Os Chavelhos do Batman

 

Não servem para nada mas se não existissem faziam falta, não faziam? É um bocado como certos filmes que querem ser bons mas que são só parvos. Peças tão curiosas que merecem ser alvo de uma crítica por vezes corrosiva, outras sarcástica e ainda outras tão medíocre como as próprias fitas que as inspiraram.

Esta rubrica é uma lotaria. Mas ao menos ninguém paga bilhete.

 

SUICIDE SQUAD  (2016)

de David Ayer

Este filme…

Ainda agora esteve em exibição e já a net anda entupida de vídeos, textos e sketches a arrasá-lo. Uma fita que foi tão promovida quanto aguardada, com trailers e trailers de uma espectacularidade tal que nos deixou a todos especados em frente aos monitores durante meses a fio. Parecia tudo perfeito: as piadas, a acção, a banda sonora, as personagens, a traseira da Harley Quinn… À medida que o tempo passava, parecíamos cães de fila prontos a abocanhar o naco assim que estreasse nos cinemas.

Até que lá estreou.

E os cães de fila ficaram de patas voltadas com valentes crises de figadeira.

É claro que eu me incluo nesse lote mas também sei reconhecer quando há algo que está muito bem feito. Botar abaixo é bonito sim senhor, tenho grande apreço por essa modalidade, como é sabido, mas também há que prestar o devido elogio… ao nome do filme. Sim, é mesmo o melhor desta bosta. E o melhor porque “Esquadrão Suicida”, mais do que sonante, mais do que memorável, revela-se tremendamente adequado. Aos primeiros quinze minutos já eu tinha fantasiado o dobro das maneiras de me matar para não ver nem mais um segundo daquela bambochata. É portanto deste tipo de desastre que estamos a falar.

É que à mulher de César não basta ser honesta. É preciso perceber alguma coisa de cinema, de comics ou simplesmente de como contar a porra de uma história! Mas vamos por partes…

Eu vou relatar as coisas como as percebi.

Não só porque assim tem mais graça mas também porque, para ser franco, houve segmentos consideráveis da narrativa que me passaram completamente ao lado. De repente, parecia que estava a ver um dos trabalhos mais obscuros de Bergman ou Lynch, cheio de cenas enigmáticas e sequências carregadas de intelectualidade. Mas logo a seguir dava de caras com o riso à Pinguim do Jared Leto e lembrava-me de onde estava.

Ora bem…

Aquilo começa logo a abrir com pessoas a explicarem-nos quem é que são outras pessoas. Ora, isso vem muitíssimo a propósito porque cedo percebemos que vamos querer fugir dali rápido, há que despachar a coisa e eles são mais que as mães. Claro que podemos alegar a regra clássica do cinema, a do show don’t tell, mas também cedo compreendemos que aquilo a que estamos a assistir pouco tem a ver com a nobre sétima arte. Portanto, há o Will Smith, que foi preso pelo Batman num daqueles becos que parece ter saído da cabeça do violador de Telheiras, há o El Diablo, que deita fogo das falangetas sempre que lhe apetece, há o Killer Croc, que, por ser uma espécie de osga, está numa cela especial com água pelos tornozelos e uma daquelas palmeiras de plástico que costumam estar nas tartarugueiras (ok, isto talvez não), há o Slipknot, que tem o mesmo nome que uma banda e, talvez por isso, leve logo com um tiro nos cornos, e há o Captain Boomerang que é… australiano.

Há também a já citada Harley Quinn que ficou avariada da casa das máquinas depois de ter mergulhado com o Joker para dentro de um tanque de nhanha, a Katana, que aparece mais tarde só porque também aparecia na banda desenhada, e o Rick Flag, que anda a comer uma bruxa com milhares de anos porque não teve melhor sorte no Tinder.

Ah! Convém dizer de antemão que, à excepção deste último que não sei bem se é polícia, militar ou lá o que é, todos são supervilões e muita velhacos, heim? HEIM?! É que tal como o filme nos mostra vezes e vezes sem conta, convém mesmo falar nisso porque de outra forma é complicado lá chegar.

Portanto, a bruxa que o outro anda a martelar estava a ser usada pelo governo ou pelos serviços secretos (sei lá, sinceramente estou-me a cagar) para sacar informação aos inimigos e tal. A dada altura, a gaja fica lelé da cuca e ataca um tipo qualquer numa casa de banho pública para o fazer encarnar o irmão que também é bruxo e estava preso num boneco cheio de pó. Este não é tão comedido quanto a mana e, porque por alguma razão tem uns braços compridos que fazem lembrar fios de esparguete, começa a matar pessoas e a destruir uma estação de metropolitano.

Até aqui tudo normal.

Posto isto, as mais altas patentes da segurança nacional só vêem uma coisa a fazer: ir buscar aquela cambada de gebos freakazóides de quem falávamos ainda há pouco e formar uma equipa talhada para o sucesso…

Enquanto eles se conhecem uns aos outros, estudam a missão e se preparam para intervir numa cidade em estado de sítio, somos frequentemente assaltados por flashbacks tão intrusivos quanto toques rectais operados pelo ET. A maioria deles tem a ver com o tal Joker do infeliz Leto, que foi aliciado para entrar no regabofe como um casapiano em véspera de Natal, de modo a enganar o público e a levar mais gente ao cinema. Viva a ganância e sabujice, senhores!

Este trinta e um tem um início auspicioso, principalmente se avaliarmos que não há qualquer tipo de estratégia, organização ou hierarquia. É tudo ao molho e fé em Deus contra uma espécie de quistos sebáceos ambulantes criados lá pelo bruxo a partir de pessoas comuns. Cada elemento do esquadrão tem uma coleira explosiva presa ao gorgomil de modo a não escapar e, talvez por causa disso, todos parecem muito comprometidos com o desafio de salvar o mundo. Todos menos o El Diablo que é latino, tal como o filme faz questão de nos lembrar de cinco em cinco minutos, e que apesar de se ter juntado à tropa fandanga insiste que os dias de violência já lá vão, que é um tipo mudado, muito mais calmo, comedido e yada yada. Isto até alguém insistir um bocadinho mais para vê-lo incinerar ao estilo Sónia Brazão um bom par de patamares dum edifício. Portanto, pacifista mas pouco.

A bruxa entretanto, e talvez por estar meio aborrecida sem nada para fazer enquanto o irmão do esparguete se diverte a cortar indivíduos ao meio e a transformá-los em batatas assadas com pernas, decide abrir um portal para… fazer aquilo que os maus costumam fazer com os portais. Seja o que for, há-de significar o fim do planeta tal como o conhecemos e isso é coisa que o nosso esquadrão favorito não pode permitir.

Depois de se juntarem num boteco qualquer para beber copos e decidirem que apesar de se conhecerem há um quarto de hora e de serem supostamente a escumalha da humanidade, amam-se verdadeiramente uns aos outros e agora são família, decidem ir dar um enxerto aos manos e fechar o raio do portal. Quando lá chegam, ficam tão desconcertados com as danças que a bruxa faz enquanto fala que o El Diablo (que é latino, atenção) até fica com o dobro do tamanho e com penas na cabeça por causa das tosses. A sério, a dada altura este piromaníaco transforma-se num gigante indígena sem explicação nenhuma para depois voltar ao normal, à espera que isso levante zero questões.

E, um bocado sem saber como, acaba por ser uma tipa cujo único poder é ser chanfrada da cornamenta, a Harley Quinn, a salvar o dia e a fazê-los voltar a todos para as celas de origem mais rápido do que levou a Viola Davis a querer tirar esta personagem do seu IMDB.

Uffff… Isto cansa.

Enfim, no final de contas safa-se a Margot Robbie, que é boa actriz e ainda melhor atrás, o Will Smith, que apesar de trucidar a carreira papel após papel não sabe como não ter charme, e um bocadinho do desgraçado do Leto, que podia ter sido um bom Joker se o papel não tivesse sido escrito por mentecaptos.

Há quem diga que a coisa até estava a ser feita de outra forma, porque o David Ayer, apesar de tudo, realizou um bom guião como é o do “Training Day” e portanto não é propriamente um pascácio que não sabe contar histórias. Há sobretudo quem diga que isto um dia chegou a ter uma visão mas que a DC e a Warner, à rasca com o feedback negativo do “Dawn of Justice” e de pau feito com o impacto do humor de “Deadpool” no público, decidiram regravar uma série de cenas e mudar substancialmente o rumo dos acontecimentos.

O resultado, tal como já aconteceu tantas vezes que estes burocratas acéfalos meteram as patas onde não devem, é cocó!

Cocó pútrido, pastoso e febril!

Nota-se assim tanto que não gostei do filme?

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