Não existe nada mais solitário do que ser fã de ‘Highlander’

Yippie-Ki-Yay MotherFucker

Hoje vou sair do armário e confessar: o meu filme favorito é “Highlander”.

Pronto, falei.

Digo isso segundo um critério matemático: “Highlander” é o filme que mais vi na vida. Conheço todos os diálogos e não só: conheço a entonação de cada uma das frases.

E cada vez que revejo a porcaria do filme, ele fica melhor.

Mas a vida de quem gosta de “Highlander” não é fácil.

Fui jurado num concurso de criatividade há alguns anos e no primeiro dia o presidente do júri resolveu quebrar o gelo. Perguntou aos jurados – digam lá qual é o vosso filme favorito. Depois dos inevitáveis “Amélie Poulain”, “Cidade de Deus”, “The Godfather” e um obscuro filmes francês do qual eu nunca ouvi falar, chegou a minha vez. E eu – é “Highlander”. O jurado escocês quase vomitou – ele achava ridículo ter um francês (o Christopher Lambert) no papel de um escocês (o tal “highlander” do título). Os outros jurados se dividiram: uns achavam que era uma piada. Outros, uma afronta.

Coincidência ou não, nunca mais fui convidado para aquele festival.

Este ano resolvi: é hora de assumir publicamente o meu fetiche. Ou de pelo menos contar isso aos três leitores aqui da minha coluna. Tomei a decisão numa viagem a Nova Iorque com a família. É que passei a viagem inteira a falar para as minhas filhas – “Meninas, essa é a Bow Bridge onde o Connor Macleod se encontra com o Kastagir” ou “Meninas, essa é a Catedral de Saint Patrick onde o Kurgan desafia o Macleod”.

Quem chegou agora pergunta: “Highlander”? Que filme é esse?

Então, senta que lá vem resumão: “Highlander” é um filme de aventuras, fantasia e – nas palavras do realizador Russel Mulcahy – um quê de “graphic novel” que conta a história do guerreiro escocês Connor Macleod e começa no século XVI quando Macleod morre numa batalha entre clãs e descobre que simplesmente não consegue morrer: é imortal. É expulso da sua vila e passa os próximos séculos a vaguear pelo mundo, a travar duelos de espada com outros imortais que querem lhe cortar a cabeça (a única maneira de matar um imortal), em especial contra o pai de todos os vilões: o terrível Victor Kruger, um misto de guerreiro medieval com vocalista de banda heavy metal (o papel da vida do ator Clancy Brown).

A edição do filme é de deixar qualquer um de queixo caído. Ou, vá lá – de deixar um adolescente de São José do Rio Preto de queixo caído: como o filme acompanha 2.500 anos na vida do personagem principal, a narrativa é toda construída através de flashbacks. Estamos na Nova Iorque dos anos 80, a câmara foca num aquário na casa do herói, movimenta-se e pumba, estamos num lago na Escócia do século XVI.

Essa virtuose visual era a marca registada do realizador australiano Russell Mulcahy, então o rei da MTV. Duran Duran, Elton John, Bonnie Tyler: os vídeos que ele realizou para essa malta hoje são verdadeiros clássicos.

Graças a Mulcahy, íntimo das vedetas pop da altura, que a banda sonora acabou sendo feita pelos Queen. Convidados para visitar as filmagens, ficaram tão impressionados que gravaram um álbum inteiro inspirado no filme. “It’s a kind of Magic”, a música tema, virou um mega hit.

E depois temos o grande, o enorme, o gigantesco Sean Connery.

Em “Highlander”, o mítico ator escocês encontraria o papel que iria definir o terceiro ato da sua carreira: o mentor que ensina tudo ao personagem principal, um arquétipo que Connery iria voltar a fazer em “Os Intocáveis”, “A Caça ao Outubro Vermelho” e que só não foi repetido em “O Senhor dos Anéis” porque Connery recusou o papel de Gandalf.

Lançado em 1986, “Highlander” foi um enorme e estrondoso fracasso.

Custou 19 milhões e rendeu menos de 12.

Só quando saiu em VHS – jovem, era assim que se fazia antes do Netflix – é que “Highlander” começou a ganhar fãs e o estatuto de culto, dando origem a filhos cada vez mais bastardos: várias sequências manhosas, uma série de TV sofrível e outra de desenhos animados ainda pior.

Não admira que tudo de bom que o primeiro filme tinha acabasse se perdendo na memória coletiva, sendo lembrado apenas como “aquele filme foleiro dos anos 80”.

E as vezes nem isso – quando comuniquei ao André Simões, o gerente aqui da página, que iria escrever sobre “Highlander” a resposta foi: “Highlander” Nunca vi? É bom?”

Justo ele, o tipo que vê, literalmente, tudo.  E pior: gosta de tudo – até do “Cavalo de Guerra” do Spielberg.

Se este texto servir para que alguém veja, reveja e também se torne um fã de “Highlander” – nem que este alguém seja o André Simões – já vou estar satisfeito.

Porque aí já seremos dois.

Yippie-Ki-Yay, Motherfucker!

Facebook Comments
2 Comments
  1. Andre 19 Outubro, 2016 Reply
    • André Simões 24 Outubro, 2016 Reply

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *