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Louis C.K. regressou em força com a sua mais recente webserie, Horace and Pete.

É o melhor argumento do ano? Talvez. Mas o que faz desta série de 10 episódios um clássico instantâneo é maior do que 10 guiões brilhantes. É a mestria como o autor domina a indústria do entretenimento e fura constantemente a norma da comédia.

Horace and Pete é, até à data, o trabalho mais irreverente do génio de Louis C.K..

O primeiro episódio apareceu em Janeiro de 2016 no site do autor, sem aviso prévio, sem campanhas de comunicação, sem teasers nem trailers nem hype.

E tal qual uma bomba colocada em segredo, esta série detonou as fundações do formato comédia. Porque, como o próprio criador, argumentista e realizador afirma, Horace and Pete é uma tragicomédia. Talvez a primeira webserie tragicómica (se alguém conhecer outra, por favor avise-me. Quero ver!)

A série passa-se num bar centenário de Brooklyn, gerido por dois irmãos (e restante família disfuncional) de seu nome Horace (Louis C.K.) e Pete (Steve Buscemi), que lutam para manter viva a essência do estabelecimento numa Brooklyn infestada de hipsters. A narrativa centra-se nas relações humanas da família e no dia-a-dia das interacções com a clientela que, tal e qual como acontece em Cheers, fazem do bar a sua segunda casa.

Entre conversas sobre Donald Trump e Hillary Clinton, sobre racismo, amor ou saúde mental, a série convida-nos a perceber alguma da consciência colectiva dos nova-iorquinos (por si só uma espécie diferente na selva americana), enquanto desafia o espectador a fazer parte da narrativa. A realização assume uma lógica teatral, com longos planos fixos inteiramente dedicados aos diálogos e conversas paralelas dos clientes, levando o espectador a sentir-se sentado numa das mesas do bar a ouvir conversas alheias. Não há música no meio dos episódios. Não há efeitos sonoros. É cru e inovador na forma como rejeita todas as convenções da comédia americana. Ritmos, velocidade, duração, número de gags por hora, reliefs ou catch phrases são todos lançados borda fora. E que bom que é navegar em uncharted waters quando o capitão é Louis.

O desconforto inicial de ver one camera shots de vinte e tal minutos é absolutamente ultrapassado pelo elenco incrível, cujo talento transforma diálogos intensos e complexos em algo que o comum espectador televisivo consegue acompanhar. Não, a série não é só para intelectuais. Contudo, se estão à espera que a live audience se ria para vos dizer quais são as punchlines, esqueçam. Esta série não é para vocês.

Mas deixem-me regressar ao elenco. Meu Deus… Alan Alda, Jessica Lange e Steve Buscemi lideram uma ensemble na qual o próprio Louis C.K. consegue entrar, ainda que sempre no registo de playing himself. Há um episódio, acho que o sexto ou o sétimo, que é todo ele centrado numa das mesas do bar, onde Horace conversa com a sua ex-mulher. Uma conversa de 57 minutos, sem interrupções ou mudanças de camera. E é, sem dúvida, a melhor conversa que já vi em televisão.

A cereja no topo do bolo é a música do genérico, assinada por Paul Simon, que, em pouco mais de 60 segundos, consegue transportar-nos para uma realidade deprimida, onde tudo está bem porque podia estar muito pior. Tal qual a cabeça de Louis, que, felizmente, continua aberta para quem quiser entrar.

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