sim, água.

É tipo ácido para eles. Como sal para as lesmas.

O que nos leva a questionar porque é que nenhum dos batráquios tirou cinco minutos para constatar que o planeta que se preparavam para atacar era COMPOSTO 70% POR ÁGUA!!!

Enfim, não há palavras para descrever este tipo de imbecilidade. A dada altura, o puto tem um ataque de asma e só se safa de ser devorado pelos invasores porque o Joaquin Phoenix começa a distribuir bordoada à base de taco de baseball pelos copos de água que a miúda espalhou pela sala nos dias anteriores. Também podia bater directamente nos bichos, que não parecem nada imunes à porrada dado que o seu QI não lhes permite comer um iogurte sem cagar a t-shirt toda, mas isso seria demasiado simples para o twist que é suposto acontecer nos derradeiros minutos.

Ficamos a saber que Phoenix pega no bastão para enfrentar os ETs não porque isso é tipo ÓBVIO mas sim porque a cunhada, anos antes e no momento da morte, disse que era isso que ele teria de fazer um dia. Uma espécie de profecia de pacotilha, vá. Ficamos também a saber que Gibson perdeu a fé em Deus porque viu a esposa a bater a bota enfaixada numa árvore até ás orelhas, vítima de um brutal acidente de viação. No desfecho do filme, lá se reconcilia com o Todo Poderoso porque afinal de contas ainda bem que tal aconteceu. Valeu mesmo a pena esfutricar a coluna da desgraçada e obrigá-la a esvair-se em agonia, caso contrário o bronco do irmão nunca saberia que tinha de fazer a única coisa que… poderia… mesmo… fazer…

Enfim, outro valente traque cinematográfico e narrativo que é quase tão absurdo quanto pretencioso. O Shyamalan usa e abusa dos efeitos estilísticos, dos movimentos de câmara e dos planos arrojados querendo gritar-nos na cara que é artsy em vez de contar uma história que realmente faça sentido.

É por isso que há quem ache que era boa ideia enviá-lo para Plutão.

E eu vejo-me tentado a concordar.

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1 Comment

  • Tobiansen
    On 21/07/2016 14:48 0Likes

    Bom artigo.
    No entando, acho bastante exagerado critiar os Aliens de este filme. Na minha (humilde) opinao, este filme nao é sobre Aliens nem muito menos sobre uma invasão de ET`s, se nao seria o indepence day 2 🙂
    Este filme é basicamente sobree a forma como a personagem de Gibson lida com a sua fé depois das tragedias da sua vida. Os ET sao uma simples ferramenta para contar essa historia. Se tivermos em conta que en nenhum momento aparecem naves espaciais ou armas de ET`s e muito menos uma invasao miliar de estes, podemos ver que os ET nao sao mais que uma alegoria para o arco transformativo da personagem de Mel Gibson. Inclusivemente existem Fan Theories que dizem que os ET sao na realidad demonios e nao seres de outro mundo. Deixo um link para um post sobre esta teoria: http://www.theimaginativeconservative.org/2014/10/aliens-demons-m-night-shyamalan-signs.html
    Os filmes do Shyamalan são todos alegorias e nada é o que parece.
    Continuem com o excelente trabalho de este site!

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