Crónicas de Tatooine

 

Gente e mais gente. Filas intermináveis de gente de todas as idades e feitios. Gente com idade para ter assistido à estreia em 1977 e gente que ainda nem tem idade para ter assistido ao Episódio 7. Há Stormtroopers, Guardas Imperiais, Jedis, Leias, muitas Reys, mas também há Jawas, dróides, Darth Vaders e Kylo Rens. Se dúvidas existissem ainda sobre a impressionante dimensão da história e do universo que George Lucas imaginou na década de 1970, a prova estava ali, na cosmopolita cidade de Londres, sempre impressionante pela amálgama de culturas e colorido muito especial de uma cidade que, à imagem de Nova Iorque, quase também nunca dorme. Deambulando pela capital do Reino Unido, era impossível não esbarrar aqui e ali em referências a esta saga de filmes, ora por merchandising à venda um pouco por todas as lojas, ora pelos próprios adereços que os fãs utilizavam orgulhosamente – t-shirts, máscaras, sabres de luz, sapatos…

No espaço da convenção, no Excel London, nos arredores de Londres, o cenário ganhava contornos ainda mais evidentes de que a cidade tinha sido ‘invadida’ por criaturas e seres de outra Galáxia, uma muito, muito distante. E ali estava eu. Com uma das minhas t-shirts favoritas de Star Wars, no meio de toda esta multidão.

Aos 32 anos estreei-me em eventos deste género. Nunca tinha ido a nenhum evento desta índole – nem mesmo às Comic Cons nacionais (shame, shame…) que agora começam a ganhar fama no nosso país. Mas este ano tinha de ser diferente. Em 2016, propus-me a ir atrás das coisas que me fazem feliz. Por isso, em janeiro, quando a segunda leva de bilhetes para a Star Wars Celebration foi colocada à venda, não hesitei. E foi das melhores coisas que já fiz. Seguiram-se seis longos meses de espera. Tudo isto para três dias apenas, três dias vividos intensamente, que passaram num abrir e fechar de olhos. E, contrariamente ao que cheguei a ironizar, não se tratava de um massivo armazém de t-shirts mas sim de um mundo de magia para todos os que amam Star Wars.

Por isso, no dia 14 de julho, às 7 da manhã, partimos para Londres, levando connosco quatro malas quase vazias, prontas a serem recheadas de coisas boas (Star Wars mas não só). Pequeno esforço que estas mini-férias implicariam: levantar todos os dias às 5 da manhã para estar no Excel London às 6h e receber as pulseiras que me iriam permitir ver os painéis do dia – no máximo dois painéis por dia. Teria sido interessante saber deste pormenor quando comprei os bilhetes, mas adiante…

 

Dia 1 – And so it begins

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Contrariamente ao esperado, não foi difícil conseguir as pulseiras para o palco Celebration nem encontrámos grande fila. O momento de espera até à abertura de portas só poderia ter sido mais épico se tivesse sido acompanhado de música. Aliás, houve um estranho silêncio em termos de banda sonora que um momento daqueles merecia. Pelo menos para os fãs. Mais importante que tudo, havia conseguido as pulseiras para os dois painéis que queria – aquele protagonizado pelo hilariante e exímio contador de histórias que dá pelo nome de Mark Hamill e para o tão esperado painel sobre Rogue One – A Star Wars Story, que estreia em dezembro.

Se a hora com o Mark Hamill passou a correr por entre risos e um discurso quase intimista do ator, já o painel de Rogue One teve alguns percalços. Ainda assim, arrisco-me a dizer que foi o melhor painel de toda a Celebration e por vários motivos. O principal: fizeram-nos sentir especiais. E não é isso que todo o fã quer? Para além de um reel especial sobre o filme, pudemos ouvir em primeira mão o que os atores e o que o realizador do filme tinham para nos contar sobre cada um dos personagens. Até mesmo aquilo que não era suposto (lamento, também não é aqui que o vão ficar a saber…) Spoilers à parte, ouvir o Gareth Edwards, um homem com ar de miúdo que parece estar a viver o sonho de criança, soube-me pela vida. Melhor ainda quando ele anunciou que cada um de nós iria receber o novo poster do filme (lembram-se da parte de nos fazerem sentir especiais?).

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Mas a pièce de resistance veio no fim. Quando todos já estávamos a desesperar por ver o tão aguardado trailer (a ABC anunciara uma semana antes que o iria transmitir), eis senão quando a “dona disto tudo”, Kathleen Kennedy, aparece em palco, sozinha, com um microfone. De ténis, como quem está preparada para correr todos os pavilhões de uma ponta à outra, Kathleen reforça que o que vamos ver é só para nós. Não quer telemóveis ou câmaras à vista. Aliás, os momentos em que o secretismo imperava era minuciosamente escrutinado pela segurança, que percorria diversos locais da sala. No topo, no cimo da bancada atrás de toda a gente, alguns olhos garantiam que o secretismo não era corrompido, bastando ver a luz do ecrã de qualquer telemóvel acender para rapidamente serem abordados…

A razão é simples. Kathleen quer que apreciemos o que vamos ver, sem outras distrações, mas, acima de tudo, não quer que nada se escape para a Internet. Quer, no fundo, preservar a surpresa e a mística que hoje em dia se foi perdendo. Por trás dela, víamos um cartaz vermelho simples: a Millennium Falcon com a frase “loose lips sink starships” e a palavra “confidential”. Seguiram-se 60 segundos de magia. Numa sala expectante e ansiosa, finalmente algo de novo que deixou os fãs ao rubro.

 

Dia 2 – A saga continua

Depressa são novamente 6 da manhã e começa o segundo dia. Mais cansados, escolheu-se o painel de Anthony Daniels, o querido C-3PO para os mais desatentos, e Rebels. Além destes, ainda tivemos oportunidade de ficar a conhecer a próxima série da LEGO Star Wars the Freemaker Adventures, uma variação mais infantil e sem uma conexão primordial com a cronologia principal da série que ainda não tem transmissão por Portugal. Ainda houve tempo para ver um painel da EA Games, com novidades fresquinhas sobre os jogos Battlefront e Galaxy Heroes. Dica para as próximas Celebrations: se não conseguirem pulseiras para determinado painel ou se já não puderem ter mais pulseiras, esperem que todos estejam sentados. Se existirem lugares vazios, existe uma fila de stand-by para dar oportunidade a todos.

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Anthony Daniels não desiludiu, numa engraçada troca de galhardetes com Wicket, o Ewok protagonizado por Warwick Davis. Houve tempo para piadas, para a leitura da comic sobre o C-3PO e para a reprodução de uma das cenas de A New Hope.

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O painel sobre a terceira temporada de Rebels foi igualmente emocionante e era o que mais esperava ver no sábado. O painel contou com dois dos atores que dão vida aos personagens Sabine e Darth Maul/Imperador e com Dave Filoni, o co-criador, que até já tem direito ao seu próprio cosplay.

Não tão positivo foi o facto de não ter podido assistir à segunda parte deste painel e aos dois primeiros episódios da próxima época (tudo o que gostava de ter visto, até porque a série só recomeça nos Estados Unidos no outono). Como tinha adquirido antecipadamente uma fotografia com a Carrie Fisher e que, por azar dos azares, calhou exatamente nesse horário, saí desolada da sala principal. Hora e meia depois da hora prevista, finalmente conseguia tirar a tão aguardada foto com uma lenda! Foi rápido (muito rápido) mas valeu a pena.

O destaque do dia foi para a sessão de cinema do Episódio VII com 4000 pessoas. Foi para lá de espetacular! De todos os aplausos e “woos” que se ouviram durante aquela sessão, aplaudimos tudo, desde a primeira vez que vemos Han Solo entrar no ecrã, ao plano em que vemos um pão a ser cozido. Épico!

 

Dia 3 – And so it ends

Ao cabo de três dias de longas ‘maratonas’, finalmente, o cansaço se apodera. Ao invés de chegar à Celebration às 6:20, como nos dois dias anteriores, desta feita – com alguns percalços de Uber à mistura – cheguei às 7:30. O suficiente para perceber que o painel principal, o de encerramento, já estava esgotado. Restou a pulseira para o streaming da cerimónia no espaço Galaxy, o que retirou um pouco de magia ao próprio painel. Por outro lado, a pulseira para o painel da irreverente e imprevisível Carrie Fisher estava disponível.

No painel daquela que ainda hoje é conhecida por Leia – e não se importa – houve mais atividade lúdica do que propriamente conversa profunda. Sendo pródiga em libertar informação supostamente secreta, Carrie não recebeu da parte de Warwick muitas questões relativas aos filmes ou filmagens da série atualmente em curso… A prova? Uma das poucas perguntas que fez sobre o futuro/passado de Star Wars valeu-nos um possível spoiler por parte da atriz (também não o vão saber aqui…). A estrela do painel: o Gary, o cão da Carrie Fisher que a acompanha para todo o lado.

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A cerimónia de encerramento vista no streaming do palco Galaxy foi bittersweet. Esta plateia era diametralmente diferente da que me tinha feito companhia na noite anterior. Aqui não havia aplausos ou risadas. Notava-se que os que estavam no palco secundário a observar tudo através de um ecrã não queriam estar aqui mas no palco principal. Apesar deste painel ter contado com os realizadores de todos os próximos filmes e com a chegada de convidados especiais como Mark Hamill, Carrie Fisher, John Boyega e Alden Ehrenreich (o novo Han Solo), foi um painel que soube a pouco. Não houve grandes revelações, apenas confirmações. Provavelmente, as minhas (nossas) expectativas é que estavam trocadas.

Se repetiria toda a experiência? Sem dúvida! Estou aqui a conter-me para não ir à próxima Celebration em Orlando. Saio de Londres com quatro malas recheadas, muito feliz e com um novo apreço por filas de espera.

 

Top 10 Star Wars Celebration 2016

 

O gato de Lothal, só porque é fofo.FS_top20-10

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FS_top20-09Ter o Anthony Daniels a dois passos de mim em pleno espaço ‘público’.

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FS_top20-08Gareth Edwards. Um miúdo no corpo de um realizador de 40 anos.

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FS_top20-07As t-shirts. A bonecada. Os livros. Uma perdição.

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FS_top20-06Conhecer e poder dar os parabéns ao Jeffrey Henderson (http://www.planethenderson.com/), fã de Star Wars e ilustrador. O Jeffrey ganhou um prémio pelo filme criado por ele e por uns amigos “The Sable Corsair”. É para lá de talentoso e muito simpático.

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FS_top20-05The Force Awakens. Por mais vezes que veja este filme (e já lhes perdi a conta), esta vez foi especial.

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FS_top20-04Mark Hamill: este homem é um senhor. Sozinho em palco, conseguiu agarrar toda a plateia com histórias e até com uma representação do Joker. Mais tarde, provavelmente contra o que a Lucasfilm desejaria, subiu ao palco onde se estava a realizar o livestream e encantou os fãs que por ali passavam. The Man!
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FS_top20-03Carrie Fisher. Conhecê-la, ainda que por breves 10 ou 20 segundos, foi maravilhoso.

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FS_top20-02Rogue One: o poster, a exposição e o trailer. E ainda falta tanto para Dezembro…

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FS_top20-01As pessoas. O ambiente de geekness que se viveu naqueles três dias em Londres é algo que não se consegue transmitir em palavras. São as pessoas que fazem e que fizeram de Star Wars aquilo que é hoje em dia. É uma pitada de loucura que faz deste universo uma saga tão especial.
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May the Force be with you!

PS: Bem-vindos às Crónicas de Tatooine e obrigada ao André por tão generoso convite.

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