À segunda é mais barato

 

Sou crítico, bastante crítico. Mas não de cinema. Mas é sobre isso que irei escrever neste espaço. Vão ser linhas que não respeitam os passos de Vogler nem as opiniões do Jorge Mourinha. Vão ser linhas em que as minhas opiniões se misturam com as emoções. Aquelas que um filme desperta no meu eu mais profundo. Numa camada abaixo do consciente, vá. Aquelas que me vão invadir a psique depois de comprar o meu bilhetinho e me enterrar confortavelmente na cadeira do cinema.

Lá fora pingos grossos batiam no vidro como se quisessem entrar à força para me roubar o chocolate quente acabado de preparar. No céu o azul tinha ido de férias, deixando um cinza escuro na frente dos seus destinos. Na lareira, a lenha seca estalava e convidava a reservar lugar no sofá. Era domingo à tarde, e as seis badaladas da torre da igreja que se via da janela denunciavam um quase noite.

Não foi bem isto, mas podia ter sido assim que vi pela primeira vez o Notting Hill (Roger Michell, 1999). O meu gosto por comédias românticas é inversamente proporcional ao meu gosto por chocolate. Na verdade, é pouco mais do que inexistente. Mas admito que me apaixonei por esta. Foi amor à primeira vista.

Imagine que tem uma livraria quase na falência em Notting Hill e que, de repente, lhe entra pela porta dentro a maior estrela de cinema daqueles tempos. E que, por um feliz acaso, essa estrela de cinema acaba a trocar de roupa no seu apartamento onde se passeia um amigo seu meio nu e com ar de quem não toma banho desde que o Vasco da Gama descobriu o caminho marítimo para a Índia. Imagine ainda que a coisa até se compõe e …. pronto, o resto pode imaginar. É ou não é, no mínimo, fofinho (e pouco credível, vá)?

Pois, é isso. Não sei bem porque gosto deste filme, mas gosto. Ponto.

Razões porque, provavelmente, me apaixonei pelo Notting Hill
(e já o ter visto sei lá quantas vezes)

  • A Julia Roberts (Anna Scott) – bem, a Julia Roberts é a Julia Roberts e isso já é um motivo mais do que suficiente, digo eu.
  • A Julia Roberts mais a banda sonora com a interpretação fantástica do She, pelo Elvis Costello a tornar a coisa ainda mais fofinha e a fazer crepitar o coração. Porque não?
  • Se calhar andava numa fase qualquer em que queria encontrar o amor numa livraria, entre os Maias e o Sei Lá. Sei lá, pouco provável ter sido isto.
  • A perseguição do Ronin das comédias românticas, quando o Hugh Grant (William Thacker) corre desenfreadamente para a conferência de imprensa para ir resgatar o amor.
  • Este pequeno diálogo já na altura do resgate do amor na conferência de imprensa:

PR Chief: Dominic… if you’d like to ask your question again?

Journalist: Yes. Anna, how long are you intending to stay here in Britain?

Anna Scott: [pause] Indefinitely.

É pá, acho que não, embora seja muito romântico e lamechas como o amor deve ser (isto foi só uma referência implícita aos da Weasel)

  • A livraria meio decadente, mas com instinto de sobrevivência onde a Julia Roberts (suspiro) dá um autógrafo arrogante a um tipo que queria roubar um livro. É simpático, roça o escorpiónico, mas talvez não seja isso.
  • A ideia utópica da estrela de cinema que entra nessa livraria, de pouco sucesso, em Notting Hill e acaba enrolada com o dono, também ele com o mesmo sucesso da sua livraria. Definitivamente, parece uma boa história para acompanhar a lareira e o chocolate quente. Pronto, pode-se acrescentar mais um ou dois biscoitos.

 

Se calhar não foi nenhum destes motivos ou então, foram todos juntos.

Notting Hill, é daqueles filmes que se acha graça e entre as gargalhadas suaves, se pode deitar uma lagriminha (não muito grande, mas dá para o gasto).

A trama é clássica. Rapaz conhece rapariga (por acaso). Não sabe quem ela é. Ela acha isso divertido. Dá de caras com o amigo aluado. Vem o namorado dela que é uma besta. Rapariga parece que já não acha tanta graça, mas fica ali entre o vai-e-não-vai. Rapaz deprime ligeiramente. Amigos ajudam à coisa (e o argumento também). Parece impossível o rapaz chegar lá, mas chega. Ele fala como se fosse alguém que não ele. A rapariga responde. Todos percebem. E o amor acontece (pronto, esse é outro filme, mas já não é bem a minha praia).

Julia Roberts parece ser ela própria neste filme. Sem grandes esforços. Hugh Grant sempre igual em todos os filmes (anda não vi este último com a Meryl Streep). A sucessão de eventos é calculada e faz sempre sentido, com uma ou outra ajudazinha, o que também não é de estranhar. Em tempos também me disseram que a vida nem sempre faz sentido, mas a ficção tem de fazer. E este é um filme cheio disso. Está tudo encaixado. Diverte, aquece um pouco o coração e dá para ouvir uma boa banda sonora.

Notting Hill ganhou alguns Golden Globes e outros prémios, mas para mim merecia um Óscar para a melhor quase-perseguição-parecida-com-a-do-Ronin numa comédia romântica.

 

Título original: Notting Hill (GBR, EUA – 1999)
Realizador: Roger Michell
Argumento: Richard Curtis
Protagonistas: Hugh Grant,  Julia Roberts,  Richard McCabe

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