Os Chavelhos do Batman

 

Não servem para nada mas se não existissem faziam falta, não faziam? É um bocado como certos filmes que querem ser bons mas que são só parvos. Peças tão curiosas que merecem ser alvo de uma crítica por vezes corrosiva, outras sarcástica e ainda outras tão medíocre como as próprias fitas que as inspiraram.

Esta rubrica é uma lotaria. Mas ao menos ninguém paga bilhete.

 

PLANET OF THE APES  (2001)

de Tim Burton

Eu sou aquilo a que se pode chamar “um apreciador de macacos”.

Gosto deles. Não têm o melhor dos odores, é verdade, mas assemelham-se o suficiente a humanos para serem alvos de carinho, ternura e, não poucas vezes, de um lugar especial no coração dos seus tratadores e estudiosos. Isto ao contrário das pêgas das sapateiras que estão bem é a escaldar numa panela infernal, enquanto abrimos garrafinhas de Gazela para refrescar a glote. Há filhos e enteados nisto das relações com os outros animais…

E por falar em animais, podemos dizer que o Tim Burton conheceu o princípio do declínio nesta miserável macacada. Um homem que tinha tanto de talento como o pequenito Saúl de trissomia, com um início de carreira auspicioso com títulos como “Beetlejuice”, “Batman”, “Edward Scissorhands”, “Batman Returns” e “Ed Wood” (só para referir alguns) e que caiu numa espiral de recauchutagens desinspiradas que parece não ter fim. Ele chegou a referir que este “Planet of the Apes” não pretendia ser um remake do anterior. E isso acaba por ser uma coisa boa, porque se tivesse sido essa a intenção era apenas comparável a ver o casting do Stephen Hawking para o papel principal no biopic do Usain Bolt. Profundamente constrangedor.

A verdade é que o filme de 68 era mesmo um bom filme.

Ok, tinha o maluquinho do Charlton Heston como protagonista (ele que também entra neste, agora vestido de macaco, num dos cameos mais desnecessários de sempre) mas, what the hell, não querendo ser muito mais do que aquilo que prometia à partida, entreteve, levantou questões e é ainda recordado nos dias de hoje como o ponto de partida para muitos outros títulos e para uma série de punchlines que ficaram para a História.

Porém, como não é de clássicos que estamos a falar mas sim de bosta, prossigamos então com aquilo que interessa…

O “Planet of the Apes” de Burton passa-se em 2029. Isto só para situar. Nessa altura, parece que a robótica não deu em nada, foi apenas uma enorme perda de tempo, e o que está a dar é treinar macaquedo para desempenhar tarefas demasiado perigosas para arriscar vidas humanas. Portanto, bastava isto para que o guião voltasse à procedência mais depressa do que os filhos do Brad e da Angelina agora depois do divórcio, mas ainda assim resolveram insistir… O filme começa com um chimpanzé a realizar uma alunagem num simulador e, talvez dada a ausência de bananas como incentivo, a espetar-se logo a seguir, mostrando a sua clara inaptidão para tudo o que não seja balançar-se num pneu. O Mark Wahlberg, porque não havia ainda más notícias suficientes, tem o papel principal nesta farsa e é o astronauta encarregado de treinar o símio incompetente. Uma palavra para Wahlberg que, uma vez mais, comete a proeza de passar duas horas inteiras sem esboçar uma única expressão humana. Há quem diga que o canastrão só entra em filmes porque ganhou guita para investir com o rap mas eu vejo o copo meio cheio. Um afastamento desta natureza à mais subtil referência de humanidade só ele e algumas espécies de lula conseguem. É espantoso.

Ora, estão todos numa nave espacial a… fazer aquilo que todos fazem em filmes passados no “futuro”. Portanto, coisas futuristas. E para realizarem essas tais coisas, como já anunciado previamente, estão bastante interessados não só em reproduzir primatas em pleno espaço mas também em desenvolver as suas capacidades psíquicas e motoras. Uma vez mais, convém recordar: robótica = lixo, super-macacos = futuro. Faz ou não faz sentido?

A dada altura, a malta depara-se com uma tempestade electromagnética (porque Deus sabe que tem de aparecer sempre uma neste tipo de fitas para haver merda) e, espertos que nem alhos, as altas patentes mandam logo avançar um dos bichos por causa das tosses. Tal medida, além de profundamente tantã pode também ser questionável no domínio da lógica. Não se entende ao certo com que intenção vai o raio do macaco numa cápsula espacial para o meio da tempestade, mas aparentemente ninguém na nave sabe fazer inversão de marcha.

Quando parece que não é possível ser-se ainda mais estúpido qual é o animal que os génios escolhem para tão arriscada missão? Aquele que ainda há sete minutos fez borrada no simulador e parece muito mais apto a esfregar a própria merda no focinho do que a conduzir qualquer tipo de veículo.

O símio segue para o meio da borrasca espacial e desaparece mais depressa do que leva o Paco Bandeira a pregar uma pêra à namorada. Big fucking surprise!

Aflito, Wahlberg aproveita que todos os cientistas e astronautas estão a olhar lá para fora com cara de parvos e enfia-se, ele próprio, numa cápsula para ir atrás do amigo. No entanto, não só fracassa na tarefa como também é apanhado pelo magnetismo da coisa e projetado, com bastante violência, para aquele pântano lodoso onde vive o Yoda. Sempre sem abrir um pouco mais os olhos ou mexer os cantos da boca, o ex-Marky Mark depara-se com um bando de humanos primitivos que fogem de um exército de primatas com chapéus em bico. Aqui, verdade seja dita, podemos admirar o quão bem feita está a caracterização e digo-o sem ponta de ironia. Nesse aspecto, está a anos luz do original mas… o problema é muito simples. Eu se quiser ver macacos vou ao Jardim Zoológico, vejo um documentário sobre vida selvagem ou visito a margem sul*. Isto é um filme e, como é sabido, deverá ter outro tipo de atractivos que este declaradamente não tem. Estamos entendidos? Vá lá ver…

Wahlberg é capturado e levado numa carroça juntamente com os outros australopitecos. Entre estes, destaca-se uma rapariga (chamo-lhe assim porque, à partida, este filme matou qualquer esperança de que o seu nome viesse a interessar para alguma coisa) cuja particularidade mais evidente, a par de ter um cabelo muitíssimo bem tratado para quem vive no mato, é conseguir manter os dentes todos dentro da boca. Não deve muito à beleza mas é loira e tem olhos azuis e isso em Hollywood muitas vezes é ligação directa para ser actriz. A pouco e pouco, somos apresentados ao restante cast desta cobóiada símia. Helena Bonham Carter faz de Ari, uma macaca com laivos de bloquista que defende muitíssimo a igualdade entre as raças e tal e tal. Eu sei que Tim Burton é sinónimo de Bonham Carter como cabeça de cartaz, num claro favorecimento matrimonial protagonizado entre nós pelo Camilo de Oliveira e mulher, mas a verdade é que esta foi a fita que deu início a tudo isso. Freud talvez explicasse porque é que Burton se apaixonou por alguém vestido de macaco mas não temos mesmo tempo para especular.

Há também Tim Roth como General Thade, o vilão lá do sítio. Sobre ele, apenas dizer que o que falta a Wahlberg em termos de expressividade, sobra-lhe às postas sempre que abre o focinho para dizer uma fala por pequena que seja. Alguns podem acusá-lo de overacting mas eu acho que é muito mais do que isso. Chega a parecer micose no escroto, a avaliar pelo rebolar de olhos e palhaçada gestual. Um mimo.

A dada altura, o super-apático Wahlberg lá consegue libertar-se da gaiola onde o enfiaram e conduz os piolhosos todos de volta à mata, à procura da cápsula em que se despenhou. De caminho ainda tem tempo para agarrar a Bonham Carter, que mal consegue esconder a desilusão de ainda há dois anos ter desempenhado um dos papéis mais interessantes da sua carreira em “Fight Club” e agora ver-se mascarada de macaca, lutando para conservar o mínimo de dignidade.

Como o discurso já vai longo e a narrativa não vale um caracol, vou então resumir ao essencial…

Os fugitivos decidem reunir todos os humanos restantes, que não passam de um bando de tribais cheios de sarro nas unhas mas falantes de um inglês perfeito, e levá-los para uma espécie de lugar sagrado lá deles. Esse lugar é, nada mais nada menos do que a estação espacial em que tudo começou e que entretanto se espetou naquele planeta há milhares de anos ou lá o que é. Viagens no tempo e tal… Aceitem que é melhor e isto acaba num instante.

Wahlberg tenta contactar a mesma base espacial no passado, fazendo da localização uma espécie de rendezvous para o irem buscar mas são atacados pela tropa macaca e por um Tim Roth cada vez mais espumoso das gengivas a querer aniquilar tudo o que é bicho homem. De repente, há um clarão no céu e aparece o chimpanzé que se perdeu na tempestade e que, de certa forma, deu origem a este fungagá todo. O Wahlberg agradece à malta, espeta um chocho à Bonham Carter, adicionando o bestialismo às coisas repugnantes deste filme e vai-se embora que se faz tarde. Nos finalmentes, ainda tem tempo para aterrar em Washington e constatar que a famosa estátua do Abe Lincoln tem cara de macaco, num twist que ninguém percebeu.

E… pronto, é isto.
Desnecessário, frívolo e, a todos os níveis, absurdo.

Um exemplo flagrante do clássico “se está bom, não mexas” e uma mancha no currículo de um punhado de bons actores, à excepção do matreco do Mark Wahlberg.

Dos poucos a quem não foi espetada uma máscara de macaco e, curiosamente, aquele que mais a merecia.

Enfim…

* ATENÇÃO! Esta piada não é de todo racial. Não sou nenhuma besta, apenas ofensivo para com os moradores da margem sul.

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