Uma nova realidade criada de raiz.


Existem dois grandes tipos de ficção científica – com características muito distintas mas ambas com o seu valor. Uma usa tecnologia (existente ou não) como cenário para o contar de todo o tipo de histórias, tanto trágicas como cómicas – muitas vezes aventuras de cariz épico. O outro tipo de ficção científica usa as suas ferramentas ficcionais para refletir sobre o passado, o presente e o futuro da Humanidade. Navega pela inovação tecnológica como forma de estudar não apenas as evoluções mecânicas mas também filosóficas. “Westworld” enquadra-se claramente nesta segunda vertente.

Com dois episódios já transmitidos, certas coisas são óbvias. No que a puros valores de produção diz respeito, a nova série da HBO simplesmente joga noutro campeonato. Nem é uma questão de ser muito bom “para televisão” – a nível técnico, “Westworld” podia perfeitamente ser considerado a um Óscar. Mas há muito mais que “apenas” a incrível tapeçaria visual deste “falso western” criado de raiz num “falso futuro”.

A simbiose entre diálogos impecavelmente tecidos e performances subtis mas poderosas não deveria surpreender quem estivesse a par do “pedigree” por trás deste ambicioso projeto. De um lado, temos os criadores Jonathan Nolan e Lisa Joy, uma equipa que já colaborou muitas vezes para ajudar Christopher Nolan (irmão de Jonathan) a criar alguns dos argumentos mais brilhantes dos últimos anos do cinema. Também ajuda ter J. J. Abrams a assistir no lado da produção.

Do outro lado, temos um elenco que invejaria muitas grandes produções de Hollywood, encabeçado por nomes como Evan Rachel Wood (uma excelente atriz que, espera-se, terá finalmente o destaque que merece), Ed Harris (misterioso, complexo e tão cativante que custa desviar o olhar), James Marsden (a brincar subtilmente com a sua própria imagem de galã) e, claro, Anthony Hopkins, um homem capaz de encaixar toda a tensão dramática de uma peça de Shakespeare  num simples olhar para o deserto virtual que ajudou a criar. Se considerarmos que ainda temos nomes como Thandie Newton, Jeffrey Wright ou Sidse Babett Knudsen (de “Borgen”), entre muitos, muitos outros, podemos começar a perceber o calibre desta série.

Mas tudo isto que disse até agora não é mais que uma listagem das razões porque esta série é muito boa. O que me interessa mais em “Westworld” é quanto pode ser genial. O modo como brinca com a estrutura narrativa, com o tempo, com o espaço. O modo como chafurda nas nossas mais depravadas fantasias (estamos a falar de um mundo em que os clientes mandam e tudo é possível) sem nunca esquecer o impacto emocional que estas podem ter. O modo como cria todo um novo mundo que não resistimos a querer descobrir – espelhando, até, uma das mais subtis razões para o sucesso de séries como “Game of Thrones”, por exemplo. E, claro, o modo se presta a abordar uma das mais essenciais questões que alguma vez nos podemos colocar: o que é ser humano?

Se um ser cibernético atinge um nível de inteligência artificial tal que se torna impossível de distingui-lo de um ser humano, podemos continuar a tratá-lo com um objeto? Ou, antes, devemos? Numa era em que tantas das nossas interações são conduzidas através de um dispositivo tecnológico, não seremos nós todos também um pouco máquinas? Será que os androides sonham com ovelhas eletrónicas?

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