Ele Está de Volta

Filmes com História


Para estrear a crónica Filmes com História escolhi uma peça recente, polémica e, até onde eu sei, pouco conhecida do cinema alemão. Não é exatamente uma narrativa histórica, mas toca num tema muito importante, que é a nossa relação com o passado. Além de ser um assunto complicado e muitas vezes desconfortável, o passado também tem o péssimo hábito de ser, frequentemente, relevante para discussões do presente, o que torna a tarefa de ignorá-lo bastante árdua. Mas se temos de lidar com o passado, nada melhor do que usar uma dose saudável de humor para amenizar o desconforto.

Que o Netflix tem lá as suas vantagens, disso já não há dúvida há muito tempo. A facilidade de acesso ao conteúdo e qualidade (de alguns) dos seus exclusivos são um dos principais motivos pelo qual o serviço cresceu e ganhou tantos subscritores. Porém uma das vantagens menos mencionadas e raramente levada em conta é a possibilidade de aceder a conteúdos que embora não sejam exclusivos do Netflix, seriam de outra maneira de difícil acesso. Esse é o caso da comédia alemã Ele está de volta, que apesar da sua campanha ter tido alguma visibilidade no Youtube, nunca chegou a estrear internacionalmente nas grandes redes de cinema.

O filme é de facto uma surpresa positiva para aqueles que correram o risco de assistir uma comédia cuja premissa central envolve Adolf Hitler. Mais do que qualquer outra figura histórica, pelo menos no ocidente, Hitler conseguiu tornar-se a representação, às vezes tenebrosa e às vezes caricata, do mal encarnado, e embora o portfolio da humanidade não tenha escassez de ditadores sanguinários, genocidas e conquistadores violentos, nenhum deles é considerado tão unanimemente ‘mau’ como o Führer. É surpreendente que alguém tenha pensado que Hitler fosse um bom objeto central de um filme de humor. Talvez o mais surpreendente é que o filme seja de facto uma boa comédia, considerando que os alemães não são exatamente famosos pelo seu senso de humor. Mas para aqueles que conseguem superar a barreira de assistir a uma comédia alemã centrada na premissa de Adolf Hitler, emergindo em pleno século XXI, e que perseveram através dos primeiros vinte minutos de uma narrativa estranha e sem jeito, fica uma experiência no mínimo interessante.

Quanto ao elenco, não há dúvidas que a atuação de Oliver Masucci como Hitler esteve excelente, considerando as dificuldades que vêm com um papel tão complexo. Sem enaltecimentos desnecessários e sem o nível de chacota a que muitos recorrem para ‘suavizar’ um personagem tão sombrio, não há dúvidas de que o Führer carrega o filme às costas. Especialmente quando o segundo protagonista e o coadjuvante com maior tempo de tela ficam muito aquém da performance de Oliver. Mas apesar disso, são as pequenas aparições que realmente fazem o filme brilhar, o que contribui, e muito, para o efeito de que a segunda metade do filme pareça muito melhor que a primeira.

Como comédia, Ele está de Volta não desaponta. Depois de um início desajeitado, o humor do filme vai progressivamente se tornando mais cativante e por vezes mais ácido, com algumas referências pontuais e situações que são tão próximas do nosso dia-a-dia que parecem quase íntimas. Não é à toa. Além de uma boa comédia, o filme tem outra característica rara. Assim como o filme Borat, Ele está de Volta traz uma mistura de realidade à ficção, utilizando muitas vezes pessoas que não são parte do elenco, nem estão informadas sobre o que se está a passar, no melhor estilo ‘prank’, para mostrar snapshots da realidade, da cultura e da mentalidade alemã. Sem fazer discursos e pregações, sem grandes e explícitas mensagens, o filme elabora eloquentemente temas como o racismo, a imigração e outros tópicos polémicos, quase como um documentário. Mas em vez de um especialista contextualizando cada set de imagens, como um típico documentário normalmente faria, temos o roteiro do filme em si emergindo nesses intervalos, seguindo uma narrativa mais tradicional. E poucos filmes podem ser considerados, ao mesmo tempo, legitimamente engraçados, culturalmente relevantes e ainda assim, ou por causa disso, um bocado assustadores.

Que os alemães têm uma relação complicada com o seu passado histórico, disso não há dúvidas. A verdade é que todos temos; É difícil estabelecer regras claras de quanto somos responsáveis por aquilo que foi feito por aqueles que vieram antes de nós. Mas no caso da Alemanha e Adolf Hitler, estamos a falar de história recente. Numa escala histórica, 1933-1945, não estão muito mais longe do que a semana passada. E enquanto eu acredito que a rejeição ao Nazismo é, sem dúvida, forte no povo alemão, Ele está de Volta mostra que talvez haja mais por baixo da superfície. Talvez não só a Alemanha, mas também muitos outros países do mundo, estejam mais perto dos sentimentos que levaram o Führer ao poder em 1933, e o sustentaram lá até o final da Segunda Guerra Mundial, do que gostaríamos de admitir. E qualquer obra que consiga trazer uma reflexão sobre um tema sombrio como esse, embalada em algo fácil de digerir, como uma comédia, merece alguma atenção.

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