Nada de Novo

Filmes e séries que já deram, mas ainda têm muito para dar

Quando acabei de ver os 4 episódios de Olive Kitteridge sabia duas coisas:

Que tinha adorado o que acabara de ver.

E que não sabia bem porquê.

Não me interpretem mal. Não é uma série confusa nem completamente fora, que nos deixa aos papéis. Pelo contrário, é simples, muito bem escrita e, especialmente, muito bem interpretada. Mas é que não é óbvia. Obriga-nos a pensar e, arrisco dizer, sob pena de parecer foleiro ou lamechas, sentir.

Mas já lá vamos a isso do sentir. Primeiro, o que é que esta minissérie tem de especial para que ainda hoje fale dela?

Não é cool e moderna como Mr. Robot. Não tem a repetição incessante da expressão “mal parido” como Narcos, nem twists e sexo como Game of Thrones. Não é um elogio revivalista dos anos 80, cheio de criancinhas e monstros como Stranger Things, nem um delírio sanguinário como Fargo. Não tem a violência e a intensidade de uns Sopranos, The Wire ou Breaking Bad, nem a transcendência sobrenatural de Six Feet Under, apesar de ter um dos seus atores e mais umas coisinhas em comum.

Então, como é que se tornou, tal como todas estas, uma das minhas séries preferidas? Talvez por causa disso mesmo. Por não ser como nada que tivesse visto. Era mais como se estivesse a ler um livro.

Era poética, profunda, absolutamente triste, timidamente engraçada e muito, muito verdadeira.

Fala de depressão, de frustração, de paciência e de compromissos. Da relação com o nosso marido, com a nossa mulher, com o nosso filho e a nossa nora. Com os antigos namorados, com os nossos colegas de trabalho e com completos estranhos.

É sobre alguém chegar a um ponto na vida em que é obrigado a olhar para trás para ver como tomou decisões erradas. E, principalmente, como lida com essas decisões sem ter necessariamente de mudar de vida, como acontece tantas vezes na ficção americana. Não. Aqui a moral, se é que há uma, é: esta é a vida que temos. Deal with it. Ou não. Podes sempre tornar-te uma mulher ressabiada, fria como um cubo de gelo, que não se coíbe de dizer o que pensa, mesmo magoando quem a rodeia.

Frances McDormand é esta mulher, Olive, que dá o nome à série.

Está assombrosa e perfeita no papel de uma antiga professora que, nos segundos iniciais do primeiro episódio, se prepara para se suicidar.

Calma! Não é spoiler. É só o início, porra.

O que vemos nos 4 episódios seguintes é a retrospectiva dos 25 anos anteriores até chegar a esse momento. A sua vida numa pequena comunidade, cheia de personagens tão reais como surreais, com um marido impecável, que faz impecavelmente de contraponto à rudez de Olive, um filho que começa a afastar-se, um amor antigo que talvez não seja tão antigo assim e o resto que a vida vai trazendo.

olive-kitteredge

De cabeça, não me lembro de pontos-chave. Lembro-me de pensar que nunca mais me iria esquecer da interpretação da Frances. Lembro-me do excelente Richard Jenkins (o tal de Six Feet Under), como marido paciente, e da sua relação com a empregada da loja onde trabalha. Lembro-me da empregada da loja (Zoe Kazan, uma preferida dos nerds). Lembro-me de um excelente segundo episódio, cheio de pormenores deliciosos. Lembro-me de acidentes, de discussões, de flirts. Da vontade de ter um cão que me acompanhe a vida toda. E, claro, da entrada em cena de um ator de que toda a gente gosta, lá mais para a frente.

Não vale ir pesquisar, é mais fixe se for surpresa.

Lembro-me disso tudo e do que senti.

Vamos lá ao sentir, então. Sem exageros, é impossível ficarmos indiferentes à história. Fazemos paralelismos com a nossa vida, com o que queremos dela, com as dúvidas e as certezas que temos. E ao fazermos esse exercício, ao mexermos nas memórias e nas expectativas que possuímos, vamos sentir qualquer coisa.

É foleiro e lamechas? É. Mas é a vida. Tal como em Olive Kitteridge.

Deal with it.

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