Bem-vindos à ilha dos desajustados

O Salteador do Filme Perdido

 

Nesta crónica vou vasculhar o baú das minhas memórias para encontrar aqueles filmes que nos passam ao lado por variadas razões e que mais tarde percebemos que estávamos a perder um belíssimo filme. Digamos que estarei a fazer serviço público. Pelo menos eu acho que sim.

As Vantagens de ser Invisível

Volta e meia, há filmes que nos apanham desprevenidos e nos surpreendem pela positiva. Este filme foi um desses casos. Vi-o porque tenho acompanhado com muito agrado o crescimento do Logan Lerman e porque pouco tempo antes tinha ficado absolutamente estupefacto com a performance do jovem Ezra Miller no incrível “Temos de Falar Sobre Kevin”. Acabei por ver um filme muito melhor do que estava à espera. E como acredito que muitas pessoas não tenham tido a mesma curiosidade, resgato este filme perdido esperando que vos faça ver esta excelente adaptação de 2012 do livro homónimo.

O trailer dá a entender que é mais um filme sobre a inadaptação de um jovem à sua nova escola, muito ao jeito do mestre John Hughes, mas o filme tem uma evolução inesperada que é quase como um murro no estômago. Daqueles que não esperamos e nos cortam a respiração. Este não é definitivamente mais um filme de High School.

Charlie (Logan Lerman) é um rapaz tímido, inteligente, apaixonado pela leitura, que nos descreve a sua experiência solitária de integração a uma nova realidade, através de uma série de cartas que escreve a um amigo desconhecido. O que parecia ser uma inevitável travessia no deserto, é de repente alterada quando conhece um grupo de alunos mais velhos que tem alguns parafusos a menos. Charlie torna-se amigo de Patrick (Ezra Miller) e da sua meia irmã Sam (Emma Watson) e é integrado no seu grupo de amigos.

Patrick é uma carta fora do baralho, atribulado por uma relação amorosa complicada, que usa uma boa dose de loucura como escudo contra os seus problemas. A frágil beleza de Sam contrasta com uma aparente defesa exterior, alimentada por uma baixa auto-estima que faz transparecer más experiências no passado. Toda a “bagagem” que cada um carrega acaba por ser a razão porque Charlie se sente tão bem com estes novos amigos. Na verdade, todos precisam uns dos outros.

O realizador e argumentista Stephen Chbosky (e autor do livro que é adaptado), esconde propositadamente o que está por trás da mente perturbada de Charlie e só perto do fim começa a desvendar o seu passado. E quando somos confrontados com a realidade, ficamos com a certeza que este não é mais um filme. E é uma pena que tenha passado tão despercebido ao grande público e até ao circuito de prémios.

Logan Lerman cada vez mais é um actor com A grande. A sua transformação ao longo do filme é fantástica. Ezra Miller é daqueles que não se explica. Aprecia-se e aplaude-se. E até Emma Watson consegue um muito sólido primeiro passo para se soltar da pesada herança de Hermione. Temos aqui uma bela amostra do que vai ser a próxima geração de grandes talentos do cinema. Ah. Seria injusto não dar também uma palavrinha à performance de Kate Walsh como mãe de Charlie. No mínimo, surpreendente.

Quem anda não viu, por favor trate disso e juntem-se à “island of misfit toys” ao som de “Heroes” do eterno Bowie.

 

Título original: The Perks of Being a Wallflower (EUA – 2012)
Realizador: Stephen Chbosky
Argumento:  Stephen Chbosky
Protagonistas: Logan Lerman,  Emma Watson,  Ezra Miller

 

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