O drama feminino pelo olhar de Almodôvar.


Título original: Julieta (2016)
Realizador: Pedro Almodóvar
Actores: Adriana Ugarte, Rossy de Palma, Michelle Jenner

Antes de expressar a minha opinião sobre o filme “Julieta”, admito que sou fã do realizador Pedro Almodôvar e, como tal, sempre que este nos presenteia com mais um filme, a minha expetativa é sempre elevada. Confesso que já saí da sala de cinema zangada com o Almodôvar, por achar que nem sempre correspondeu ao patamar de exigência que lhe atribuo. Não foi de todo o caso de “Julieta”, onde estão lá os temas de sempre e a envolvência dramática a que nos habituou.

A história centra-se numa mulher de meia idade, Julieta (Emma Suárez/Adriana Ugarte) que vive em Madrid e está a tratar da sua mudança para viver com o namorado (Dario Grandinetti) em Portugal. No entanto, um encontro fortuito com uma antiga amiga da sua filha Antia (Blanca Parés), faz Julieta mudar os seus planos. Permanece em Madrid, indo morar para o antigo prédio em que vivia e começa a escrever uma carta para a sua filha relembrando o passado entre as duas.

Sem querer revelar muito mais da história para que possam viver e descobrir este universo explosivamente feminino e de maternidade em que o Almodôvar nos atrai a entrar, “Julieta” é um filme que aborda a culpa, os remorsos e o amor. Foca a passagem do tempo e o peso do passado no nosso presente e futuro. A dor está muito presente no filme, a dor de uma mãe, a dor de uma mulher, a dor da impotência de fazer o luto de alguém que amamos, a dor da rejeição, a dor da incompreensão, a dor da ausência.

Para mim, um filme fascinante, mas que nos incomoda pela intensidade com que “Julieta” aborda a dor ao longo do drama, com duas interpretações soberbas, de Emma Suarez e Adriana Ugarte, para os dois tempos de Julieta.

“Julieta” tem todos os ingredientes que marcam os filmes de Almodôvar. O retrato do protagonismo feminino, mas desta vez uma protagonista frágil e muito humana. A omnipresente Rossy de Palma, que neste filme representa uma caricata empregada doméstica. As tradicionais cores que vão dinamizando o ecrã contrastando com o silêncio representativo do vazio na vida da sua protagonista. Não poderia terminar esta crítica sem falar da música final “Si no te vas”, que nos acorda os sentidos, sem deixar espaço para levezas e sorrisos e nos traz de volta ao nosso mundo real.

Almodôvar, afinal, continua no seu melhor! Se gostam do género não percam de todo este filme.

Almodôvar baseou o argumento em contos da canadiana vencedora do Nobel da Literatura Alice Munro.

 

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