À segunda é mais barato

 

Sou crítico, bastante crítico. Mas não de cinema. Mas é sobre isso que irei escrever neste espaço. Vão ser linhas que não respeitam os passos de Vogler nem as opiniões do Jorge Mourinha. Vão ser linhas em que as minhas opiniões se misturam com as emoções. Aquelas que um filme desperta no meu eu mais profundo. Numa camada abaixo do consciente, vá. Aquelas que me vão invadir a psique depois de comprar o meu bilhetinho e me enterrar confortavelmente na cadeira do cinema.

Não, isto não é um filme sobre trocas. Pelo menos de casais. É mais sobre trocas de ritmos num instrumento que me é particularmente caro: a bateria.

Quando um aspirante a baterista (Andrew Neiman/Milles Teller), de dezanove anos, entra no Conservatório de Shaffer e encontra um mentor (Terence Fltecher/J.K. Simmons) que é tudo menos convencional e o leva aos limites que ele nem sabia que tinha, isso foi para mim uma razão mais do que suficiente para me sentar em frente ao ecrã e disfrutar. E como já andava há uns tempos a ter aulas de bateria comecei logo a fazer rufos que é como quem diz, esfregar as pautas de contente.

Aviso já que este texto é tendencioso e parcial. Metade baseado no filme a outra metade no sofrimento que passo sentado em frente à bateria, completamente fora do ritmo.

O travelling inicial agarra logo. Está um puto a esforçar-se que nem um doido numa bateria. Surge o mentor/professor/parvalhão/exigente/profissional/ sargentão /…. (há espaço para adjectivarem como quiserem que o gajo é rico em interpretações) e parece interessar-se pelo que o puto está a tocar. Ao mesmo tempo desliga-se e despreza-o. Ui! Temos filme, pensei eu. Gancho logo logo no início. E não é que se torna para mim, um dos melhores filmes que vi (eu avisei que ia ser parcial).

Este é um filme sobre combate e superação de limites. É impossível não referir aquele momento em que o rapaz termina um ensaio, depois de uma verdadeira batalha com os outros dois bateristas pelo ‘tempo’ certo. Nem o Stallone tinha a cara tão mal tratada depois de ter levado mais um enxerto de um gajo qualquer.

Terence Fletcher: [after several hours of drumming] Maybe it’s time to *finally* bring this home. What do you say?

[Nieman starts drumming]

Terence Fletcher: Don’t slow down. Pick it up! FASTER!

[bangs cowbell in front of Nieman]

Terence Fletcher: FASTER!

[throws drum]

Terence Fletcher: FASTER! FASTER! FASTER! KEEP PLAYING, KEEP PLAYING, KEEP PLAYING. DON’T STOP!

[calls for a halt]

Terence Fletcher: Nieman, you earned the part.

Ao longo de todo o filme há uma batalha professor/aluno que toma proporções, nem sempre, épicas. A luta pelo potencial de Andrew é uma causa. E essa causa não pode ser perdida, mesmo que muitas das vezes a forma para lá chegar não seja propriamente saudável, para usar um eufemismo. É sangue (muitos pensos e muitas gotas em cima daquelas tarolas), suor e muitas lágrimas. Mesmo muitas. Vemos um puto ingénuo e sonhador que vai ganhando forma, carácter, moldando a sua personalidade, pela acção despótica do mentor, tornando-se um verdadeiro animal das baquetas. A obsessão com o ‘tempo’, com a técnica, com a batalha com o mentor torna Andrew num ser que funciona em swings, tercinas, 8th notes, ….. Nem arranja um tempinho para namorar com a rapariga gira que lhe vende as pipocas no cinema e que também tem sonhos. Bom, mas parece que ainda não sabe bem quais são.

Terence Fletcher: I never really had a Charlie Parker. But I tried. I actually fucking tried. And that’s more than most people ever do.

Mr. Terence Fletcher levava a sério a sua missão.  O talento de Andrew é uma batalha que nunca sabemos até ao final se pode ser ganha por algum dos protagonistas.

Tum-tum-tum, tum-tum-tum.
Já se ouve o swing e, digo-vos do fundo das minhas tarolas e timbalões, que vale mesmo a pena acompanhar a pauta desta história.

Whiplash ganhou Óscares (J.K. Simmons – melhor ator secundário) e outros prémios, mas merecia o Óscar para a maior quantidade de pensos rápidos gastos num ensaio de bateria.

Para quem quer conhecer e ultrapassar limites, sente-se no sofá e ligue o ecrã. A mim ensinou-me bastantes coisas. Simões, deixa-te de merdas, senta-te à bateria, pega nas baquetas e nas pautas e deixa de ser preguiçoso. Já não é nada mau.

Again! And faster!

 

Título original: Whiplash (EUA – 2014)
Realizador: Damien Chazelle
Argumento: Damien Chazelle
Protagonistas: Miles Teller, J.K. Simmons, Melissa Benoist

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