Fotogramas de memória

Vi há pouco tempo uma “projecção” televisiva do velho filme “Mudar de vida”, do início da carreira de Paulo Rocha, estreado nos idos de 1967.

Sobre o filme, padecendo da irremediável privação de meios a que estava condenado o cinema “marginal” e que é evidente em todo o decorrer da história, não me atreverei a tecer comentários críticos.

Já o título, esse sim, sugere-me várias considerações… mais, ou menos bem tecidas.

Dando de barato o que o país mudou desde o fim dos anos 60 (a época da acção), mudança que é evidente sobretudo para quem, como eu, viveu aquela realidade que sim!, era a “preto e branco”, ou sobretudo “cinzenta”, o mais das vezes… começo pela evidente “mudança de vida” que o filme proporcionou a vários daqueles e daquelas que nele participaram, ora como seus criadores, ora como técnicos, ora como actores e actrizes.

Maria Barroso, por causa deste filme (e outros como este) foi forçada a mudar de vida, tendo que abandonar a profissão de actriz, por imposição do regime fascista.

O realizador Paulo Rocha viu a vida mudada com a confirmação da sua capacidade e arte para conceber e realizar filmes.

A então muito jovem (e tão bonita!) Isabel Ruth, dava os primeiros passos para mudar de vida e ter uma longa carreira de sucesso como actriz de topo.

Na escrita dos diálogos, tínhamos António Reis, um poeta e quase estreante nestas coisas dos filmes, que viria a ser um dos grandes do nosso cinema.

O mesmo aconteceu com Alfredo Tropa, aqui responsável pelo “som directo”, mas que se deve ter deixado infectar pelo bicho do cinema, doença de que nunca mais recuperou.

E, voando sobre toda a restante ficha técnica… chegamos ao Carlos Paredes, autor e executante da música do filme.

Está no seu elemento, compondo quase, ou mesmo de absoluto improviso, sobre as imagens, como era a sua declarada preferência… criando um discurso dramático com uma profundidade e qualidade expressiva que o próprio filme só raramente consegue.

É aquele som, é aquela maneira de fazer e, sobretudo, de estar na música, que mais justifica o título “Mudar de vida”. É aquele voo da guitarra de Coimbra, que nos leva até a um futuro que, então, apenas se sonhava e se fazia por conquistar. Na verdade, o exemplo do Carlos Paredes, tanto artístico como cívico, contribuiu para mudar, definitivamente e pelos menos, uma vida. A minha!


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