Uma sinceridade obrigada.


Título original: The Daughter (2015)
Realizador: Simon Stone
Atores: Paul Schneider, Geoffrey Rush, Sam Neill, Ewen Lesli

Uma serração que empregava grande parte da população masculina de uma pequena cidade australiana fecha. O filme abre como se fosse um documentário – não fosse Geoffrey Rush aparecer, enquanto Henry, o dono da serração que traz más notícias e um dos homens mais ricos da cidade. De resto, há uma linguagem visual documental que atravessa todo o filme.

Descobrimos que Henry vai casar com uma rapariga que tem metade da sua idade e o filho, Christian, regressa à Austrália para o casamento, com pouca ou nenhuma vontade de participar. Cedo percebemos os motivos da sua insatisfação, e os segredos que até aí pareciam ser nenhuns acabam por ser revelados, pela sua própria iniciativa.

Nem todas as memórias que Christian atribui àquele lugar são más: reencontra Oliver, um dos ex-trabalhadores do pai e também um dos seus melhores amigos de infância. O pai de Oliver (Sam Neill) sofre de Alzheimer, mas não se esquece que ensinou Christian a jogar à bola – e que ele não era muito bom nisso. Christian conhece Charlotte, a mulher de Oliver, e a filha dos dois, Hedvig, uma jovem brilhante e independente. Charlotte é uma mulher calada e algo misteriosa, e Christian rapidamente percebe que ela é a chave para a resolução do grande enigma que o assola: o que aconteceu realmente à sua mãe?

As paisagens lindíssimas australianas têm algo de cru e imperturbado, como a vida da família de Oliver: numa casa no meio do campo, onde abunda vida selvagem e oportunidades para o amor adolescente se desenvolver mais afastado da vigilância dos progenitores. Perto há uma fábrica abandonada, onde Hedvig e o namorado experimentam a espingarda do avô para disparar contra coisas ou passam os finais de tarde a andar de bicicleta e a namorar.

Mas nem tudo é abundância. Há lugares vazios na escola preparatória de Hedvig que são preenchidos por espantalhos feitos de peças de ferro velho, presenças improvisadas, à medida que as famílias têm que procurar trabalho e outro lugar para morar.

Há uma certa ruralidade que contrasta com a vibe citadina de Christian, um empresário de sucesso de Nova Iorque, que veste fatos caros, mas o mais próximo que está da mulher é numa conversa de skype ou ao telemóvel. Oliver, por outro lado, parece ter tudo: é feliz na sua vida pacata, arranja rapidamente uma nova entrevista de trabalho, está apaixonado pela mulher e parece não ter qualquer arrependimento por não ter terminado a faculdade e seguido o futuro promissor que estava à sua espera. A vida continuou, todos cresceram.

Nessa dicotomia, é como se o universo rural aproximasse as pessoas, enquanto espaço da memória e do encontro consigo próprio e com o outro. Um espaço de purga que não se consegue sem algum desconforto inicial. No caso do protagonista, em busca da verdade, essa será uma viagem para enfrentar as mágoas que há anos afoga em bebida.

Este é principalmente um buddy movie, sobre a amizade de Christian e Oliver – aquele amor que nunca morre, como se diz. O momento em que se abraçam à saída do pub que frequentavam na universidade é um dos mais bonitos. «Não vamos crescer», diz Christian. «É tarde para isso», diz Oliver. Nota: é difícil ser adulto, não há famílias perfeitas e o amor não é pêra doce.

Seja este um filme muito ou pouco marcante, a luta das personagens entra-nos um bocadinho para debaixo da pele. O título é revelador, à medida que nos aproximamos da descoberta dos pequenos segredos e mergulhamos na vida destas personagens que são como o pequeno Ducky Lucky, o pato que o avô de Hedvig salva, após este ter sido ferido por Henry: feridas pela crueldade de que não se apercebem alguns, a precisar de reaprender a voar.

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