A Vida Deste Rapaz

 

A vida deste rapaz, puto dos anos 80, foi pautada por muitos filmes, séries e claro, desenhos animados. Este espaço é uma espécie de exercício de memória do que mais me marcou nestas décadas de vida.

Para estrear nesta crónica, vou falar de um dos filmes mais marcantes na minha vida e do senhor que estava por cima a puxar os cordelinhos.

O The Breakfast Club (O Clube, em Portugal) de 1985 é um daqueles filmes que se tornou para muitos um filme de culto, quando era suposto ser mais um simples filme, passado numa escola secundária. Mas John Hughes conseguia fazer do simples, uma coisa divertida, relevante (na maioria dos casos), mas acima de tudo quase sempre muito humana. Mesmo nos seus filmes mais palermas, há sempre um compasso que o guia e faz com que consiga relacionar os seus personagens com o seu público. Teve também o dom de saber escrever sobre e para malta mais jovem. Sixteen Candles (16 Primaveras), Weird Science (Que Loucura de Mulher), Ferris Bueller’s Day Out (O Rei dos Gazeteiros), Pretty in Pink (A Garota do Vestido Cor-de-Rosa) e Home Alone (Sozinho em Casa) são alguns bons exemplos disso.

Talvez não tão conhecido, The Breakfast Club é para mim a sua obra prima. 
Este não é o habitual filme de High School. É um filme que nos faz pensar no modo como nos relacionamos com quem não convivemos habitualmente. Seja porque se vestem de maneira diferente, porque ouvem outro tipo de música, ou porque simplesmente não os conhecemos.

Sem termos qualquer tipo de introdução, cinco jovens cumprem um castigo de suspensão num sábado na biblioteca da escola. E logo há partida se percebe que vêm de “mundos” diferentes. Brian (Anthony Michael Hall) é o crânio do grupo, Claire (Molly Ringwald) a Miss popular, John (Judd Nelson) o rebelde, Allison (Ally Sheedy) a excluída da sociedade e Andrew (Emilio Estevez) o desportista. Nos corredores da escola, é suposto não se falarem. É normal não gostarem uns dos outros. Mesmo sem se conhecerem.

O facto de estarem obrigados a conviver durante toda a tarde e a partilha de um inimigo comum, o Professor Vernon (Paul Gleason), leva-os, com alguma resistência, a partilharem as suas histórias, e a descobrir que afinal não são assim tão diferentes uns dos outros.

Na verdade, todos têm os seus problemas. Uns mais pesados do que outros, alguns que até podem parecer superficiais, mas que para a cabeça de um teenager são igualmente esmagadores. A pressão de ser popular, ou de não desiludir os altos standards de um pai, podem ser tão devastadores como a violência doméstica ou mesmo a ausência de uma referência parental. E assim como não quem não quer a coisa, Hughes dá-nos um curso intensivo de como o (hoje tão “popular”) bullying pode ter consequências tão duras na pele de um teenager.

Estava eu a caminhar para os meus anos “teen” quando vi este filme, que na altura me divertiu, mas acima de tudo me expôs para realidades que desconhecia. John Hughes tinha este dom, de esconder temas adultos, mascarados em sequências divertidas, com os putos que estavam na moda, com as miúdas com quem nos apaixonávamos, pautadas pelos hits dos anos 80. E nós, sem saber como, aprendíamos lições de vida e olhávamos para “dentro” à procura dos defeitos que identificávamos nas suas personagens.

[neste momento, deve-se imaginar que está a dar no rádio o Don’t You (Forget About Me) dos Simple Minds]

Completamente apanhados na teia da cultura teen pop, nós mesmo ficámos em detenção naquela tarde, naquela biblioteca e saímos de lá mais tolerantes e mais adultos. E de punho cerrado no ar… porque não?…

maxresdefault

 

Dear Mr. Vernon,

We accept the fact that we had to sacrifice a whole Saturday in detention for whatever it is we did wrong. But we think you’re crazy for making us write an essay telling you who we think we are. You see us as you want to see us in the simplest terms, in the most convenient definitions. But what we found out is that each one of us is a Brain… and an Athlete… and a Basket case… a Princess… and a Criminal… Does that answer you question?

Sincerely Yours,
The Breakfast Club

Facebook Comments

Leave a comment